por Paulo Moreira Leite
Desastre de socialistas europeus mostra necessidade de Dilma ser cautelosa com mudanças na economia, que não podem ameaçar conquistas obtidas pela população a partir de 2003
Nestes dias em que o governo Dilma debate a troca na equipe econômica, nunca é demais recordar o efeito devastador dos pacotes de austeridade sobre governos que têm um compromisso histórico com a defesa do bem-estar da maioria da população.
Há uma regra elementar e universal.
A aplicação de planos de austeridade faz parte do currículo histórico dos partidos conservadores. O eleitor — aliado e adversário — espera que façam isso. Acredita na visão de que é preciso fazer o bolo crescer primeiro para dividir depois. Por razões que não é difícil de entender, os sacrifícios, para grande parte destes eleitores, não são um problema. São o começo da solução.
Para entender o que acontece com partidos progressistas, comprometidos com a distribuição de renda e a proteção dos mais pobres, convém olhar para o mapa da Europa de hoje.
Os socialistas e social-democratas europeus sofreram a maior parte dos custos eleitorais do ajuste forçado pela hecatombe de 2008-2009, embora nem de longe pudessem ser apontados como os principais responsáveis pelo cemitério econômico em que se transformou o Velho Mundo.
Na Espanha, o PSOE não consegue se levantar nem com ajuda de sucessivos escândalos ligados aos conservadores.
Na França, François Hollande humilha eleitores e aliados com um desempenho abaixo de qualquer patamar histórico, que permite aos fascistas do Front National exibir garras cada vez mais ameaçadoras.
Na Grécia, expressão inicial da crise, o social-democrata George Papandreau foi deposto pelo Congresso porque pretendia realizar um plebiscito onde a população deveria se pronunciar sobre um pacote de austeridade. Não era um ato de resistência, como se poderia pensar, mas uma forma de dividir responsabilidades — Papandreau era a favor das medidas de sacrifício, só achava prudente que tivessem o respaldo da maioria nas urnas.
Quem tenta entender a permanência de Angela Merkel em seu posto na Alemanha descobre o seguinte. Ela só foi vitoriosa no último pleito porque fez, em casa, o contrário do que prega na economia dos países vizinhos.
Favorável às medidas mais brutas de austeridade na União Européia, Merkel protegeu o emprego e a maioria das políticas sociais junto ao eleitorado alemão — e é isso que explica o apoio que exibe até hoje, embora o baixo crescimento atual, provocado pela recessão na vizinhança, comece a tocar em seus calcanhares. Cabe compreender o aspecto prático da questão. Merkel não sobreviveu politicamente porque praticou uma política clássica de austeridade na Alemanha — mas porque teve o discernimento de evitar que chegasse a seu país, ao menos por alguns anos.
Trocando os sinais, chegamos ao desempenho de Barack Obama nas eleições legislativas.
A vitória republicana não é uma demonstração de que a maioria dos norte-americanos quer austeridade ou Estado Mínimo.
Os eleitores democratas se abstiveram, ficaram em casa, sem animo para defender seu governo, porque preferiam menos austeridade. Gostariam que a economia tivesse se recuperado mais depressa. Não gostaram de descobrir que, enquanto o país inteiro caminhava para o sacríficio, os senhores do mercado financeiro seguiram embolsando bonus muito além da linha da decência. Também estão desencantados com um sistema político com imensa dificuldade para garantir um patamar de dignidade mínimo a todos, a começar por um sistema de saúde razoável. Não rejeitavam Obama por princípio. Queriam que ele tivesse sido mais Obama.
São questões que cabem discutir no Brasil.
A marca da distribuição de renda, do emprego e do consumo explicam a vitória em 26 de outubro — numa campanha desigual e injusta. A polarização política da reta final trouxe seus benefícios para Dilma, que investiu acertadamente no conflito entre classes. Mas o confronto também deixou uma contrapartida.
Nenhum eleitor acharia estranho se, em caso de vitória, Aécio Neves começasse a baixar as célebres “medidas impopulares” anunciadas na campanha.
Acredito que Dilma perdeu entre dois e quatro pontos em função do golpe eleitoral midiático dos últimos dias. Mesmo assim, o desempenho eleitoral de Aécio Neves não deixa de ser um assombro, considerando o fraquíssimo currículo do PSDB na defesa do bem-estar da maioria dos brasileiros, que é o principal fator de decisão na hora do voto.
O Manchetômetro jogou um peso imenso, nesta eleição. O apoio dos grandes meios de comunicação não chega a ser um fato novo nem deve ser minimizado. Apenas foi renovado.
O PT perdeu votos para o protesto de antigos eleitores. É ilusório pensar que a mudança ocorreu nas residências de seus adversários tradicionais.
Dilma foi vencida no cinturão de trabalhadores do ABC paulista, e também nos bairros pobres da periferia de São Paulo, onde Fernando Haddad garantiu a vitória em 2012 — onde Celso Russomano renasceu como o deputado mais votado da temporada.
É este eleitor que deve ser conquistado pela política econômica do segundo mandato — ou será perdido em 2016, numa situação muito mais difícil.
