do CMI Brasil

'O nosso mundo está dividido entre os indignos e os indignados'. Eduardo Galeano, escritor uruguaio (1940).
A segunda década do século XXI iniciou com muitas reviravoltas, e porque não, revoluções à nível mundial. São recorrentes as discussões a respeito dos protestos no mundo árabe, e também das ocupações dos 'acampados' nas praças ou dos 'indignados', em algumas capitais européias, que têm como contexto uma crise econômica e social.
Com o objetivo de ouvir uma das vozes dos 'Indignados', o Centro de Midia Independente Brasil (Indymedia Brasil) entrevistou Juan Calvente, um bombeiro anarquista da CGT (Confederación General del Trabajo) da Espanha, para saber um pouco do que se passa naquele país. A entrevista, feita em espanhol e através de um programa de bate-papo, perspassou questões bem amplas como também pontos específicos: a situação sócio-econômica da Espanha, o Movimento 15 de Maio, as forças políticas do movimento, a questão das redes sociais, as articulações internacionais e um chamado de ação global para o dia 15 de outubro.
Iniciou-se perguntando sobre o que passava na Espanha atualmente. Juan respondeu, que depois que começou a crise há 3 anos, as pessoas têm saído às ruas indignadas por tudo: 'As políticas dos governos e das multinacionais estão retirando direitos sociais e liberdades das pessoas'.
Escute aqui a entrevista completa
Artigos: Indignados na Puerta del Sol (Caros Amigos) | Acampados (Passa Palavra) | Impressões sobre a acampada de Lisboa (Passa Palavra) | Pascual Serrano: 'O 15 de Maio é um sintoma, não uma alternativa' (Portal Vermelho)
Notícias Atualizadas: Midia Independente Madrid | Midia Independente Atenas |Tome a Praça!
Em relação a indagação de como o Movimento 15 de Maio (15-M) funciona, Calvente destacou que é um movimento que nasceu a partir da ocupação nas Praças da Espanha nessa mesma data e que segue um exemplo de experiência de auto-gestão e auto-organização. No entanto, frisou que há dois segmentos no 15 de Maio, um mais reformista com debates institucionais e sobre as mudanças de leis, e outro que indaga a própria concepção de sistema reivindicando um 'outro mundo possível'. Quando perguntado se era possível um movimento com tanta plularidade e tantas forças diferentes fazer mudanças sociais efetivas, ele disse que há possibilidades de dizer e fazer mudanças a partir de uma perspectiva horizontal: 'Uma coisa do movimento é que não querem líderes, não querem dirigentes. E isso todo mundo está respeitando, está se respeitando a horizontalidade, o assembleismo'. E destacou, 'temos que ser pacientes, andar devagar (...) Até agora a sociedade têm imposto que temos que correr todo dia, e quando chegamos à noite, chegamos em casa, e caímos na cama, mas cansados'. Ao levantar, ele próprio, a reflexão do que iria sair desse movimento, o libertário coloca de forma madura:'Não sei, mas de antemão, me parecem coisas muito belas (?) Estamos fazendo, embora lentamente, de forma acelerada. Em que sentido? Um mês e meio e passou muitas e muitas coisas. Muitos mais coisas do que anos dos movimentos sociais aqui na Espanha '.
A respeito da relação das redes sociais com as mobilizações, o anarquista acredita que elas têm possibilitado a horizontalidade e destacou que apesar de ser usado as redes tradicionais o próprio movimento criou a sua própria rede denominada N-1 que é autogestionada pelo próprio movimento e também houve imagens de televisão própria do 15-M . 'Evidentemente a maioria das pessoas estão nas redes convencionais como Twitter, facebook ou outras (?) Foram criadas organizações em cada província, em cada cidade, em cada povo...Málaga, Madrid, Barcelona. (?) Em um momento na Praça de Catalúnia havia 500, 600 pessoas e em uma hora e meia passou a milhares de pessoas na praça quando a polícia teve que reprimir'. Ainda sobre esse ponto das redes, questionamos sobre o perigo da veiculação de informações do próprio movimento nesses espaços de rede convencionais já que se tratavam de instituições administradas por empresas privadas (citamos inclusive o caso do Blog da Ocupação da USP aqui no Brasil que foi desativado sem nenhuma justificativa plausível pelo provedor Terra), Juan contou que houve lá algo parecido: 'Facebook cortou alguns perfis, perfis de grupos, onde havia milhares de pessoas. Por isso se está trabalhando dentro do movimento redes sociais autogestionadas. Mas aqui na Espanha o movimento social já está montado. E estamos montando rádios e televisões'.
