ISTOÉ
A verdade e a propaganda
Confesso que só posso ficar preocupado quando ouço nossos prefeitos e governadores dizerem que o transporte vive com orçamento apertado, sem margem para cortes no preço da passagem.
E que, por esse motivo, serão obrigados, de coração partido, a cortar gastos em saúde, educação e outras áreas prioritárias.
Não quero falar de prefeitos particulares, nem de um governador específico. Mas enxergo um exercício de propaganda nesse movimento. Um esforço para dizer que, no fundo, o reajuste era uma medida boa ou pelo menos aceitável socialmente – pois impedia cortes no dinheiro das escolas e postos de saúde.
Difícil acreditar. Conforme foi amplamente anunciado durante as manifestações, as empresas de ônibus, no país, têm uma margem de lucro acima da média internacional. Divulgou-se durante os protestos que nossas empresas respondem por 10% dos custos do transporte, contra 33% em outros países. Não sei se os dados corretos são estes. Podem ser um pouco mais, quem sabe um pouco menos. Seja como for, o brasileiro gasta 5% de seu orçamento mensal com transporte, contra 2% em outros países. Os gastos com transporte público têm aumentado nos últimos anos, apesar de todo subsídio criado com medidas recentes, como o Bilhete Único. Isso porque o crescimento econômico oferece empregos e oportunidades, que tiram a pessoa de casa e aumentam a procura por transporte coletivo.
A questão real é outra. Sem fazer associações levianas nem suposições erradas, é fácil reconhecer que as empresas de ônibus são uma das grandes fontes de receita de nossas campanhas eleitorais.
É por isso que seus ganhos privados são intocáveis. As empresas recuperam, no dia a dia, aquele investimento feito no financiamento de candidatos. Além de transportar passageiros, elas precisam sustentar grandiosos esquemas de marketing, equipes de propaganda, publicitários, jornalistas, cabos eleitorais e assim por diante.
Está certo? Errado?
A questão não se resolve com falsos moralismos. Do ponto de vista político, esta situação -- lamentável -- sublinha a necessidade de uma reforma eleitoral para assegurar que campanhas sejam financiadas, exclusivamente, por recursos públicos.
Há outro ponto, também. Os protestos mostraram o caráter prioritário do transporte coletivo na vida social de um país que há muito tempo tornou-se uma nação urbana.
Também mostraram que a população considera que já dá uma imensa contribuição para a cidade e agora quer uma nova repartição de custos e benefícios, em que não seja a única parte a fazer sacrifícios.
Se as empresas de ônibus chegaram a seu limite – oferecendo serviços de péssima qualidade, que continuam entre os mais caros do mundo depois da revogação do último reajuste –, caberá discutir o modelo de transporte adotado pelas grandes cidades brasileiras nos últimos anos.
Cabe planejar e debater grandes mudanças no sistema de transporte, sem hipocrisia nem falsos argumentos.
Concorda?
Paulo Moreira Leite Desde janeiro de 2013, é diretor da ISTOÉ
em Brasília. Dirigiu a Época e foi redator chefe da VEJA, correspondente
em Paris e em Washington. É autor dos livros A Mulher que era
o General da Casa e O Outro Lado do Mensalão.
A verdade e a propaganda
Confesso que só posso ficar preocupado quando ouço nossos prefeitos e governadores dizerem que o transporte vive com orçamento apertado, sem margem para cortes no preço da passagem.
E que, por esse motivo, serão obrigados, de coração partido, a cortar gastos em saúde, educação e outras áreas prioritárias.
Não quero falar de prefeitos particulares, nem de um governador específico. Mas enxergo um exercício de propaganda nesse movimento. Um esforço para dizer que, no fundo, o reajuste era uma medida boa ou pelo menos aceitável socialmente – pois impedia cortes no dinheiro das escolas e postos de saúde.
Difícil acreditar. Conforme foi amplamente anunciado durante as manifestações, as empresas de ônibus, no país, têm uma margem de lucro acima da média internacional. Divulgou-se durante os protestos que nossas empresas respondem por 10% dos custos do transporte, contra 33% em outros países. Não sei se os dados corretos são estes. Podem ser um pouco mais, quem sabe um pouco menos. Seja como for, o brasileiro gasta 5% de seu orçamento mensal com transporte, contra 2% em outros países. Os gastos com transporte público têm aumentado nos últimos anos, apesar de todo subsídio criado com medidas recentes, como o Bilhete Único. Isso porque o crescimento econômico oferece empregos e oportunidades, que tiram a pessoa de casa e aumentam a procura por transporte coletivo.
A questão real é outra. Sem fazer associações levianas nem suposições erradas, é fácil reconhecer que as empresas de ônibus são uma das grandes fontes de receita de nossas campanhas eleitorais.
É por isso que seus ganhos privados são intocáveis. As empresas recuperam, no dia a dia, aquele investimento feito no financiamento de candidatos. Além de transportar passageiros, elas precisam sustentar grandiosos esquemas de marketing, equipes de propaganda, publicitários, jornalistas, cabos eleitorais e assim por diante.
Está certo? Errado?
A questão não se resolve com falsos moralismos. Do ponto de vista político, esta situação -- lamentável -- sublinha a necessidade de uma reforma eleitoral para assegurar que campanhas sejam financiadas, exclusivamente, por recursos públicos.
Há outro ponto, também. Os protestos mostraram o caráter prioritário do transporte coletivo na vida social de um país que há muito tempo tornou-se uma nação urbana.
Também mostraram que a população considera que já dá uma imensa contribuição para a cidade e agora quer uma nova repartição de custos e benefícios, em que não seja a única parte a fazer sacrifícios.
Se as empresas de ônibus chegaram a seu limite – oferecendo serviços de péssima qualidade, que continuam entre os mais caros do mundo depois da revogação do último reajuste –, caberá discutir o modelo de transporte adotado pelas grandes cidades brasileiras nos últimos anos.
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