Santo Antônio hidrelétrica estação em construção, outubro de 2010.  Crédito: Mario Osava / IPS
Santo Antônio hidrelétrica estação em construção, outubro de 2010. Crédito: Mario Osava / IPS


Instituto Lula


Reprodução de matéria publicada em inglês pela Inter Press Agency, no dia 15 de janeiro (link ao final do texto)


PARIS, 13 de dezembro de 2012 (IPS) – Enquanto os governos lutam para encontrar formas de driblar a persistente crise financeira global, o modelo de desenvolvimento do Brasil oferece um caminho alternativo de recuperação e crescimento, de acordo com alguns economistas e políticos. “O Brasil oferece esperança para nações africanas e europeias, pois mostrou que você pode obter êxito com a globalização succeed at globalisation, optando não apenas pelo crescimento, mas também por uma melhor distribuição de riqueza”, afirma o economista do Togo Kako Nubukpo à IPS. O ex-diretor de análise econômica e pesquisa da West African Economic and Monetary Union (WAEMU, União Econômica e Monetária dos Países da África Ocidental) esteve em Paris para participar, durante dois dias, do Fórum para o Progresso Social Forum for Social Progress que ocorreu esta semana, liderado pelo ex-presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, pela atual presidente, Dilma Roussef, e pelo presidente da França, François Hollande.

Concentrado em como “optar pelo crescimento” e “sair da crise”, o fórum também foi um espaço para especialistas progressistas chamarem a atenção para um novo tipo de administração pública que “coloca as pessoas como prioridade” e garante a sustentabilidade ambiental.

“O Brasil nos mostrou que o desafio é ter o máximo de consideração às aspirações das pessoas, pois com uma liderança esclarecida podemos vencer no processo de desenvolvimento”, afirmou Nubukpo.

“Hoje, na África, temos a impressão de que nossos líderes estão mais preocupados com o Fundo Monetário Internacional e com o Banco Mundial que com nosso próprio povo”.

Nubukpo e outros participantes enaltecerem a “utilidade” do fórum, mas o próprio Lula disse que estava cansado de encontros que simplesmente discutiam a crise. Em um discurso inflamado, ele convocou os governantes a encontrar a coragem para adotar soluções “óbvias”, especialmente com relação à pobreza.

“Se um governante não pode oferecer democracia, dignidade e esperança ao seu povo, para que servem os governos?”, ele questionou.

Descrevendo como ele se dedicou aos planos para tornar o Brasil um ator respeitado no cenário mundial, Lula falou sobre políticas que foram elogiadas e criticadas lauded and criticised. Sua administração instituiu notavelmente o programa Bolsa Família, um sistema nacional de transferência em dinheiro para auxiliar famílias pobres a manter seus filhos na escola.

O governo também criou o programa ProUni, pelo qual estudantes de baixa renda low-income studentsrecebem bolsas escolares para frequentar a universidade, com a meta de formar trabalhadores mais capacitados para o país.

Alguns críticos dizem que as medidas tiveram consequências não previstas, como famílias que enviam crianças para a escola apenas para obter o auxílio, mas Lula defendeu as políticas.

“Eu tinha a convicção de que era necessário fazer algo diferente do que já tinha sido feito no Brasil”, ele disse no fórum, que foi organizado também pela fundação francesa Jean-Jaurès e pelo Instituto Lula, uma organização fundada por Lula depois que ele saiu da presidência, em 2011.

“Decidimos pagar a bolsa família por agências bancárias, com o uso de cartões magnéticos que eram entregues às mulheres de cada lar (e não aos homens, que podiam gastar o dinheiro em cerveja), e isso representou uma revolução para a criação de contas bancárias para correntistas de baixa renda”, ele acrescentou.

Uma das metas do Instituto Lula é “aproximar o Brasil e a África” e “melhorar a integração do Brasil com a América Latina”, dois objetivos que o ex-presidente considera que mudarão o status quo global.

“É necessário construir novos paradigmas para que possamos discutir problemas de comércio e não fiquemos presos à visão tradicional, que nos faz recorrer aos Estados Unidos ou à União Europeia para resolver nossos problemas”, ele defendeu.

De acordo com Lula, se os países industrializados fizessem mais pela África, eles também poderiam se beneficiar disso no futuro. “Por que o mundo desenvolvido, que está enfrentando um problema de consumo, não amplia o financiamento a longo prazo para países africanos a taxas de juros mais baixas, de forma que eles possam desenvolver as próprias indústrias e agricultura?”, ele perguntou.

Lula afirmou que o oceano entre a América Latina e a África deve ser visto como um condutor para o comércio, e não uma barreira para ele.

O africano Bruno Ondo Mintsa, ativista contra a pobreza anti-poverty activist e presidente da Association Printemps du Quart-Monde, contou à IPS que o “milagre brasileiro” foi uma fonte de motivação para africanos.

Para a África, que tem uma imensa riqueza natural, mas continua a ser atingida pela pobreza miserável, o “Brasil mostra que o problema é de democracia, de administração pública e distribuição de riquezas”, afirma Mintsa. “É um escândalo que um continente rico como a África tenha pessoas vivendo em tal pobreza”.

Para alguns socialistas europeus, o Brasil é exemplo de um meio termo entre o que o presidente francês Hollande chamou de “rejeição absoluta à globalização e aceitação ingênua até de suas consequências (mais) extremas”.

“Embora estejamos em busca de crescimento, sabemos bem que o tipo de crescimento que tivemos antes da crise não é mais sustentável”, afirmou Hollande para os participantes do fórum.

A solução não será encontrada no passado, ele acrescentou. Em vez disso, “Temos que criar uma nova era”.

De acordo com Hollande, as prioridades devem ser o crescimento, empregos para os jovens, transição de energia e luta contra desigualdades. Ele conhece bem os perigos de ignorar essas áreas fundamentais: o desemprego cresceu na França para 10,3 por cento no terceiro trimestre deste ano, o índice mais alto em 13 anos, e entre os jovens essa taxa se aproxima de 25 por cento.

Na terça-feira, quando o Fórum para o Progresso Social começava, a National Conference for the Fight Against Poverty do próprio governo francês chegou ao fim com o anúncio de um ambicioso plano de dois milhões de euros para a recuperação.

Esse plano inclui o aumento de apoios de receita, extensão da saúde nacional gratuita, criação de lares de emergência e alocação de fundos para jovens desempregados entre 18 e 25 anos. Alguns políticos da oposição criticaram o plano como esmola, mas ativistas afirmaram que já era hora de os pobres receberem uma verdadeira atenção política.

“A França pode aprender muito com o Brasil”, ressaltou o médico e professor francês, Dr. Alain Goguel para a IPS. “Nós amparamos os bancos com trilhões, mas relançar a economia ajudando o pobre é uma ideia original. Se ela funciona, deve ser imitada”.

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