Juan Calvente destacou também o próximo dia 15 de Outubro como um dia de protestos a nível mundial ? frisou que há um chamado a mobilizações em todo mundo, e inclusive conclamando os companheiros no Brasil e de todo mundo para essa articulação. Não entrou em detalhes sobre a data, mas colocou que 'Vai emergir de novo o internacionalismo. Por isso penso que a data 15 é uma data importante, não é única, mas importante'. E quando perguntando sobre o que achava das predecessoras articulações mundiais como a Ação Global dos Povos ou os Fóruns Sociais Mundiais, disse que essas mobilizações criaram um legado que facilita o processo atual. Aborda a necessidade da importância do ano 2011 para o calendário da história e crê que essa data pode ser uma data muito bonita e somativa.
Quando indagado sobre como está o 15-M atualmente, sua força e sua energia, já que houve a desocupação de várias praças, Juan respondeu: 'As praças potenciaram os movimentos. Mas, agora mesmo, o movimento está tendo mais força porque o movimento está nos bairros das cidades e nos povos pequenos. Nesse momento em Málaga estamos debatendo que modelo darnos. Há um mês e meio falamos de tudo. E nesse momento tiraram muitas coisas de nós e agora nós queremos tudo ? esse é um dos lemas também do movimento. (?) Uma coisa que está tendo muito êxito é que os bancos e os juízes estão indo roubar as casas das pessoas que não podem pagar porque estão paradas e só têm dinheiro para comer e não para pagar. Estão se fazendo concentrações diante das casas e nem os juizes, nem a polícia, nem os bancos podem entrar. Portanto, estão atrasando a hora de desalojar essas pessoas. O movimento está indo aonde estão as pessoas.'
Por fim, sabemos que escutamos, nessa entrevista, somente uma das milhões de vozes indignadas que clamam por justiça e liberdade em todos os cantos dessa planeta. Entretanto, ouvir uma voz de alguém no olho do furacão nos leva a potência cada vez mais forte de nos andentrarmos não somente nessa tempestade internacional como também nas nossas lutas locais e cotidianas. Que venha o 15 de Outubro e várias outras datas, afinal, também estamos indignados.
'O nosso mundo está dividido entre os indignos e os indignados'. Eduardo Galeano, escritor uruguaio (1940).
A segunda década do século XXI iniciou com muitas reviravoltas, e porque não, revoluções à nível mundial. São recorrentes as discussões a respeito dos protestos no mundo árabe, e também das ocupações dos 'acampados' nas praças ou dos 'indignados', em algumas capitais européias, que têm como contexto uma crise econômica e social.
Com o objetivo de ouvir uma das vozes dos 'Indignados', o Centro de Midia Independente Brasil (Indymedia Brasil) entrevistou Juan Calvente, um bombeiro anarquista da CGT (Confederación General del Trabajo) da Espanha, para saber um pouco do que se passa naquele país. A entrevista, feita em espanhol e através de um programa de bate-papo, perspassou questões bem amplas como também pontos específicos: a situação sócio-econômica da Espanha, o Movimento 15 de Maio, as forças políticas do movimento, a questão das redes sociais, as articulações internacionais e um chamado de ação global para o dia 15 de outubro.
Iniciou-se perguntando sobre o que passava na Espanha atualmente. Juan respondeu, que depois que começou a crise há 3 anos, as pessoas têm saído às ruas indignadas por tudo: 'As políticas dos governos e das multinacionais estão retirando direitos sociais e liberdades das pessoas'.
Escute aqui a entrevista completa
Artigos: Indignados na Puerta del Sol (Caros Amigos) | Acampados (Passa Palavra) | Impressões sobre a acampada de Lisboa (Passa Palavra) | Pascual Serrano: 'O 15 de Maio é um sintoma, não uma alternativa' (Portal Vermelho)
Notícias Atualizadas: Midia Independente Madrid | Midia Independente Atenas |Tome a Praça!
