Brasil 247
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247 – Em sua coluna na Época, o jornalista Paulo Moreira Leite diz que a queda de Demóstenes Torres era previsível, porque, segundo ele, ‘nada é tão enganoso nem pode ser tão autodestrutivo como o discurso moralista’. O senador é investigado por manter relações próximas com o empresário do jogo Carlinhos Cachoeira e por ter facilitado suas ações com manobras políticas.
Leia o artigo de Paulo Moreira Leita na íntegra:
Demóstenes e a fatalidade conservadora
Confesso que nada era tão previsível quanto o destino de Demóstenes Torres. Como até os petistas aprenderam com a própria pele, nada é tão enganoso nem pode ser tão autodestrutivo como o discurso moralista.
A experiência ensina que o moralismo é um texto falso, porque tem como base uma visão fantasiosa das sociedades humanas.
Considera que há pessoas de carater límpido e sem manchas de nenhuma espécie, incapazes de mentir, de fazer mal ao próximo, de ter segredos inconfessáveis e ambições que condenam em público mas cultivam na vida privada.
Como a vida real não é assim, cedo ou tarde os moralistas são desmentidos pelos fatos e desmascarados pelas próprias atitudes.
Claro que nem sempre é necessário um grampo da Polícia Federal para apanhar um falso moralista mas vamos combinar que, neste caso, estávamos diante de um profissional da categoria.
O que sobra?
Depende. Apesar do mensalão, o PT e Lula tinham onde pisar, como um movimento contra desigualdade, a favor dos direitos dos trabalhadores e dos mais humildes, pelo fortalecimento da ação social do Estado, pelo crescimento e pelo emprego.
O problema de seus adversários é mais profundo. Quando perdem a superfície moralista, não resta muita coisa. Por que?
Porque o conservadorismo, particularmente nos países menos desenvolvidos — ou emergentes, ou Brics, ou dependentes, ou semi-atrasados – não tem uma perspectiva de melhoria de vida dos mais pobres e menos protegidos.
Lembra de 1989, quando os conservadores quiseram colocar uma fantasia moderna no senador Mário Covas? Deu o “choque de capitalismo” que acabou com sua projeção nacional.
O silêncio tucano sobre a sorte dos mais humildes é absoluto depois que o Plano Real derrubou a inflação.
Já o DEM de Demóstenes sequer foi capaz de abrir a boca nessas questões. Até porque, às vezes, um movimento mais brusco pode exibir um laço com o passado do regime militar que é preferível manter esquecido.
A perspectiva história do conservadorismo é diminuir o Estado. Quer tirá-lo da economia, se possível da educação e também da saúde. Concorda em privatizar até mesmo uma parte da segurança pública e é claro que sonha em transformar nossa sociedade de cabelos brancos num mercado cativo para a previdência privada.
Se isso é difícil mesmo nos países avançados, que assiste hoje ao doloross ajuste de contas da desregulamentação e do fim dos empregos produtivos, imagine no Brasil, este país onde o salário médio gira em trono de R$ 1500 mensais.
Saúde privada? Escola particular? Segurança privada?
Não tem como. Não tem renda suficiente e aquela que está aí continua difícil de distribuir na base da caridade.
Este é o problema. Após três derrotas nas eleições presidenciais, o conservadorismo brasileiro segue sem um programa para melhorar as condições de vida da maioria população.
Só lhe resta torcer contra. O discurso do moralista é um pega-ladrão permanente.
Imagine como seria difícil o mundo do moralista se não tivesse pecados alheios para denunciar.
Iria oferecer o quê a quem tem frio, fome e sede?
Por essa razão o moralismo evita discutir, concretamente, medidas que possam contribuir para diminuir os abusos, desvios e irregularidades que marcam o cotidiano do Estado brasileiro.
Seu segredo é despolitizar a política, esconder o debate por trás de muita histeria.
Finge que não há um problema com uma legislação que transformou a campanha eleitoral numa corrida por verbas privadas — e o ato de governar numa prestação de contas pelos favores recebidos.
Dá a impressão de que não há uma preferência política pela manutenção do sistema que aí está, onde o poder econômico cria duas classes de eleitores, os privilegiados que compram influência com seu dinheiro, e o homem comum, indignado com a própria impotência.
Num sistema mais transparente, capaz de distribuir recursos à vista de todos, o moralista não tem o que fazer — nem o que dizer. Sequer poderia fingir que sente raiva para obter alguma identificação com os eleitores.
Este é o ponto. Condenados a pregar a moralidade, cedo ou tarde os moralistas acabam destruídos por ela. E não sobra nada. Nada. Nada mesmo.
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