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Livro de jornalista analisa comportamento da imprensa no caso Herzog




Quase 37 anos depois, o caso Herzog volta à tona, oportunidade de ouro para conhecer um livro que resgata a cobertura a ele dado pela imprensa na época.

O governo brasileiro acaba de ser notificado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos para que se justifique em relação à falta de investigação e punição dos responsáveis pela morte do jornalista Vladimir Herzog nas dependências do DOI-Codi (órgão de repressão do II Exército em São Paulo), em 1975, durante a ditadura militar.

A falsa tese de suicídio, invocada pelas autoridades para sepultar as investigações, jamais se sustentou seriamente. O inquérito policial militar poderia mesmo ensejar, no máximo, a corrida do cachorro em direção ao próprio rabo. Nem isso fez.

No jogo político, o caso Herzog representou o pivô de uma disputa intestina no governo militar, entre os adeptos da abertura gradual e os homens da linha-dura e foi também conhecido por ter alavancado uma mudança no comportamento da imprensa durante o regime militar.

À beira da instalação da Comissão da Verdade, vale a pena conhecer o excelente trabalho de Lilian Lima Perosa (“Cidadania Proibida – o caso Herzog através da Imprensa”), que se preocupa em relatar não apenas o que foi dito pelos jornais, mas reconstruir aquilo que chamou de “silêncios da história”.

O trabalho, apresentado originalmente como tese de doutorado da ECA-USP (e publicado em 2001, pela Imprensa Oficial e Sindicato dos Jornalistas) analisa como o caso Herzog foi coberto pelos principais jornais do Estado.

Com base em edições d’O Estado de S. Paulo (OESP), Jornal da Tarde (JT), Folha de São Paulo (FSP) e Folha da Tarde (FT), Perosa desnuda as divergências de enfoque e de tom entre eles, as sutilezas das manchetes e das diagramações, os compromissos políticos e financeiros que determinaram as linhas editoriais e de forma preciosa permite que acompanhemos os diversos ângulos de uma mesma cena, com diferentes transmissores.

É certo que a grande imprensa, hoje tão ciosa do discurso pela democracia, abandonou-a sem culpa, para embarcar de corpo inteiro no golpe militar, em 64. Mas as dissonâncias dos veículos nesse movimento, que se situaram entre o servilismo, o apoio crítico e a pura propaganda, são extensamente fundamentadas em reportagens e editoriais da época.

Grosso modo, segundo Perosa, houve uma clara distinção de comportamento entre os jornais do grupo Estado (OESP e JT) e os do grupo Folha (FSP e FT).






OESP e JT imprimiram “maior densidade aos seus relatos, procedendo uma análise mais extensa e detalhada sobre o caso. Aliam-se, mediante seus editoriais a outros porta-vozes da sociedade civil, no sentido de descriminalizar a figura de Herzog, (...) e defender a política de retomada do Estado de Direito”.

Essa mesma coerência não se aplicaria às Folhas. Mergulhado em dívidas e em plena expansão dos negócios na década de 70, argumenta a autora, a Folha rasgou-se em elogios ao regime, mas “deflagrada a abertura e tendo em conta a luta intra-poder [entre os que defendiam a abertura e a linha-dura], divide seus apoios entre um e outro grupo, (...) para autopreservar-se”. Ou seja, enquanto a FSP ainda que vacilante, tenta imprimir um tom mais liberal, a FT apoia explicitamente os representantes da linha-dura.

Perosa avalia, ainda, que os jornais do Grupo Estado, porém, estavam longe de representar uma guinada à esquerda pela forma como retrataram o caso. A cobertura mais ampla do episódio, dando ênfase à descriminalização de Herzog e amplificando a voz da sociedade civil, seguia uma linha editorial de explícito apoio ao presidente Geisel, considerado, enfim, pelos jornais, a maior vítima e o principal vencedor na luta contra a linha-dura.






Em relação à FSP, mostra a autora que ao “servilismo ao regime” do primeiro momento, seguiu-se uma fase ‘low-profile’, sem maiores politizações. Mesmo no episódio Herzog, buscou uma linha cautelosa, oferecendo espaço maior em suas manchetes e diagramações, às notas oficiais do Exército, do que às suas criticas –além de não situar a cobertura no caderno de política.

