
Enquanto há um repúdio mundial às atividades supersecretas da NSA norte-americana e do GCHQ britânico
Enquanto há um repúdio mundial às atividades supersecretas da NSA norte-americana e do GCHQ britânico, o pensamento mágico dedireita a respeito prepara mais uma de suas investidas.
Pensamento mágico: trata-se do pensamento que se aferra a uma fórmula ritual para obter um determinado objetivo, mesmo que ela não funcione. Se a tentativa falha, isto é interpretado apenas do ponto de vista de que não houve ainda o acúmulo de energia necessária para que o resultado se produza. E a tentativa que não deu certo passa a ser também um elemento positivo a mais para a necessária coleta de energia.
Esta estrutura de pensamento pode servir tanto para explicar porque o prometido Messias ainda não chegou (mas da próxima vez, ou na próxima da próxima ad infinitum, chegará), quanto porque as iniciativas neo-liberais não deram resultado pelo mundo afora (na Ásia, na América Latina, nos Estados Unidos, na Europa, na Oceania, na África… bem, ainda resta a Antártida) mas que devem continuar a ser rezadas e praticadas crendeiramente.
Agora este tipo de pensamento está-se voltando para a descoberta da escala a que a espionagem mundial chegou por parte daqueles serviços secretos. A grita mundial é grande, mas a grita sussurrada nos desvãos dos serviços secretos é certamente maior, em termos de efetividade.
A ponta do iceberg desta pequena grita de grandes efeitos veio à tona nas declarações recentes de Sir Ian Blair, ex-chefe da Polícia Metropolitana de Londres.
Relembrando: Sir Ian Blair era o chefe da polícia londrina quando do assassinato do brasileiro Jean-Charles de Menezes em 2005, e ele tentou justificá-lo como dentro de um conjunto de práticas antiterroristas, antes que ficasse cabalmente provado que a vítima era inocente. Lord Blair acabou renunciando ao cargo em 2008, entre um torvelinho de acusações que envolviam suspeitas de racismo na força, favorecimento de amigos e – também – à má administração do caso Jean-Charles.
Lord Blair voltou à carga, agora. Em entrevista à BBC reportada no The Guardian (“L. B.: we need laws to stop ‘principled’ leaking of State secrets’, 26/08/2013), ele lembrou que o problema das revelações de Edward Snowden (de quebra, de Julian Assange e Bradley Manning ) e da detenção durante nove horas de David Miranda no aeroporto de Heathrow era, na verdade, a ausência de uma legislação que impedisse de modo mais eficaz a revelação de segredos de estado por parte de quem queira, por questões de princípios – “por mais maravilhosas que sejam” – traze-los ao conhecimento público, favoerecendo, assim, os terroristas.
Trocando em graúdos, porque miúdos serão pouco para tal grau de gigantismo autoritário, o Estado (o “nosso” Estado, bem entendido) têm razões que a razão desconhece, e fazer tudo para protegê-las e suas consequências é imperioso e parte deste mesmo poder. O nó da questão, portanto, continuando a navegar nos megatrilhos deste pensamento, não está em que o GCHQ britânico invadiu a redação do Guardian e forçou a entrega de arquivos e a destruição de outros – como faziam os censores durante a nossa ditadura. O nó da questão está em considerar esta ação algo inoportuno, inadequado e injustificável. Na verdade, tal ação deveria ser protegida por lei, e considerada normal. Talvez pudéssemos enviar para Lord Blair, a NSA e o GCHQ uma cópia do nosso Ato Institucional nº 5, de 13/12/1968, o que simplificaria o problema legislativo.
Faltou mais autoridade ao autoritarismo, ou mais autoritarismo à autoridade, esta é a conclusão deste tipo de pensamento que, como navega por linhas tortas nos bastidores certos, é capaz de impulsionar o novo tipo de legislação pretendida.
Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior em Berlim.
Jornal Correio do Brasil
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