de Eduardo Guimarães
A decisão unanime do STF autorizando atos públicos em defesa da legalização da maconha não apenas mostra como foram inconstitucionais as decisões judiciais de instâncias inferiores nos Estados que proibiram a realização de tais atos, mas exige o destaque do enigma que envolve a proibição de uma droga que está longe de ser a mais nociva.
A irracionalidade em relação à mais leve das drogas é tanta que a polícia paulista cometeu o desatino de reprimir com violência jovens cujo “crime” fora apenas o de exercer o direito constitucional de reunião, manifestação e de liberdade de opinião.
Quantas vezes você ouviu conservadores clamarem por repressão à maconha enquanto consumiam doses e mais doses de álcool? Quantas vidas foram destruídas pelo álcool e quantas você soube que foram destruídas pela erva?
Claro que a maconha, como toda droga que mexe com o estado de consciência, produz efeitos nocivos e, portanto, deve ser evitada. Todavia, os efeitos do álcool, que movimenta uma indústria bilionária, são infinitamente mais potentes. Ou você já tomou conhecimento de alguém que fumou maconha e saiu cometendo barbaridades com um carro?
Um copo cheio de uísque causa efeitos muito mais intensos do que um cigarro de maconha jamais poderia. Sobretudo no que diz respeito aos reflexos, ao equilíbrio e ao controle emocional. Mas você pode ir à esquina de casa e ingerir álcool legalmente até atingir um estado de torpor que o impedirá até de andar, quanto mais de dirigir. E a lei permite.
Ao contrário do que os conservadores pensam, a tal “porta de entrada” para as drogas de que tanto falam nunca foi a maconha, mas o álcool. Essa é a primeira droga que ingerem praticamente cem por cento dos usuários de drogas químicas, as mais perniciosas que se conhece.
Durante os dias que antecederam e sucederam a Marcha da Maconha que a Justiça proibira, no entanto, o termo “maconheiro” foi largamente usado por jornalistas conservadores. Era como se fosse uma palavra mágica que simplesmente sendo mencionada já dispensaria qualquer discussão sobre o assunto.
O enigma da maconha reside em ser considerada mais nociva do que o álcool e sinônimo de degeneração moral apesar de nem ser mais nociva nem a substância dos degenerados, pois álcool destrói o usuário contumaz muito mais do que a droga natural. É um mistério, pois, a razão pela qual conservadores aceitam a pior droga e rejeitam tanto a menos danosa.
O enigma da maconha, na verdade, é o enigma que cerca os que fazem da hipocrisia, da moral seletiva, dos dogmas irracionais, do preconceito e do autoritarismo um ideal de vida. São aqueles que, por tanto tempo, mantiveram o Brasil em um transe do qual, a cada dia que passa, vai despertando.
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