A FSP Inclinou-se pelo maior equilíbrio e abriu espaço significativo à sociedade civil, quando do ato ecumênico pela morte de Herzog, ocasião em que comemorou a inexistência de qualquer confronto. A partir deste ato, aliás, é que o jornal retoma os editoriais que abandonara com a instauração da censura, abrindo também valioso espaço a articulistas de distintas posições, e afirmando a tendência, que então seguiria, do jornal como um produto de mercado.

A correlação de espaço destinado à versão oficial e às manifestações que a ela se opunham, por exemplo, distinguem a atuação mais crítica de Estadão e JT e o maior equilíbrio da FSP.

Dois exemplos disso se mostraram em artigos e reportagens sobre a reação da morte de Vlado, no Congresso: uma saraivada de críticas, pela visão dos jornais dos Mesquitas, consensos e discursos equilibrados, na leitura da Folha.

Uma preciosidade é justamente a menção ao discurso mais agressivo do período, do deputado Leite Chaves (MDB-PR).

Na Folha, publicou-se a parte branda da fala: “O Exército brasileiro, cuja imagem é respeitada pelos brasileiros, deve afastar-se dessas ‘atividades de natureza menor’, deixando à Polícia as repressões por estar mais aparelhada”.

No JT, a versão menos desidratada: “Hitler quando desejava praticar atos tão ignominiosos, como os que estamos presenciando, não se utilizava do Exército, mas sim das forças da SS”.




A quilômetros de distância dessa dissonância, contudo, estava a Folha da Tarde e sua redação que a autora denominou de “meganha”. Caracterizando, desde o início, Herzog como o “comunista suicida” e esvaziando as notas do Sindicato e demais agentes da sociedade civil, a FT elaborou cobertura amplamente favorável à linha-dura.

O episódio foi tratado na FT como um autêntico caso de polícia e deu mostras do que viria a ser a clara inclinação do jornal como braço de apoio à repressão –primeiro militar e depois policial. Descortinou-se, assim, a promíscua relação entre o tônus militar e a cobertura policialesca, que tanto sucesso faz até os dias de hoje.

Mesmo a adesão mais liberal do OESP à cobertura dos fatos tinha como propósito, segundo a autora, bancar a política de abertura gradual de Geisel e Golbery, claramente limitada sob o ponto de vista da redemocratização.

Como explicita na análise da luta entre os grupos castelista e da extrema direita que permeou o momento: “Para o governo Geisel, os limites da transição eram dados pela linha-dura, que parecia não ter poder de decisão, mas tinha o poder de veto”. E o veto, no caso, era justamente o impedimento a qualquer tipo de julgamento sobre os atos cometidos no período.

Nada mais significativo disso que o fato de que o resultado do IPM destinado a nada apurar não tenha sido questionado seriamente pelo jornal.
E esta impunidade vem explicitamente estampada na entrevista do militar Pedro Antonio Mira Grancieri (conhecido como Capitão Ramiro), na IstoÉ, que encerra o livro como um triste apêndice.

Cheio de orgulho pelo ato praticado, Ramiro bateu no peito: “Fui o único policial que interrogou Vladimir Herzog no Doi-Codi. Ninguém está mais forte e diretamente envolvido na morte de Herzog do que eu”. E, ao mesmo tempo que, sem modéstia, relatou vários atributos de um interrogatório eficaz, como por exemplo, o de mandar tirar a roupa do interrogado antes de começá-lo, mostrou-se sempre seguro da irresponsabilidade de seu ato: “Eu não temo nada, existe a lei da Anistia, que zerou tudo”.

A reconstrução histórica das versões e dos silêncios da imprensa no episódio é riquíssima.

Trata-se de uma indispensável leitura para esse momento que antecede a instalação da Comissão da Verdade e ao mesmo tempo em que tanto se discute o papel da grande imprensa no cenário político.

Serve, inclusive, para retomar alguns dados históricos, e compreender, enfim, o quanto de chantagem e imposição estiveram embutidos na produção da Lei da Anistia, promulgada ainda sob o regime militar -uma proteção autodefinida pelos próprios réus com o específico intuito de evitar julgamento pelos fatos que praticaram ou permitiram.

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