Apesar de sua história política, sua força de caráter, o que aproxima Marina de Collor é a funcionalidade de ambos: eles representam o antipetismo.
Darío Pignotti/Página 12 (@DarioPignotti)
Como em 89
Apesar de a honesta evangélica Marina Silva imaginar ser a encarnação do novo, seu papel na narrativa eleitoral reproduz uma cartilha de que as elites lançaram mão para conter as forças progressistas, populares e nacionalistas que têm o PT como seu representante político, não o único, desde a década de 80, depois das greves lideradas por Lula, desafiando a ditadura, que se viu obrigada a iniciar a abertura concluída nas eleições tuteladas de 1985.
Nas presidenciais de 1989, já sem prescrições, os sócios empresariais do regime, como a Fiesp e a Globo, uniram-se para abortar a vitória de Lula a qualquer custo. Dali surgiu Fernando Collor de Mello, um frankenstein com partes de Carlos Menem, Alberto Fujimori e de Carlos Salinas de Gortari, mas mais musculoso do que eles. Amigo de George Bush, Collor assumiu o governo em 1990 com uma base parlamentar alugada – como a que Marina alugará se ganhar em outubro – que o abandonou pouco antes de sua renúncia em 1992.
Collor, que chegou a ser personificado como herói de uma novela da Globo, apresentou-se diante do grande público como o "caçador de marajás": um outsider da política que lutaria sem quartel contra os corruptos.
Certamente, a biografia de Marina Silva não se confunde com a de Collor. Trabalhou junto do dirigente camponês assassinado Chico Mendes, militou no trotskismo, migrou para o PT, foi senadora por esse partido e depois ministra do Meio Ambiente durante o governo de Lula, do qual saiu contrariada em 2008, pela construção de represas na Amazônia. Sua inimiga jurada era a ministra Dilma Rousseff, impulsora de grandes obras de infraestrutura.
Conta-se que, quando deixou o Planalto, alguns ministros disseram-se fartos da "santa", apelido que Marina recebeu por sua atitude messiânica e presunção de superioridade moral. Rompeu com o PT em 2009 e em 2010 foi candidata à presidência pelo Partido Verde, do qual saiu um ano depois, arrecadando surpreendentes 20 milhões de votos, em sua maioria de classe média, média alta, ambientalistas, jovens, petistas desencantados e ongueiros. Surgia uma corrente de opinião eclética, acostumada a militar nas redes sociais, os "marineiros", que participaram das multitudinárias mobilizações de junho de 2013.
Apesar de sua história política meritocrática, sua força de caráter, seu compromisso, o que aproxima Marina de Collor é a funcionalidade de ambos: eles representam o antipetismo.
Em 1989, quando o PT propunha revisar e condicionar o pagamento da dívida externa, Collor assumia como seus, ainda que tenha talvez lido apenas em parte, os postulados do Consenso de Washington. Vinte e cinco anos mais tarde, transcorridos quase três governos petistas, Dilma e seu grupo ainda são os "inimigos a vencer", afirma privadamente Cardoso, dando voz ao parecer de banqueiros, editores e algumas embaixadas, caso da norte-americana.
Pragmáticos, os donos do poder se contentam com a ascendente Marina porque seu candidato ideal, Aécio Neves, ficou fora do jogo com 15% das adesões. E Marina aceita, apesar de seu discurso com sabor de clorofila, o pacto com o diabo para chegar ao Palácio do Planalto.

Postar um comentário
-Os comentários reproduzidos não refletem necessariamente a linha editorial do blog
-São impublicáveis acusações de carácter criminal, insultos, linguagem grosseira ou difamatória, violações da vida privada, incitações ao ódio ou à violência, ou que preconizem violações dos direitos humanos;
-São intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença;
-É inaceitável conteúdo comercial, publicitário (Compre Bicicletas ZZZ), partidário ou propagandístico (Vota Partido XXX!);
-Os comentários não podem incluir moradas, endereços de e-mail ou números de telefone;
-Não são permitidos comentários repetidos, quer estes sejam escritos no mesmo artigo ou em artigos diferentes;
-Os comentários devem visar o tema do artigo em que são submetidos. Os comentários “fora de tópico” não serão publicados;