Apesar das pressões dos quartéis, a comissão que vai abrir os arquivos da ditadura militar finalmente sairá do papel
Hugo Marques
| RESGATE HISTÓRICO O País começará a conhecer a história dos anos de chumbo |
Nenhum tema tem sido mais incômodo para os militares do que a possibilidade de serem abertos os arquivos da ditadura. A revelação sobre atrocidades cometidas por oficiais e subalternos nos anos de chumbo transformou-se em tabu nas casernas. Mas, apesar da resistência, parece estar chegando a hora de o Brasil conhecer o que aconteceu nos porões do regime de força, entre 1964 e 1985. O Congresso Nacional prepara-se, finalmente, para aprovar e instalar a Comissão da Verdade, à qual caberá reconstituir os fatos históricos.
Setores das Forças Armadas não param de estrilar. Na quarta-feira 9, o jornal “O Globo” publicou um documento, enviado ao ministro da Defesa, Nelson Jobim, em que o Exército adverte que a Comissão “provocará tensões e sérias desavenças”. “Comissões dessa natureza costumam ser criadas em um contexto de transição política, o que não é o caso na atualidade. Passaram quase 30 anos do fim do governo chamado de militar e muitas pessoas que viveram aquele período já faleceram”, destaca o ofício do Exército, despachado em fevereiro. O ministro Nelson Jobim, no entanto, disse que as críticas haviam sido feitas em setembro do ano passado e que, de lá para cá, o pensamento do Exército teria mudado muito.
Nelson Jobim afirma que procurou pessoalmente o comandante do Exército, general Enzo Peri, para enterrar de vez a reação do meio militar. “O texto do projeto de lei da Comissão da Verdade é meu”, disse o ministro, alegando estar unido à ministra da Secretaria dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, e ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo: “Nós três vamos retomar com força o projeto de lei da Comissão da Verdade.” A ministra Maria do Rosário preferiu não fazer comentários sobre o documento do Exército.
Recentemente, no entanto, ela disse à ISTOÉ que o objetivo do governo não é o de punir militares. “A comissão não prevê qualquer revanchismo, está inspirada em outros países, particularmente na África do Sul”, explicou Maria do Rosário. Candidata a membro da Comissão da Verdade, a deputada federal Luiza Erundina (PSB-SP) é mais contundente: “É uma vergonha para o Brasil ser o único país da América a não punir esses torturadores.”
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