do CartaCapital
Felipe Marra Mendonça
O Twitter tornou-se a principal fonte de informação atualizada dos distúrbios de Londres, mas o governo agora quer restringi-lo. Ilustração: Daniela Neiva

O Twitter teve papel fascinante nos distúrbios de Londres e mostrou o quanto podem ser importantes as redes sociais no período em que as mídias tradicionais não conseguiam acompanhar o que acontecia nas ruas da capital britânica.

Os primeiros indícios de que havia algo de errado em Tottenham, em 4 de agosto, chegaram a muitos londrinos pelo rádio. A Radio 5 Live, principal estação da BBC para notícias e esportes, começou a receber relatos de um ônibus em chamas durante a transmissão de um programa de debates sobre a pré-temporada dos times do campeonato nacional de futebol. Pouco depois um ouvinte entrou no ar e passou a relatar a batalha campal entre policiais e manifestantes, mas os canais de televisão não davam qualquer destaque ao que acontecia.

Com o passar das horas, tanto a BBC News quanto a Sky News, canais de notícias, mobilizaram equipes para o local e transmitiram imagens dos incêndios em Tottenham. O problema para os jornalistas e produtores dos canais era que as mesmas câmeras que mostravam os distúrbios para o mundo também permitiam identificar os manifestantes que tocavam fogo em carros de polícia, ônibus e edifícios. As equipes foram atacadas e tiveram que fugir rapidamente. Rádios e canais de televisão ficavam repetindo o que se sabia e mostravam imagens gravadas.

O Twitter passou assim a ser a principal fonte de notícias para quem queria informações atualizadas e confiáveis do que se passava em Londres. Dois repórteres conseguiram continuar com relatos do que acontecia na região: Paul Lewis do Guardian (@paullewis) e Ravi Somaiya, correspondente londrino do New York Times (@ravisomaiya). Somaiya chegou a comentar que gangues passaram a “confiscar” telefones celulares que ficassem expostos, mas continuou com suas notícias de 140 caracteres ao longo da noite.

Além de se tornar importante -retransmissor do que acontecia -pelos bairros- da capital, o Twitter passou também a -auxiliar os repórteres que cobriam os distúrbios. Tanto Lewis quanto Somaiya, além de produtores dos canais de notícias, passaram a guiar suas coberturas a partir de sugestões dadas por usuários distribuídos pela cidade e por outros cantos da Inglaterra que se viram tomados por saqueadores nos dias seguintes, como Birmingham e Liverpool.

É exatamente a importância desse papel informativo do Twitter que demonstra o quanto é obtusa a ideia defendida pelo primeiro-ministro conservador David Cameron perante o Parlamento britânico em 11 de agosto. O governo pretende monitorar e por vezes interromper o funcionamento de redes sociais caso sejam usadas para organizar distúrbios e saques, como de fato aconteceu por toda a Inglaterra durante aquela semana. É uma tarefa praticamente impossível, felizmente até por motivos legais. Tentar monitorar em tempo real milhares de mensagens para coibir o crime é quase impossível, além de ser um cerceamento perigoso da liberdade de expressão. Um governo que pensa seriamente em adotar essa medida não pode depois pedir a regimes autoritários, como o governo britânico fez com Tunísia, Egito, Síria e agora Líbia, que não desliguem suas redes.


Felipe Marra Mendonça

é jornalista e escreve de Londres para CartaCapital

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