do PÚBLICO.PT
Texto publicado originalmente no PÚBLICO de dia 21/05/2011

O "choque de culturas" entre americanos e franceses a propósito da prisão de Dominique Strauss-Kahn (DSK) gira em torno de duas perguntas. Têm os poderosos direito a um tratamento especial? E, inversamente, a celebridade de um homem pode privá-lo da presunção de inocência?
Dominique Strauss-Kahn
Dominique Strauss-Kahn (Tobias Schwarz/Reuters)
Antes de ser julgado - e de ser sequer acusado - o director do Fundo Monetário Internacional (FMI), e favorito às eleições presidenciais francesas, foi sumariamente "executado" através das imagens. Na América "não é a justiça que é violenta, são as imagens (...) e a queda é mais dura quando se é poderoso", resume um advogado francês que frequenta os tribunais de Nova Iorque.

O tempo da justiça é longo, exige investigação e prova. O tempo mediático é instantâneo - agora é o tempo do Twitter.


A "execução" de DSK começou a ser encenada logo nas primeiras notícias - eco de declarações policiais ou de fontes não identificadas. Violação e fuga, a agressão de uma modesta africana, empregada de hotel, por um homem célebre, rico e poderoso - um "bruto nu" que sai da casa de banho. É uma história mal contada.

As muitas contradições e zonas de sombra fizeram evocar a hipótese de cilada e suscitaram delirantes teorias conspirativas, sobretudo em França. Ao mesmo tempo, a imprensa americana iniciava uma arriscada derrapagem: a lista de "proezas sexuais" de DSK e o sentimento de impunidade atribuído às elites francesas explicavam o crime. Nestes termos, de "devasso" a "agressor sexual" iria um passo, que alguns não hesitaram em dar.

O ponto crítico foi a exibição de DSK algemado. Interrogou-se um jornal francês: "Porquê a cruel indecência de exibir assim, perante as televisões e fotógrafos do mundo inteiro, antes da verdade dos factos ter sido estabelecida, um Dominique Strauss-Kahn esgotado por horas de interrogatório, humilhado publicamente, algemado e escoltado por cinco polícias como um vulgar criminoso?"

Os americanos dão um nome a esta cerimónia - perp walk, abreviatura de perpetrator walk, a marcha de perpetrador ou do suspeito. É uma instituição da polícia americana. Uma prática secular, sem fundamento legal, que no início visava os grandes criminosos. Hoje, privilegia as pessoas ricas ou célebres. O objectivo é exibir em público, de forma humilhante, o suspeito de um crime. A polícia de Nova Iorque algema todas as pessoas detidas e conduzidas a um comissariado, célebres ou anónimas - excepto em delitos apenas sujeitos a multa. Não é uma prática de toda a América. Em Los Angeles, por exemplo, a polícia evita expor as pessoas célebres.

A generalização da perp walk em Nova Iorque remonta aos anos 1980, quando o então procurador (district attorney) Rudi Giuliani lançou uma ofensiva contra traders de Wall Street. Ao fim de poucos meses, as acusações foram retiradas. Mas Giuliani tinha alcançado o objectivo: mostrar que não havia "intocáveis". Foi aplaudido e, a seguir, eleito mayor da cidade.

A perp walk combina os interesses das televisões, que diziam precisar de imagens para ilustrar os feitos da polícia; e, para esta, é o reconhecimento mediático do seu trabalho ou, até, um troféu de caça. É uma prática popular. Em 1987, a Newsweek noticiou que o procurador Charles Hynes queria pôr fim à perp walk. O procurador teve de recuar perante a revolta dos polícias. A perp walk é criticada pelos defensores da presunção da inocência e dos direitos constitucionais. Um jornalista escreveu há anos: "Até Madre Teresa pareceria extremamente suspeita, com as mãos algemadas atrás das costas". Em 2003, os tribunais recusaram declarar a sua inconstitucionalidade.

Oliver Stone mostrou, no filme Wall Street, Charlie Sheen algemado e a deixar cair as calças, sem cinto, perante as câmaras. O cantor Michael Jacskon, o ex-governador de Illinois Ron Blagojevich ou Ken Lay, antigo presidente da Enron, são exemplos recentes. "Uma perp walk mata uma carreira política", escreveu há dias no Washington Post, a propósito de DSK, o colunista Eugene Robinson.

