Em debate, economista e sociólogo divergem sobre resultados da era Lula e Dilma. "Se um tucano ganha as eleições neste ano, numa tacada se desmonta tudo", argumenta Antunes
por Eduardo Maretti, da RBA

DIVULGAÇÃO/PT

'Brasil vive uma fase parecida à que se registrou na década de 1930', diz Márcio Pochmann


São Paulo – O economista Marcio Pochmann disse hoje (24) que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva simboliza a mutação social ocorrida no Brasil entre as décadas de 1930 e 1970. Para ele, o período marcou a transformação de uma sociedade majoritariamente agrária da primeira metade do século 20 para uma sociedade urbana e industrial. “Lula (que deixou o meio rural em busca de oportunidades na metrópole) simboliza isso.” Apesar da pobreza ainda marcante nas grandes cidades, ainda assim era melhor do que a vida no meio rural, e o ex-metalúrgico é um ícone da parcela da população que conduziu essa mudança.

A análise foi parte de sua intervenção no debate “Mobilidade Social no Brasil: inclusão social e crescimento econômico”, durante seminário promovido pelo escritório Crivelli Advogados Associados, em que polemizou com o sociólogo Ricardo Antunes.


Para Pochmann, os governos de Lula e Dilma Rousseff foram ainda responsáveis por uma nova fase de transformações a partir da base da pirâmide social. Segundo ele, esses governos promoveram com eficiência uma inversão da política de “regressão econômica” da época dos governos de Fernando Henrique Cardoso. E acrescenta que os atuais índices de desemprego, reduzidos a cerca de metade dos verificados no final da era FHC, ilustram uma opção inclusiva de modelo econômico.

No debate cortês, mas acalorado, Ricardo Antunes discordou. E foi categórico em afirmar que Lula e Dilma não promoveram “mudanças estruturais” no Brasil. “Lula passou longe de quebrar interesses poderosos, como os dos bancos e do agronegócio”, afirmou. “O crescimento se baseou em pilares do neoliberalismo. Nunca os bancos ganharam tanto dinheiro.”
Mercado pessimista

Em entrevista após o debate, Pochmann argumentou que o suposto pessimismo do mercado financeiro em relação ao Brasil contradiz essa interpretação: “É uma dissonância entre o que está sendo feito pelo governo e o que eles (o mercado financeiro) gostariam que fosse feito. Não estamos implementando uma política econômica que os Estados Unidos e a União Europeia, os países ricos, querem. Fazemos uma política diferente, que tem um tempo de maturação”, analisou.

“O Brasil vive uma fase parecida à que se registrou na década de 1930, com uma crise no capitalismo internacional. O país hoje tem feito opções diferentes em relação aos países ricos, opções que produzem resultados no médio e longo prazo”, comparou o economista. “Se analisarmos a crítica nos jornais na década de 30 sobre política cambial, que o Brasil fazia diferente de Estados Unidos e Europa , diziam que a política estava errada, não produzia resultados. É semelhante a hoje. Um tempo depois se percebeu que as políticas de Getúlio Vargas foram fundamentais para o Brasil se posicionar no mundo. Da mesma maneira, de 2003 para cá.” Para Pochmann, Vargas conduziu o Brasil a uma condição superior ao que era na década de 1920.

Entre os avanços possibilitados pelos governos petistas a partir da base da pirâmide social, Pochmann menciona a ampliação do acesso à educação e a moradias por segmentos que não teriam condições pela via do mercado. “Em transferência de renda, numa crise do capitalismo global, houve uma inversão de prioridades e reinventou-se o mercado através da distribuição de renda”, defendeu o economista, presidente da Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT.

Para Ricardo Antunes, as conquistas não são estruturais. “Temos crescimento econômico e tivemos incorporação de milhões de trabalhadores ao mercado. Mas em abril de 2014 o cenário econômico brasileiro não é o mesmo de alguns anos atrás”, observou o sociólogo.

Em sua visão, se as mudanças fossem de estrutura elas não correriam o risco a que estão expostas hoje. “O epicentro da crise hoje é nos países do norte. Mas se ela voltar a ter como epicentro os países intermediários, como Brasil, China, Índia etc., perdemos isso numa tacada. Se o tucanato ganha as eleições neste ano, numa tacada se desmonta tudo. Estruturalmente não ferimos os pilares da exploração do trabalho no Brasil”, critica. “O governo trouxe benefícios para os trabalhadores e para os setores mais pauperizados, com o Bolsa Família, mas enriqueceu profundamente e ampliou a concentração de capitais de setores nefastos, como sistema financeiro, agroindústria, e isso vai para a conta do Lula e da Dilma.”
2015

Sobre as perspectivas para 2015, com as eleições, Pochmann não tem dúvidas. “De 2003 para cá, o Brasil se reposicionou no mundo sob vários aspectos. Tem um papel destacado no cenário internacional que não tinha, reconstituiu o mercado interno e reinventou o mercado do ponto de vista da micro e pequenas empresas, por exemplo. Ampliou o emprego e reduziu a desigualdade de renda”, diz. “Medidas que precisam continuar. A presidenta Dilma é a que melhor tem condições de continuar a tocar essas modificações.”

O cenário a partir de 2015, para Antunes, considerando as possibilidades das pré-candidaturas colocadas, não são muito alvissareiras. “Eduardo Campos se mostra como um Collor civilizado. Vai surfar com a centro-direita. A declaração dele de que ninguém é a favor do aborto é um exemplo disso. Ele diz isso porque quer apoio do catolicismo, dos neopentecostais, das oligarquias e do verde amarelado.”

As outras duas possibilidades, acredita o sociólogo e professor da Universidade Esadual de Campinas (Unicamp), só diferem quantitativamente. “A diferença entre a política social assistencialista do Lula difere da política assistencialista de Fernando Henrique porque uma atingiu 2 milhões, outra atinge 12 milhões de famílias. É uma diferença quantitativa grande. A discussão é sobre a qualidade.”


Rede Brasil Atual


Comentário(s)

-Os comentários reproduzidos não refletem necessariamente a linha editorial do blog
-São impublicáveis acusações de carácter criminal, insultos, linguagem grosseira ou difamatória, violações da vida privada, incitações ao ódio ou à violência, ou que preconizem violações dos direitos humanos;
-São intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença;
-É inaceitável conteúdo comercial, publicitário (Compre Bicicletas ZZZ), partidário ou propagandístico (Vota Partido XXX!);
-Os comentários não podem incluir moradas, endereços de e-mail ou números de telefone;
-Não são permitidos comentários repetidos, quer estes sejam escritos no mesmo artigo ou em artigos diferentes;
-Os comentários devem visar o tema do artigo em que são submetidos. Os comentários “fora de tópico” não serão publicados;

Postagem Anterior Próxima Postagem

ads

ads