Bob Fernandes


O governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP) cai muito nas pesquisas. Dispara a rejeição ao prefeito Fernando Haddad (PT-SP). Despenca a popularidade da presidente Dilma Rousseff. Dias antes das multidões tomarem as ruas, comentamos aqui: os grandes partidos políticos estavam, perigosamente, fugindo do debate ideológico.

Sem o claro confronto de ideias prevalece o pior, a escuridão. Com líderes, partidos e instituições várias na mesmice e no muro, multidões ocuparam as ruas.

Caixa dois ou maracutaia, pouco importa. Com o chamado "Mensalão", o PT perdeu a primazia do discurso ético. E, lembramos então, nenhum dos grandes partidos, e muitos dos pequenos, tem autoridade para tratar da questão moral.

O discurso moral, ou moralista, soa hipócrita na boca dos partidos. Quem conhece intestinos de campanhas e alianças sabe, e não há marquetagem que esconda esse fato, quando não é ela mesma, a marquetologia e seus altíssimos custos, uma das raízes do problema.

Uma semana antes das manifestações, a constatação: para manter o poder, o PT se divorciava cada vez mais das lutas e teses que levaram à sua criação. Entre outras lutas, os direitos das mulheres, os direitos civis, as questões ambientais, agrária, indígena…

Ensurdecedor também o silêncio de demais lideranças. Não se sabia, e não se sabe, o que pensam de questões polêmicas outros pré-candidatos.

Se Dilma estava encastelada, também Eduardo Campos, do PSB, Aécio Neves, do PSDB, e Marina Silva evitavam, e ainda evitam, bola dividida.

Na disputa pelo espólio das manifestações, alguns riscos. O maior deles parece, ao menos por enquanto, sob controle. A enorme maioria protesta em paz e quer democracia. Mas bandos e bandidos, franjas fascistoides da sociedade ou de instituições buscam, provocam a violência.

Essa gente vive e se alimenta da escuridão.

Outro risco é o de errar novamente. Um factoide governista, como o da Constituinte -factoide porque irrealizável sob vários pontos de vista- pode até desviar o foco momentaneamente, mas não resiste, não resistiu à onda seguinte.

De outro lado, a oposição: jurar disposição para fazer reforma política como fazem aqueles líderes de plantão para  telejornais é de um cinismo assombroso. Negar um factoide produzindo outros é seguir não entendendo o recado das ruas.

Esse recado tem sido caótico, múltiplo, irado. Mais um motivo para ser levado a sério. Erro grave tentar transformar essa dura mensagem, por vezes tão confusa, em apenas mais um joguete da velha política.

Encolher a dimensão do que foi posto, buscar encaixotar as mensagens nas supostas esperteza e matreirice de um sistema carcomido é caminhar em direção ao abismo

O preço pode ser muito alto. Não por acaso, em alta nas pesquisas Marina Silva e Joaquim Barbosa. A Rede de Marina é, por ora, um projeto em andamento. Ainda sem existência legal a pouco mais de um ano da eleição.

E Joaquim Barbosa? Bem, Barbosa disse que os partidos do Brasil "são de mentirinha". Há uma dose de verdade nisso, mas sem partidos a democracia não existe. E na luta política, na luta pelo Poder, não existe vácuo.

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