Ricardo Kotscho
"As palavras perderam o sentido", diz o poeta gaúcho Fabrício Carpinejar no último verso do comovente poema que escreveu logo após a tragédia de Santa Maria e que resume o sentimento de todos nós.
Pois foi isso exatamente o que senti quando abri o computador no domingo e, por isso, só estou escrevendo agora, no final da manhã desta segunda-feira.
Tristeza, revolta, dor: cada um de nós reage de forma diferente ou temos todos esses sentimentos juntos no momento em que acontece algo tão traumático que foge à nossa compreensão.
"Por que acontece isso?", é a primeira pergunta que muitos se fazem ao ver as imagens dramáticas dos mortos, feridos e seus parentes na televisão.
"Descaso mata 231 jovens no Sul", responde a manchete de hoje do jornal O Globo. Ficamos sabendo ainda no domingo que a boate Kiss, palco da tragédia, estava com o alvará de funcionamento e o laudo dos bombeiros vencidos desde agosto, e a única saída foi fechada por seguranças para que ninguém saísse sem pagar a conta, depois que um músico da banda Gurizada Fandangueira soltou um sinalizador conhecido por "sputinik", que botou fogo no teto da casa noturna.
Como acontece nos acidentes aéreos, nunca há uma única causa, mas um conjunto de fatores que se unem para provocar a tragédia. Aconteceu em Santa Maria, como poderia ter acontecido em qualquer outra das milhares de casas noturnas do País, que funcionam geralmente numa terra de ninguém, sem nenhuma fiscalização.
Depois da tragédia, providências são anunciadas por autoridades de diversas latitudes, mas daqui a pouco chega o Carnaval, vem a Semana Santa, e o assunto é esquecido. No caso de Santa Maria, pelo menos, a polícia já prendeu três suspeitos de serem responsáveis pelo que aconteceu — um dos donos da boate e dois músicos da banda, como informa a matéria que está na manchete do R7.
Punir exemplarmente os responsáveis é a melhor maneira de alertar os donos das outras boates do País para que não coloquem em risco as vidas dos jovens que frequentam suas baladas.
De tanto ver pais chorando a morte de seus filhos quase todos os dias na televisão, ando meio traumatizado e confesso que não consegui acompanhar por muito tempo a oceânica cobertura feita pelas TVs, nem tive vontade de ler os jornais.
Preferi ficar no computador escrevendo uma reportagem, sem abrir o noticiário da internet, gravei depoimento para um documentário do amigo Ricardo Carvalho, e à noite fui ver uma comédia bem chinfrim no teatro para distrair a cabeça.
Deve ser a idade, mas fiquei mais sensível ultimamente, com vontade de chorar por qualquer besteira, até ao falar com os netos por telefone, e é bom poder dar risada de vez em quando, no momento em que nos sentimos impotentes diante da dor e do desespero dos parentes das vítimas em Santa Maria, uma tragédia que poderia ter sido evitada.
De tanto ver a repetição desses acontecimentos nos últimos 50 anos, sem que se tenha notícia de que algo seja realmente feito para evitar novas catástrofes, virei um cara cético e também acho, como o poeta Carpinejar, que as palavras perderam o sentido.
Dizer o quê? Em outros tempos, certamente, quando trabalhava como repórter em jornal ou revista, seria o primeiro a correr para a redação pedindo para me mandarem a Santa Maria fazer a cobertura. Hoje, tento fugir do assunto, mas não tem jeito, não posso brigar com os fatos.
Vida que segue para nós, os sobreviventes.
Pois foi isso exatamente o que senti quando abri o computador no domingo e, por isso, só estou escrevendo agora, no final da manhã desta segunda-feira.
Tristeza, revolta, dor: cada um de nós reage de forma diferente ou temos todos esses sentimentos juntos no momento em que acontece algo tão traumático que foge à nossa compreensão.
"Por que acontece isso?", é a primeira pergunta que muitos se fazem ao ver as imagens dramáticas dos mortos, feridos e seus parentes na televisão.
"Descaso mata 231 jovens no Sul", responde a manchete de hoje do jornal O Globo. Ficamos sabendo ainda no domingo que a boate Kiss, palco da tragédia, estava com o alvará de funcionamento e o laudo dos bombeiros vencidos desde agosto, e a única saída foi fechada por seguranças para que ninguém saísse sem pagar a conta, depois que um músico da banda Gurizada Fandangueira soltou um sinalizador conhecido por "sputinik", que botou fogo no teto da casa noturna.
Como acontece nos acidentes aéreos, nunca há uma única causa, mas um conjunto de fatores que se unem para provocar a tragédia. Aconteceu em Santa Maria, como poderia ter acontecido em qualquer outra das milhares de casas noturnas do País, que funcionam geralmente numa terra de ninguém, sem nenhuma fiscalização.
Depois da tragédia, providências são anunciadas por autoridades de diversas latitudes, mas daqui a pouco chega o Carnaval, vem a Semana Santa, e o assunto é esquecido. No caso de Santa Maria, pelo menos, a polícia já prendeu três suspeitos de serem responsáveis pelo que aconteceu — um dos donos da boate e dois músicos da banda, como informa a matéria que está na manchete do R7.
Punir exemplarmente os responsáveis é a melhor maneira de alertar os donos das outras boates do País para que não coloquem em risco as vidas dos jovens que frequentam suas baladas.
De tanto ver pais chorando a morte de seus filhos quase todos os dias na televisão, ando meio traumatizado e confesso que não consegui acompanhar por muito tempo a oceânica cobertura feita pelas TVs, nem tive vontade de ler os jornais.
Preferi ficar no computador escrevendo uma reportagem, sem abrir o noticiário da internet, gravei depoimento para um documentário do amigo Ricardo Carvalho, e à noite fui ver uma comédia bem chinfrim no teatro para distrair a cabeça.
Deve ser a idade, mas fiquei mais sensível ultimamente, com vontade de chorar por qualquer besteira, até ao falar com os netos por telefone, e é bom poder dar risada de vez em quando, no momento em que nos sentimos impotentes diante da dor e do desespero dos parentes das vítimas em Santa Maria, uma tragédia que poderia ter sido evitada.
De tanto ver a repetição desses acontecimentos nos últimos 50 anos, sem que se tenha notícia de que algo seja realmente feito para evitar novas catástrofes, virei um cara cético e também acho, como o poeta Carpinejar, que as palavras perderam o sentido.
Dizer o quê? Em outros tempos, certamente, quando trabalhava como repórter em jornal ou revista, seria o primeiro a correr para a redação pedindo para me mandarem a Santa Maria fazer a cobertura. Hoje, tento fugir do assunto, mas não tem jeito, não posso brigar com os fatos.
Vida que segue para nós, os sobreviventes.

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