Observatório da Imprensa

Por Jorge Fernando dos Santos
       
Cultura não tem mais importância. Literatura, então, nem pensar! Estamos na era do espetáculo e do entretenimento. É o pão e o circo midiáticos, temperados para distrair e alienar o público. A leitura provoca reflexão. Portanto, está na contramão do consumismo. Tudo a ver com o clássico Fahrenheit 451, romance escrito por Ray Bradbury, lançado em 1943 e adaptado para o cinema pelo genial Truffaut em 1966. A ideia original é de 1947, com o conto Bright Phoenix, que só seria publicado em 1963 tendo antes disso, em 1951, inspirado a novela The Fireman. Esta foi publicada em capítulos na revista Playboy, entre março e maio de 1954.

Bradbury escreveu o livro durante a Guerra Fria, alertando para a crescente paranoia da sociedade norte-americana daquela época. Contudo, é quase certo que o ponto de partida tenha sido o trauma provocado pelo 10 de maio de 1933, quando os nazistas queimaram livros em várias praças da Alemanha. O romance fala de um tempo tenebroso, no qual as obras literárias são proibidas e as opiniões próprias passam a ser consideradas antissociais. O governo ditatorial suprime o pensamento crítico e manda queimar livros e leitores – se preciso for. O título da obra refere-se à temperatura na qual o papel pega fogo.

A fábula de Bradbury está perto de se tornar realidade, pelo menos no Brasil. Por mais que os governos falem em prestigiar o livro e a leitura, o fato é que o brasileiro continua sendo um dos povos que menos lê em todo o mundo. Estamos atrás de países asiáticos e dos nossos vizinhos sul-americanos. Ainda não queimamos livros em praças públicas, mas pelo jeito chegaremos lá.

Da modernidade ao caos

Houve um tempo no Brasil em que ler era chique. A classe média em ascensão nos anos JK valorizava a leitura e prestigiava todas as formas de arte. O país mergulhava na modernidade e havia sede de conhecimento. O cinema era novo, a arquitetura e a bossa eram novas, o teatro era feito em arena e a poesia se tornava tão concreta quanto o sonho nacionalista. Veio Jânio Quadros, a tumultuada renúncia, a posse e a deposição de João Goulart. O longo período de ditadura preconizou o avanço econômico em detrimento dos valores nacionais e libertários. A censura imperou durante muito tempo, ceifando a criatividade de cineastas, compositores, dramaturgos e escritores que insistissem em falar da realidade.

Por estranha contradição, o regime militar tentou minimizar o analfabetismo ao estimular programas educacionais como o Mobral. Na outra ponta, promoveu reformas pedagógicas que deram início ao irreversível sucateamento do ensino público no país. Ao mesmo tempo, modernizava-se a televisão, que passou a ser o principal veículo de propaganda oficial. Junto com o entretenimento eletrônico, teve início uma espécie de lavagem cerebral promovida pelo Big Brother globalizado, que lembra a realidade opressora do romance 1984, de George Orwell.

A ditadura caiu de podre e o país se redemocratizou sem passar a limpo questões fundamentais, como a tortura, a corrupção e a falta de investimentos em educação, saúde e segurança pública. Esses serviços foram pouco a pouco sendo privatizados, convertidos numa fábrica de dinheiro para empresas especializadas.

Qualidade questionável

A partir do governo Collor, o neoliberalismo tornou-se palavra de ordem, mesmo que disfarçado por programas assistencialistas, como o Bolsa Família. Nem o sociólogo FHC nem o operário Lula se preocuparam de fato com a melhoria da educação. Em vez de formar cidadãos, o país forma mão-de-obra especializada e consumidores de segunda classe.

A mídia acompanha a tendência, divulgando a pior música do mundo em detrimento da qualidade que em outras épocas influenciou artistas lá fora. Mesmo as telenovelas, que já tiveram autores do porte de Janete Clair e Dias Gomes, perdem qualidade ao falar de personagens caricatos, quase inexistentes. E o pior é que essa produção medíocre influencia o cinema nacional, cuja maioria dos filmes de sucesso reproduz os chavões televisivos.

Nesse cenário, o livro perdeu e continua perdendo espaço nos jornais e nas telas, tendo agora que enfrentar a concorrência da internet. As obras que encabeçam as listas dos mais vendidos quase sempre são best sellers importados, de qualidade questionável e que nada têm a ver com a nossa realidade.

“Um país se faz com homens e livros”

Autores brasileiros têm cada vez mais dificuldades para publicar e divulgar seus originais. Boa parte das editoras está de olho nas compras oficiais e mostra-se pouco interessada em atrair o leitor avulso. O resultado disso, somado à concorrência dos sites de compra, é que muitas das poucas livrarias do país estão fechando as portas.

O Ministério da Cultura tenta fazer a sua parte, implantando programas como o Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), mas fica difícil sem o apoio da mídia e de governos municipais e estaduais. Há que se valorizar o livro como veículo de educação e formação humana. É preciso que professores e pais reaprendam a ler histórias para as crianças, dando a elas o exemplo pessoal de amor à leitura.

As grandes civilizações se imortalizaram por meio da arquitetura e da escrita, enquanto as principais religiões se codificaram em grandes livros como a Bíblia, o Corão e o Mahabharata. Como disse Monteiro Lobato, “um país se faz com homens e livros”. Em outras palavras, fora dos livros não há salvação.

***

[Jorge Fernando dos Santos é escritor e jornalista, Belo Horizonte, MG]

Comentário(s)

-Os comentários reproduzidos não refletem necessariamente a linha editorial do blog
-São impublicáveis acusações de carácter criminal, insultos, linguagem grosseira ou difamatória, violações da vida privada, incitações ao ódio ou à violência, ou que preconizem violações dos direitos humanos;
-São intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença;
-É inaceitável conteúdo comercial, publicitário (Compre Bicicletas ZZZ), partidário ou propagandístico (Vota Partido XXX!);
-Os comentários não podem incluir moradas, endereços de e-mail ou números de telefone;
-Não são permitidos comentários repetidos, quer estes sejam escritos no mesmo artigo ou em artigos diferentes;
-Os comentários devem visar o tema do artigo em que são submetidos. Os comentários “fora de tópico” não serão publicados;

Postagem Anterior Próxima Postagem

ads

ads