Janio de Freitas, apenas com as armas do raciocínio, encontra muito mais que as digitais de Michel Temer em todo este imbroglio envolvendo seu homem de confiança e a aprovação de um empreendimento imobiliário irregular pretendida por Geddel Vieira Lima em interesse próprio, pois é detentor (sabe-se lá como, exatamente) de um dos luxuosos apartamentos que – um por andar – compõem os 107 metros de altura do tal La Vue.
Mais que as digitais porque encontra a própria assinatura de Michel Temer numa manobra destinada a criar uma Secretaria de Patrimônio Histórico, que retiraria do Iphan a autonomia da qual o órgão sempre gozou em seus 80 anos de existência.
Leia a coluna de Janio hoje, na Folha e cheque na imagem o trecho do relatório da deputada Mara Gabrili a que ele se refere, na Medida Provisória de “recriação” do Ministério da Cultura.
Geddel não estava só.
Temer levou Geddel ao governo
sabendo a quem entregava o poder
Janio de Freitas, na Folha
O enredo em que se inclui a ação
audaciosa e impune de Geddel Vieira Lima não tem a simplicidade de um
golpe a mais de tráfico de influência, como é tratado. Se não está no
início, Michel Temer está no meio de um encadeamento de atos merecedores
de mais do que uma nova anotação na folha corrida de Geddel.
Entre os primeiros atos de pretensa
organização do seu governo, Temer decidiu extinguir o Ministério da
Cultura, ao qual se ligava o Instituto do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional, o Iphan. Uma secretaria, de preferência pendurada na
Presidência da República, substituiria o ministério. A explicação para o
rebaixamento foi a redução de gasto. Inconvincente, porque o próprio
Temer, surpreendido pela reação de intelectuais e artistas, dizia serem
mantidos na secretaria todos os programas e funções do ministério. Logo,
também os gastos significativos.
As críticas venceram. Temer recuou,
emitindo medida provisória de recriação do ministério. Nela, porém, uma
farpa intrometia a criação da Secretaria Nacional de Patrimônio
Histórico. A exemplo das demais secretarias, aninhada na Presidência. A
finalidade desse órgão foi captada pelo repórter Evandro Éboli (“O
Globo”) com a deputada Mara Gabrilli, relatora da MP: “Mergulhei para
entender a importância dessa secretaria [Mara ouviu muita gente]. E vi
que a importância dela era tirar a importância do Iphan” –o responsável,
entre muitos fins, por julgar a relação entre o patrimônio ambiental e
empreendimentos (oficiais ou privados) que possam prejudicá-lo. Caso da
edificação defendida pela advocacia administrativa de Geddel Vieira
Lima.
A deputada retirou da MP a criação da
secretaria que ia muito além da suspeição de finalidade. Ficou porém,
indelével, a autoria de Michel Temer na sequência de atos pouco
explicados e nada justificáveis, referentes a decisões sempre
representativas de alto valor financeiro, além de outros valores.
Inalcançados os objetivos dos atos de Temer, Geddel viu-se na
contingência de pressionar o então ministro Marcelo Calero, para
obter-lhe a licença da edificação negada pelo Iphan.
Nesta altura, cabe um recuo no
enredo, para registrar dois outros atos inexplicados. O Instituto do
Patrimônio na Bahia é regido pelos mesmos princípios e fins do Iphan
central, mas cedera a licença. O prefeito de Salvador, ACM Neto, com
tanta responsabilidade pelo patrimônio ambiental da cidade quanto o
Iphan, também autorizou a edificação prejudicial. Em gravação telefônica
do presidente da OAS, Léo Pinheiro, ficou a comprovação de visita em
que Geddel obteve concessão de ACM Neto. Mais de uma. Fatos que
mereceriam ser investigados.
Tanto ou mais do que eles, conviria
uma investigação da Polícia Federal da “compra” de apartamento alegada
por Geddel, como razão do seu interesse no gabarito extraordinário do
prédio. São dados importantes nos casos de advocacia administrativa, em
que não são raras retribuições em imóvel ou outros bens, se houver êxito
da manobra no governo para o privilégio pretendido. Investigar não só
por se tratar de Geddel com seu histórico particular, mas por muitos
acreditarem que o Brasil pós-Lava Jato não é mais o mesmo.
Na Câmara, Geddel já se livrou, com
apoio do PSDB, do depoimento sugerido mais em seu favor do que contra.
Suas lágrimas sensibilizaram os líderes. Geddel, aliás, é um caso de
lacrimoso bem sucedido. Como integrante dos “Anões do Orçamento”, o
grupo de baixinhos que deturpava o Orçamento do país em favor dos
próprios bolsos, escapou da cassação por passar uma noite inteira
chorando e implorando a Luís Eduardo Magalhães, seu adversário, que
conseguisse excluí-lo da lista de punições em montagem naquelas horas.
Hoje é uma pessoa rica, para a qual Antonio Carlos Magalhães criou o
bordão lembrado por determinadas informações: “Geddel foi às compras”. O
patrimônio subira.
Calero duvidou da idoneidade de
Geddel. Michel Temer, não. Levou-o para a Presidência da República
sabendo muito bem a quem entregava uma boa fatia do poder. Se aí não for
o início do enredo, Michel Temer está ainda mais atrás.

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