O antigo ministro francês Jack Lang acusou os americanos de "linchamento". Michael Bloomberg, mayor de Nova Iorque, defendeu a polícia e a aplicação da perp walk a DSK. "Penso que é humilhante. Mas se não querem a perp walk não cometam o crime." Corrigiu a seguir que o suspeito é inocente até ser condenado. A discriminação de que DSK foi vítima não está na "exibição" mas nas noites que passou na cela da prisão de Rikers Island, a derradeira humilhação. O actual procurador de Nova Iorque, Cyrus Vance Jr, explicou que o caso de Roman Polanski - e sobretudo a campanha francesa contra a sua extradição - justificavam o elevado risco de fuga e o encarceramento. Foi um ajuste de contas.

O que até agora aconteceu não determina o que se vai passar no julgamento. No sistema judicial americano, a primeira etapa do processo pertence por inteiro à polícia e ao procurador. "Com DSK, Vance Jr. tem o processo da sua vida que lhe permitirá consolidar a visibilidade da sua acção", assinala o correspondente do Figaro. "É um trunfo vital se tentar disputar um segundo mandato."

Mas durante o julgamento o confronto entre defesa e acusação é equilibrado. A defesa tem, inclusive, largos meios de investigação. O igualitarismo americano é no entanto relativo: a igualdade depende do dinheiro e da equipa de advogados. Não é o que falta a DSK. Falta a prova do tribunal.

A queda de DSK deixou os europeus siderados: uma tragédia pessoal, a cena política francesa de pernas para o ar, o FMI sem chefe em plena tempestade financeira na Europa. Os seus "casos" eram um segredo de polichinelo. A imprensa francesa respeita o princípio de que a investigação acaba à porta do quarto de dormir. Paris está perante um dilema incómodo: como equilibrar o respeito da privacidade com a tradicional impunidade judicial da elite política? Os franceses não ignoravam os riscos do homem que desejavam para presidente. De certa forma, preferiam um pecador competente a um mediano virtuoso.

Que significava DSK? "Provou ser um corajoso decisor, um político eficaz e um economista competente. Esta combinação é muito rara", escreveu o Financial Times, que homenageou o seu trabalho no FMI durante a crise financeira e nele via o político certo para dirigir França, o único com capacidade intelectual e credibilidade para equilibrar o poderio da Alemanha na UE e pilotar o eurogrupo na tempestade em curso.

Um dos poucos americanos a saudá-lo foi Steve Clemons, da New American Foundation, no seu blogue The Washington Note: "É uma verdadeira perda para a França e para o mundo - não que as suas faltas devam ser esquecidas e não o podem ser. Mas porque o seu papel na globalização - o significado de Strauss-Kahn - é vital para um mundo que ainda está a tentar encontrar a forma de capitalismo em que possa viver."

A Natureza tem horror ao vazio. A Europa lançou-se em campanha para conservar a liderança do FMI, perante a pressão dos países emergentes. Em França, o Partido Socialista entrou em pré-primárias para encontrar um candidato que enfrente Sarkozy, embora com algum sentido de orfandade. O político DSK desapareceu da cena. Sobrevive o homem Dominique Strauss-Kahn.

Ele não é apenas o libertino, célebre e poderoso. Faz evocar aquelas personagens que desafiam a tragédia pelo excesso ou pela desmesura - o homem que não se submete às convenções que regem a vida dos outros. "Um ar maciço, telúrico, animal, movido pelo prazer, que se conjuga com a inteligência aguda, o refinamento, a preocupação com os outros e a delicadeza de espírito", observa um psicanalista francês. "Encarna a dilaceração do homem moderno, entre a sede da fruição imediata e a desmedida ambição de construir um destino." A sua queda - diz - é uma "misteriosa autodestruição".

Os americanos celebram a superioridade do seu sistema legal e a demonstração de que os poderosos não estão acima da lei. Maureen Dowd, colunista do New York Times, vê a queda de DSK como "uma história exemplar da América, em que uma empregada de hotel pode ter dignidade e ser escutada quando acusa um dos homens mais poderosos do mundo de ser um predador." De DSK diz: "Ficamos sempre espantados com a contradição de pessoas cosmopolitas, poderosas e multilingues se poderem comportar de maneira tão primitiva."Anna Cabana, jornalista e escritora francesa, olha a foto de DSK na perp walk e vê um DSK "transfigurado por uma cólera sombria e orgulhosa", digno e de mármore. "Este homem, despojado do seu dandismo pela gravidade das circunstâncias, nunca foi tão belo. (...) À falta de palavras, tentamos ler a fisionomia de DSK como as ciganas lêem as linhas da mãos." Degradação e fadiga. Mas também "os sinais da sua vontade de se bater".

As tragédias são sempre olhadas por dois prismas.

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