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Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo
Pois encrenquei de vez com o tal Dia Internacional da Mulher. Deixem que eu descreva um sucedido e acontecido na minha ex-empresa, pois, como alguns sabem, em outra vida eu fui ex-mega-empresário. E tínhamos escritórios em mais de uma cidade, e o nosso RH, em Curitiba, decidiu fazer uma homenagem às mulheres, e quando eu cheguei ao trabalho, no escritório de Porto Alegre, a cizânia estava instalada e comandando a festa.
Eu não sabia de nada, tal qual um dirigente do DEM, e pedi que me explicassem a natureza do problema, que era simples: o que as mulheres do RH, em Curitiba, achavam uma boa idéia, entregar uma rosa, um poema e algumas mensagens de inspiração para cada mulher da empresa, nossas colaboradoras de Porto Alegre - designers, redatoras, diretoras de arte - tinham achado uma ofensa e queriam guerra. "Não somos mulherzinhas, somos profissionais, somos iguais, e não aceitamos esse tratamento condescendente", disseram as mulheres em Porto Alegre, e eu concordei, claro. Era por isso mesmo que elas estavam ali, por serem ótimas profissionais, em uma empresa premiada continuamente, no país inteiro, não havia por que serem vistas de outra maneira. A questão, que eu não coloquei para não aumentar a temperatura do ambiente, era que a tal homenagem tinha sido criada e executada por outras mulheres, e não homens com qualquer intenção, boa ou má.
Onde ficamos, estimados leitores e leitoras? Salientar as eventuais diferenças, ou neutralizá-las? Buscar legislação compensatória, ou acabar com a necessidade dela na origem? Se o que buscamos é igualdade, vale a pena viver das diferenças?
E, na prática, que diferenças são essas? Na Arábia Saudita elas são mais, digamos, evidentes. Se mulheres não podem dirigir automóvel ou ter conta em banco, precisamos de muito mais do que legislação. Precisamos de um banho cultural coletivo, ou de alguns séculos de transformação social, como no Ocidente. As sauditas estarão dispostas a esperar?
Mas, estimados leitores e leitoras, aqui não é o mundo islâmico profundo, e essas questões, felizmente, não são nossas, mesmo que, de alguma maneira, sejam de todos. A nossa questão é: Dia da Mulher é bom, como achavam nossas queridas curitibanas, ou péssimo, como achavam nossas estimadas gaúchas? Se o que vale em uma cidade mais conservadora, ou para mulheres mais conservadoras, não vale para uma cidade mais progressista, ou mulheres mais progressistas, o que é que vale? Como nós, homens, que desejamos colaborar de alguma maneira para com a igualdade, fraternidade e liberdade, devemos nos posicionar?
Pois eu vos digo que acho que a gente estaria melhor sem o tal Dia, e com mais igualdade prática. Dia de Alguma Coisa inspira coitadismo, eu acho. E coitadismo é inimigo do protagonismo, esse sim, libertador e equalizador. Estamos falando, caros leitores e leitoras, de mudanças muito, muito recentes, e que ainda começam a fazer efeito. Homens e mulheres tiveram trajetórias divergentes por milênios, e há apenas umas décadas começamos a enfartar por motivos semelhantes, tais como contas a pagar. Puxando a brasa pra sardinha masculina, eu diria que nos mostramos flexíveis e dispostos a lidar com a mudança e ela acontece, e precisa acontecer mais. Mulheres também tem a sua parte a mudar na imagem, nos estereótipos. Se as mulheres aceitam essa superexposição corporal, essa associação com a vaidade como um atributo, fica mais difícil se livrarem de uma imagem de superficialidade. Se essa imagem de temperamento recheado com TPM for mantida, fica mais difícil projetar liderança, que prevê estabilidade e ordem como valores centrais. Nesse sentido, Dilma contribui muito mais por projetar essa imagem da contenção e controle, de firmeza e comando, do que por ser a primeira presidente, ou presidenta.
Que fique claro aqui, estimados leitores e leitoras, tão claro como a imagem da Jackie Roriz recebendo aquela mufunfa, que esse que vos atormenta é absolutamente a favor da igualdade entre homens e mulheres, de qualquer orientação sexual, de todas as cores, tamanhos e preferência clubística. A questão, o busílis, é método.
O meu método preferido, por mais que goste de palavras e discursos, coisa da minha profissão, é o da ação, da ocupação dos espaços, da tomada do poder e da responsabilidade. Mulheres comandando meios de comunicação e decidindo como tratar a exposição feminina no carnaval, por exemplo, coisa deixada aos homens com os resultados conhecidos. Mulheres tomando posições centrais e abrindo mão de homens que gentil e simbolicamente abram as suas portas. Mulheres aceitando as perdas que essas mudanças inevitavelmente irão trazer, na expectativa dos ganhos, que se medem em ausência, das diferenças, por exemplo.
A humanidade avança quando assume esses riscos, se complica quando não quer perder nada, especialmente o que entende como privilégios. Então vamos lá, passo a passo, dar mais esse passo. Eu acho que, de alguma maneira milagrosa e misteriosa, esse passo é o passo certo, e, portanto, vai dar certo.
Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista.
Escreveu o argumento do curta-metragem "O Branco", premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos "Simples" e o romance "O Nosso Juiz", pela editora Record. Acaba de escrever o romance "Depois do Sexo", que foi publicado em junho pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances "Insônia" e "Antes que o Mundo Acabe", publicados pela editora Projeto.
do TERRA MAGAZINE
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