Em relação a indagação de como o Movimento 15 de Maio (15-M) funciona, Calvente destacou que é um movimento que nasceu a partir da ocupação nas Praças da Espanha nessa mesma data e que segue um exemplo de experiência de auto-gestão e auto-organização. No entanto, frisou que há dois segmentos no 15 de Maio, um mais reformista com debates institucionais e sobre as mudanças de leis, e outro que indaga a própria concepção de sistema reivindicando um 'outro mundo possível'. Quando perguntado se era possível um movimento com tanta plularidade e tantas forças diferentes fazer mudanças sociais efetivas, ele disse que há possibilidades de dizer e fazer mudanças a partir de uma perspectiva horizontal: 'Uma coisa do movimento é que não querem líderes, não querem dirigentes. E isso todo mundo está respeitando, está se respeitando a horizontalidade, o assembleismo'. E destacou, 'temos que ser pacientes, andar devagar (...) Até agora a sociedade têm imposto que temos que correr todo dia, e quando chegamos à noite, chegamos em casa, e caímos na cama, mas cansados'. Ao levantar, ele próprio, a reflexão do que iria sair desse movimento, o libertário coloca de forma madura:'Não sei, mas de antemão, me parecem coisas muito belas (?) Estamos fazendo, embora lentamente, de forma acelerada. Em que sentido? Um mês e meio e passou muitas e muitas coisas. Muitos mais coisas do que anos dos movimentos sociais aqui na Espanha '.
A respeito da relação das redes sociais com as mobilizações, o anarquista acredita que elas têm possibilitado a horizontalidade e destacou que apesar de ser usado as redes tradicionais o próprio movimento criou a sua própria rede denominada N-1 que é autogestionada pelo próprio movimento e também houve imagens de televisão própria do 15-M . 'Evidentemente a maioria das pessoas estão nas redes convencionais como Twitter, facebook ou outras (?) Foram criadas organizações em cada província, em cada cidade, em cada povo...Málaga, Madrid, Barcelona. (?) Em um momento na Praça de Catalúnia havia 500, 600 pessoas e em uma hora e meia passou a milhares de pessoas na praça quando a polícia teve que reprimir'. Ainda sobre esse ponto das redes, questionamos sobre o perigo da veiculação de informações do próprio movimento nesses espaços de rede convencionais já que se tratavam de instituições administradas por empresas privadas (citamos inclusive o caso do Blog da Ocupação da USP aqui no Brasil que foi desativado sem nenhuma justificativa plausível pelo provedor Terra), Juan contou que houve lá algo parecido: 'Facebook cortou alguns perfis, perfis de grupos, onde havia milhares de pessoas. Por isso se está trabalhando dentro do movimento redes sociais autogestionadas. Mas aqui na Espanha o movimento social já está montado. E estamos montando rádios e televisões'.
Juan Calvente destacou também o próximo dia 15 de Outubro como um dia de protestos a nível mundial ? frisou que há um chamado a mobilizações em todo mundo, e inclusive conclamando os companheiros no Brasil e de todo mundo para essa articulação. Não entrou em detalhes sobre a data, mas colocou que 'Vai emergir de novo o internacionalismo. Por isso penso que a data 15 é uma data importante, não é única, mas importante'. E quando perguntando sobre o que achava das predecessoras articulações mundiais como a Ação Global dos Povos ou os Fóruns Sociais Mundiais, disse que essas mobilizações criaram um legado que facilita o processo atual. Aborda a necessidade da importância do ano 2011 para o calendário da história e crê que essa data pode ser uma data muito bonita e somativa.
Quando indagado sobre como está o 15-M atualmente, sua força e sua energia, já que houve a desocupação de várias praças, Juan respondeu: 'As praças potenciaram os movimentos. Mas, agora mesmo, o movimento está tendo mais força porque o movimento está nos bairros das cidades e nos povos pequenos. Nesse momento em Málaga estamos debatendo que modelo darnos. Há um mês e meio falamos de tudo. E nesse momento tiraram muitas coisas de nós e agora nós queremos tudo ? esse é um dos lemas também do movimento. (?) Uma coisa que está tendo muito êxito é que os bancos e os juízes estão indo roubar as casas das pessoas que não podem pagar porque estão paradas e só têm dinheiro para comer e não para pagar. Estão se fazendo concentrações diante das casas e nem os juizes, nem a polícia, nem os bancos podem entrar. Portanto, estão atrasando a hora de desalojar essas pessoas. O movimento está indo aonde estão as pessoas.'
Por fim, sabemos que escutamos, nessa entrevista, somente uma das milhões de vozes indignadas que clamam por justiça e liberdade em todos os cantos dessa planeta. Entretanto, ouvir uma voz de alguém no olho do furacão nos leva a potência cada vez mais forte de nos andentrarmos não somente nessa tempestade internacional como também nas nossas lutas locais e cotidianas. Que venha o 15 de Outubro e várias outras datas, afinal, também estamos indignados.
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