Os jornalistas não quiseram ou não se lembraram de ouvir Mercadante a respeito do noticiário que o solapa
A oposição à CPMF tem motivações variadas, mas o espaço de todas é
ocupado por uma só: "mais imposto, não!" –o mais insustentável dos
motivos. Se pensado um imposto com a finalidade de promover grande e
veloz crescimento industrial, nenhum dos industriais que gritam "mais
imposto, não!" ficará contra. E, se algum ficar, será um caso patológico
de insuficiência excessiva de raciocínio. Mal, aliás, nada
surpreendente.
O menos citado dos motivos, suponho mesmo que agora mencionado pela
primeira vez, surgiu a meio de uma novidade do jornalismo brasileiro.
Desde que se tornou chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante é o alvo de
uma avalanche que não se esgota, novas e cansativas repetições de
boatos, intrigas, maledicências, fantasias que são a moda no jornalismo
político, e até alguma verdade eventual. É detestado por Lula, Lula pede
sua demissão, o PMDB o culpa pela crise, Temer não o tolera, será
substituído por um não político, é Mercadante quem torpedeia Levy
–Mercadante faz Eduardo Cunha parecer amado pela pureza de intenções e
ética dos modos.
Nem por isso, em todos esses meses e imputações, a reportagem política e
seus chefes quiseram ou se lembraram de ouvir o próprio Mercadante a
respeito do noticiário que o solapa. Até que no domingo as repórteres
Catarina Alencastro e Simone Iglesias ("O Globo") trouxeram essa
novidade jornalística: Mercadante ainda fala.
E continua franco, claro, seguro: (...) "O ex-presidente Lula, que vem
pedindo a sua saída?"/ "Não. Hoje (sexta-feira) tomei café com ele.
(...) A gente tem uma relação muito rica, muito próxima"/ "Lula acha
fundamental que o sr. fique?"/ "Exatamente isso que ele disse". E foi
por aí, até à CPMF, para um diagnóstico fundamental e, ao que me consta,
nunca mencionado:
"A CPMF é necessária. O problema mais delicado é que atinge o caixa
dois. Qualquer empresa que tenha um caixa dois, tem que dar um cheque. E
aparece. Então, gera uma preocupação, mas isso não pode ser o
fundamental."
Não pode, mas, se não é para todos, é para muitos dos que urram contra a
CPMF e movem políticos para impedi-la. Caixa dois é a quantia que
empresas em geral mantêm fora da contabilidade, como se não existisse,
para transações não registradas, pagamentos por fora e mesmo para
esconder lucro, pagando menos impostos de renda e outros. A CPMF, além
de tomar algum dinheiro movimentado pelo caixa dois, faria o
desagradável papel de acrescentar um importante identificador aos que
visam a detectar o dinheiro por fora, que é ilegal e sonegador.
Joaquim Levy diz que a CPMF, como está proposta, nem é sentida pelo
pagador. À taxa de 0,2%, em cada R$ 100 a CPMF corresponde a R$ 0,20.
Para as empresas, são muitos R$ 0,20, mas não deixam de ser
insignificantes. A proporção continua a mesma.
Sobre ser insignificante também para as pessoas, a CPMF, como toda
taxação, tem um aspecto social: diferencia-se por ser equitatitiva,
aplicar a todos a mesma taxação. No país que tem a indecência de cobrar
proporcionalmente mais "imposto de renda" dos assalariados do que sobre
os lucros e a renda, uma taxa ao menos idêntica é um avanço.
O ENTREVISTADO
Nem o próprio Moreira Franco imaginaria ser um dia elevado a manchete
promocional da "Primeira Página" da Folha, com direito a uma página
inteira de foto e entrevista (21.set). Quando governador do Rio, Moreira
Franco frequentou muito as páginas da Folha, e nelas ficou para a
história em socorro dos que não têm memória ou não conhecem os fatos do
seu tempo histórico. Numerosas concorrências dos projetos de Moreira
Franco foram anuladas por fraudes, reveladas pela Folha com antecipação
do resultado sob disfarce. Várias linhas e estações do metrô, um sistema
de abastecimento de água de "necessidade urgente" e até hoje
dispensado, um tal "palácio da polícia", eram bilhões de dólares sob
fraudes.
Os dados biográficos de Moreira Franco publicados com a entrevista são
novidade, para o Rio, sobre esse piauiense. "Doutorado na Sorbonne"
lembra o título do ex-ministro, também na Sorbonne, que a Folha
descobriu existir só como imaginação.
Os amigos do presidente Lula
Os amigos do presidente Lula

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