Paulo Moreira Leite
Desastre de socialistas europeus mostra necessidade de Dilma ser cautelosa com mudanças na economia, que não podem ameaçar conquistas obtidas pela população a partir de 2003
Nestes dias em que o governo Dilma debate a troca na equipe econômica, nunca é demais recordar o efeito devastador dos pacotes de austeridade sobre governos que têm um compromisso histórico com a defesa do bem-estar da maioria da população.
Há uma regra elementar e universal.
A aplicação de planos de austeridade faz parte do currículo histórico dos partidos conservadores. O eleitor — aliado e adversário — espera que façam isso. Acredita na visão de que é preciso fazer o bolo crescer primeiro para dividir depois. Por razões que não é difícil de entender, os sacrifícios, para grande parte destes eleitores, não são um problema. São o começo da solução.
Para entender o que acontece com partidos progressistas, comprometidos com a distribuição de renda e a proteção dos mais pobres, convém olhar para o mapa da Europa de hoje.
Os socialistas e social-democratas europeus sofreram a maior parte dos custos eleitorais do ajuste forçado pela hecatombe de 2008-2009, embora nem de longe pudessem ser apontados como os principais responsáveis pelo cemitério econômico em que se transformou o Velho Mundo.
Na Espanha, o PSOE não consegue se levantar nem com ajuda de sucessivos escândalos ligados aos conservadores.
Na França, François Hollande humilha eleitores e aliados com um desempenho abaixo de qualquer patamar histórico, que permite aos fascistas do Front National exibir garras cada vez mais ameaçadoras.
Na Grécia, expressão inicial da crise, o social-democrata George Papandreau foi deposto pelo Congresso porque pretendia realizar um plebiscito onde a população deveria se pronunciar sobre um pacote de austeridade. Não era um ato de resistência, como se poderia pensar, mas uma forma de dividir responsabilidades — Papandreau era a favor das medidas de sacrifício, só achava prudente que tivessem o respaldo da maioria nas urnas.
Quem tenta entender a permanência de Angela Merkel em seu posto na Alemanha descobre o seguinte. Ela só foi vitoriosa no último pleito porque fez, em casa, o contrário do que prega na economia dos países vizinhos.
Favorável às medidas mais brutas de austeridade na União Européia, Merkel protegeu o emprego e a maioria das políticas sociais junto ao eleitorado alemão — e é isso que explica o apoio que exibe até hoje, embora o baixo crescimento atual, provocado pela recessão na vizinhança, comece a tocar em seus calcanhares. Cabe compreender o aspecto prático da questão. Merkel não sobreviveu politicamente porque praticou uma política clássica de austeridade na Alemanha — mas porque teve o discernimento de evitar que chegasse a seu país, ao menos por alguns anos.
Trocando os sinais, chegamos ao desempenho de Barack Obama nas eleições legislativas.
A vitória republicana não é uma demonstração de que a maioria dos norte-americanos quer austeridade ou Estado Mínimo.
Os eleitores democratas se abstiveram, ficaram em casa, sem animo para defender seu governo, porque preferiam menos austeridade. Gostariam que a economia tivesse se recuperado mais depressa. Não gostaram de descobrir que, enquanto o país inteiro caminhava para o sacríficio, os senhores do mercado financeiro seguiram embolsando bonus muito além da linha da decência. Também estão desencantados com um sistema político com imensa dificuldade para garantir um patamar de dignidade mínimo a todos, a começar por um sistema de saúde razoável. Não rejeitavam Obama por princípio. Queriam que ele tivesse sido mais Obama.
São questões que cabem discutir no Brasil.
A marca da distribuição de renda, do emprego e do consumo explicam a vitória em 26 de outubro — numa campanha desigual e injusta. A polarização política da reta final trouxe seus benefícios para Dilma, que investiu acertadamente no conflito entre classes. Mas o confronto também deixou uma contrapartida.
Nenhum eleitor acharia estranho se, em caso de vitória, Aécio Neves começasse a baixar as célebres “medidas impopulares” anunciadas na campanha.
Acredito que Dilma perdeu entre dois e quatro pontos em função do golpe eleitoral midiático dos últimos dias. Mesmo assim, o desempenho eleitoral de Aécio Neves não deixa de ser um assombro, considerando o fraquíssimo currículo do PSDB na defesa do bem-estar da maioria dos brasileiros, que é o principal fator de decisão na hora do voto.
O Manchetômetro jogou um peso imenso, nesta eleição. O apoio dos grandes meios de comunicação não chega a ser um fato novo nem deve ser minimizado. Apenas foi renovado.
O PT perdeu votos para o protesto de antigos eleitores. É ilusório pensar que a mudança ocorreu nas residências de seus adversários tradicionais.
Dilma foi vencida no cinturão de trabalhadores do ABC paulista, e também nos bairros pobres da periferia de São Paulo, onde Fernando Haddad garantiu a vitória em 2012 — onde Celso Russomano renasceu como o deputado mais votado da temporada.
É este eleitor que deve ser conquistado pela política econômica do segundo mandato — ou será perdido em 2016, numa situação muito mais difícil.
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