ANA DIAS CORDEIRO
A “tragédia pessoal” de um homem perturbado transformou-se numa tragédia para a polícia da Islândia, que nunca antes tinha morto um civil e nem tinha usado uma arma. O caso está a abalar o país.
Pela primeira vez, na Islândia, um agente da polícia matou um civil. O homem, que viria a morrer, vivia sozinho nos arredores da capital, Reiquejavique, era doente mental, tinha estado internado e estava, há pouco tempo, a viver num apartamento, vigiado pelos serviços sociais.
A meio da noite de segunda-feira, sem razão aparente, o homem começou aos gritos e ameaçou, com uma espingarda na mão, as famílias dos apartamentos vizinhos. O pânico instalou-se no bairro residencial onde moram muitas famílias, e que está “em choque”, como aliás a polícia e a sociedade islandesa em geral.
O homem tinha uma “espingarda típica para caçar aves” como acontece com muitos islandeses, disse ao PÚBLICO Helgi Gunnlaugsson, professor de Sociologia e especialista em Criminologia, da Universidade da Islândia. Os primeiros disparos ouviram-se pelas 5h dessa madrugada — vindos do apartamento do homem. A polícia disparou de volta, a partir da rua, na tentativa de dissuadir o suspeito, sem êxito. Tentou depois neutralizar o homem lançando gás lacrimogéneo para o seu apartamento. Da janela, este continuou a disparar na direcção do parque de estacionamento.
Os polícias forçaram então a entrada do apartamento. Dois polícias foram atingidos sem gravidade e continuaram a responder aos disparos do homem que acabou por ser ferido e foi levado numa maca para o hospital, onde viria a morrer. “Foi uma tragédia. Nunca tinha acontecido na Islândia um polícia matar um civil. Isto é totalmente novo para nós, é totalmente novo na Islândia. As pessoas estão em choque”, resume Helgi Gunnlaugsson.
A pacata ilha acordou na segunda-feira para este “caso isolado” de “uma tragédia pessoal” que se reflectiu numa “tragédia para a polícia”. Foi uma situação única, “inédita” como disse o comandante da polícia, Haraldur Johannessen que, na segunda-feira, chamou os jornalistas para lamentar o sucedido e expressar condolências à família da vítima. Os polícias estão a receber apoio psicológico.
Um inquérito foi aberto para perceber por que foi a vítima baleada e se o homem armado estava sob o efeito de drogas ou do álcool. Não é claro como o homem, com uma perturbação mental, adquiriu a espingarda. Na Islândia “é muito comum as pessoas terem espingardas de caça” e as usam em actividades desportivos, na caça de animais ou pássaros, mas também é muito difícil obter uma licença. Os crimes raros — quando ocorrem — não envolvem armas.
Fora desse tradicional quadro desportivo, as armas raramente são usadas, embora em média um terço da população tenha uma espingarda. As pistolas são proibidas, sendo apenas acessíveis à polícia que raramente as usa. Ou nunca.
Em 30 anos de existência, a Viking Squad – única unidade especial da polícia autorizada a usar uma arma – nunca tinha usado uma arma. E raramente fora chamada para uma situação de emergência. Foi chamada nessa noite, para uma situação que, também para ela, se tornou excepcional, numa sociedade pacífica, habituada a viver sem sobressaltos, sem violência.
Daí o choque, insiste este especialista que conta que esta terça-feira como na véspera, a igreja do bairro atingido está de portas abertas para acolher todos os que necessitem neste momento raro e difícil. O país tem uma taxa de criminalidade baixíssima mesmo ao lado de países onde ela já está muito abaixo da média mundial, como são os casos da Noruega, Dinamarca ou Suécia.
A Islândia vive, em média, com dois homicídios por ano, diz Helgi Gunnlaugsson – o que equivale, segundo os parâmetros usados por investigadores, a 0,8 casos em 100 mil pessoas, enquanto nos Estados Unidos essa taxa variou, nos mesmos dez anos, entre cinco e 5,8 por 100 mil pessoas.
A população ronda os 322 mil habitantes. Cerca de 90 mil possui uma espingarda. Mas esta é uma sociedade pacífica e “igualitária”, sem classes sociais muito distintas. Só 3% da população se revê como pertencente às classes alta e baixa. A grande maioria — 97% — diz pertencer à classe média.
Isso explica em parte a ausência de violência, também entre os polícias, e também entendida quando se olha a História do país. Na luta por uma independência da Dinamarca que a Islândia apenas conquistou em 1944, não houve violência e ninguém morreu, recorda este professor.
“A população tem ao longo da História resolver os problemas de forma pacífica”, mesmo no que respeita, mais recentemente, a questões sociais, frisa Helgi Gunnlaugsson. Além disso, acrescenta, “as pessoas têm armas mas não as têm para se proteger”. E conclui: “Esse conceito de possuir uma arma para garantir uma certa segurança, como nos Estados Unidos, é-nos totalmente estranho.”
