Blog das Frases

Episódios recentes na vida democrática da América Latina ilustram o que se pode esperar de virulência conservadora na campanha eleitoral 2014.


Um breve retrospecto mostra que estamos diante de uma ‘escalada democrática’ .

Em junho de 2012, numa sexta-feira, deu-se o golpe democrático’ contra Fernando Lugo, presidente eleito do Paraguai.

Processado e derrubado pelo Congresso em 33 horas, seu afastamento consolidou-se na eleição deste domingo, que devolveu o poder à direita paraguaia.

Três anos antes, a modalidade já havia sido testada em Honduras.

O Presidente Manuel Zelaya foi ‘impedido legalmente' em 29 de junho de 2009. Seu crime, segundo a mídia brasileira: 'a tentativa de adotar a via chavista' das consultas populares para permanência no poder.

Seis meses depois, o conservador Porfírio Lobo –que perdera a eleição para Zelaya, em 2005—era eleito fechando o ciclo.

O então governo Lula repeliu o golpe contra Zelaya. E a embaixada em Honduras concedeu asilo ao presidente deposto.

O conjunto das iniciativas foi duramente criticado pelo dispositivo midiático

No caso de Lugo, as emissões conservadoras se alvoroçaram de forma ainda mais ostensiva.

A frente pró-golpe manifestar-se-ia, primeiro, no Congresso brasileiro.

Expoentes tucanos e emissários do agronegócio brasileiro, que anexou extensões escandalosas de terras do país vizinho, em prejuízo dos camponeses locais, desfraldariam o lobby.

Queriam o ‘reconhecimento imediato do novo governo amigável’ por parte da Presidenta Dilma.

Rechaçados, entrou em campo a cavalaria midiática.

A Folha disparou um editorial sugestivamente intitulado ‘Paraguai soberano’(26-06).

O texto esbravejava antecipadamente contra a reunião do Mercosul que ocorreria em Mendoza, três dias depois, para examinar a crise.

O jornal da família Frias recomendava , quer dizer, ordenava: ‘o melhor que o Itamaraty tem a fazer é calar-se e respeitar a soberania do vizinho’.

Como os presidentes do Brasil, Argentina e Uruguai não se pautaram pelos editoriais e, ademais de suspender o Paraguai golpista, incorporaram a Venezuela ao bloco, as cepas e esporões direitistas passaram a reproduzir-se com furor lacerdista no noticiário.

A política externa brasileira foi reduzida à posição de linha auxiliar do chavismo e do kichnerismo.

No caso recente da eleição venezuelana, o diapasão conservador arremeteu direto contra as urnas

A margem estreita que marcou a vitória de Nicolas Maduro contra o direitista Enrique Capriles foi a senha para a contestação do processo democrático.

A ordem unida veio dos EUA: não legitimar a vitória de Maduro enquanto uma recontagem de votos não ‘esclarecesse melhor o quadro’.

A mesma cautela não se verificou quando o processo democrático foi interrompido nos golpes de Honduras e do Paraguai, imediatamente reconhecidos como legítimos por Washington.

Enquanto o governo Obama dava corda à reação interna venezuelana, o jogral brasileiro disparava obuses na tentativa de acuar o Itamaraty e a Presidenta Dilma.

Não funcionou mais uma vez.

O governo brasileiro foi um dos primeiros a parabenizar Maduro pela vitória e a felicitar a democracia venezuelana.

Não só. Sob a liderança conjunta do Brasil e da Argentina, a Unasul foi convocada e respaldou o processo democrático venezuelano, colocando-se mais uma vez como uma pedra no sapato da ingerência norte-americana na região.

A transparência eleitoral na Venezuela é reconhecida por observadores internacionais insuspeitos.

Entre eles, o ex-presidente Jimmy Carter, que a classifica como mais perfeitas do mundo.

O eleitor venezuelano registra seu voto na urna eletrônica, que lhe fornece um recibo da escolha feita. Depois de conferido, ele o deposita em caixas lacradas.

“Ao final da jornada, 54% dessas caixas são sorteadas e submetidas à auditoria. Prática que, em tamanha porcentagem, não é feita por nenhum outro país do mundo”, informa o enviado de Carta Maior à Venezuela, Vinicius Mansur (leia nesta pág).

O Departamento de Estado norte-americano e o conservadorismo brasileiro, naturalmente, sabem desses procedimentos.

Mas, de fato, não é a lisura do pleito que os mobilizava. E sim a possibilidade de ampliar ‘a ofensiva democrática’ na região, desautorizando Maduro para conduzir Capriles ao poder.

Nos três episódios, a pronta intervenção da Unasul e do Mercosul atrapalhou a vida do golpismo, seccionando o oxigênio externo fornecido pelos EUA.

A capacidade de defender a soberania democrática é uma novidade histórica que incomoda a ofensiva conservadora na região.

A liderança brasileira é o combustível que dá credibilidade e coesão a essa nova institucionalidade.

Não incorre em erro quem suspeitar que esse papel pesará nos arranjos, no financiamento e na intensidade do cerco ao PT, em 2014.

Postagem Anterior Próxima Postagem

ads

ads