PÚBLICO
A “tragédia pessoal” de um homem perturbado transformou-se numa tragédia para a polícia da Islândia, que nunca antes tinha morto um civil e nem tinha usado uma arma. O caso está a abalar o país.
Carros da polícia à porta do prédio onde ocorreu a primeira morte numa operação policial na Islândia HALLDOR KOLBEINS/AFP
Pela primeira vez, na Islândia, um agente da polícia matou um civil. O homem, que viria a morrer, vivia sozinho nos arredores da capital, Reiquejavique, era doente mental, tinha estado internado e estava, há pouco tempo, a viver num apartamento, vigiado pelos serviços sociais.
A meio da noite de segunda-feira, sem razão aparente, o homem começou aos gritos e ameaçou, com uma espingarda na mão, as famílias dos apartamentos vizinhos. O pânico instalou-se no bairro residencial onde moram muitas famílias, e que está “em choque”, como aliás a polícia e a sociedade islandesa em geral.
O homem tinha uma “espingarda típica para caçar aves” como acontece com muitos islandeses, disse ao PÚBLICO Helgi Gunnlaugsson, professor de Sociologia e especialista em Criminologia, da Universidade da Islândia. Os primeiros disparos ouviram-se pelas 5h dessa madrugada — vindos do apartamento do homem. A polícia disparou de volta, a partir da rua, na tentativa de dissuadir o suspeito, sem êxito. Tentou depois neutralizar o homem lançando gás lacrimogéneo para o seu apartamento. Da janela, este continuou a disparar na direcção do parque de estacionamento.
Os polícias forçaram então a entrada do apartamento. Dois polícias foram atingidos sem gravidade e continuaram a responder aos disparos do homem que acabou por ser ferido e foi levado numa maca para o hospital, onde viria a morrer. “Foi uma tragédia. Nunca tinha acontecido na Islândia um polícia matar um civil. Isto é totalmente novo para nós, é totalmente novo na Islândia. As pessoas estão em choque”, resume Helgi Gunnlaugsson.
A pacata ilha acordou na segunda-feira para este “caso isolado” de “uma tragédia pessoal” que se reflectiu numa “tragédia para a polícia”. Foi uma situação única, “inédita” como disse o comandante da polícia, Haraldur Johannessen que, na segunda-feira, chamou os jornalistas para lamentar o sucedido e expressar condolências à família da vítima. Os polícias estão a receber apoio psicológico.
Um inquérito foi aberto para perceber por que foi a vítima baleada e se o homem armado estava sob o efeito de drogas ou do álcool. Não é claro como o homem, com uma perturbação mental, adquiriu a espingarda. Na Islândia “é muito comum as pessoas terem espingardas de caça” e as usam em actividades desportivos, na caça de animais ou pássaros, mas também é muito difícil obter uma licença. Os crimes raros — quando ocorrem — não envolvem armas.
Fora desse tradicional quadro desportivo, as armas raramente são usadas, embora em média um terço da população tenha uma espingarda. As pistolas são proibidas, sendo apenas acessíveis à polícia que raramente as usa. Ou nunca.
Em 30 anos de existência, a Viking Squad – única unidade especial da polícia autorizada a usar uma arma – nunca tinha usado uma arma. E raramente fora chamada para uma situação de emergência. Foi chamada nessa noite, para uma situação que, também para ela, se tornou excepcional, numa sociedade pacífica, habituada a viver sem sobressaltos, sem violência.
Daí o choque, insiste este especialista que conta que esta terça-feira como na véspera, a igreja do bairro atingido está de portas abertas para acolher todos os que necessitem neste momento raro e difícil. O país tem uma taxa de criminalidade baixíssima mesmo ao lado de países onde ela já está muito abaixo da média mundial, como são os casos da Noruega, Dinamarca ou Suécia.
A Islândia vive, em média, com dois homicídios por ano, diz Helgi Gunnlaugsson – o que equivale, segundo os parâmetros usados por investigadores, a 0,8 casos em 100 mil pessoas, enquanto nos Estados Unidos essa taxa variou, nos mesmos dez anos, entre cinco e 5,8 por 100 mil pessoas.
A população ronda os 322 mil habitantes. Cerca de 90 mil possui uma espingarda. Mas esta é uma sociedade pacífica e “igualitária”, sem classes sociais muito distintas. Só 3% da população se revê como pertencente às classes alta e baixa. A grande maioria — 97% — diz pertencer à classe média.
Isso explica em parte a ausência de violência, também entre os polícias, e também entendida quando se olha a História do país. Na luta por uma independência da Dinamarca que a Islândia apenas conquistou em 1944, não houve violência e ninguém morreu, recorda este professor.
“A população tem ao longo da História resolver os problemas de forma pacífica”, mesmo no que respeita, mais recentemente, a questões sociais, frisa Helgi Gunnlaugsson. Além disso, acrescenta, “as pessoas têm armas mas não as têm para se proteger”. E conclui: “Esse conceito de possuir uma arma para garantir uma certa segurança, como nos Estados Unidos, é-nos totalmente estranho.”
PÚBLICO

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