Problemas de roteiro e maniqueísmo agravam dificuldades da obra lançada neste 7 de Setembro


O diretor explica cena aos atores. IQUE ESTEVES/DIVULGAÇÃO

Polícia Federal - A Lei é Para Todos mostra, já desde o título, qual a perspectiva escolhida pelo filme que almeja ser um blockbuster sobre os primórdios da Operação Lava Jato. Os heróis são da PF - e o epíteto vale até para o infame agente “japonês” que mesmo condenado pela Justiça ganhou espaço na tela. Dito isso, é pouco razoável cobrar que a obra reflita a fundo sobre as contradições da investigação como também ingênuo esperar que ela consiga ser analisada isoladamente. Um problema incontornável do filme é justamente esse, a justaposição com a tragicomédia real que o nocauteia de partida. Enquanto vemos o primeiro capítulo da saga – a fita vai até março de 2016, ou seja, estamos ainda no Governo Dilma e Lula é o vilão do filme que tenta fugir da cadeia se tornando ministro – , do lado de fora do cinema a trama segue a toda, com novos e turbinados vilões enganando os mocinhos em tempo real, dinheiro em bunker, dinheiro caindo do bolso de paletó...

A direção de Marcelo Antunez não ignora a questão e tenta explicitar ao máximo o to be continued - os produtores prometem filmar uma sequência em breve. Há a inserção de um teaser e de trechos reais dos vídeos das delações. É um bom truque, mas que não deixa de reforçar o contraste da ficção com a alta potência dramatúrgica dos relatos reais de corrupção explícita. Planta-se também, na boca de um dos melhores personagens da trama, o delegado da PF vivido pelo ótimo Antonio Calloni, algumas dúvidas sobre “interesses ocultos” e consequências políticas da Lava Jato, uma alfinetada aqui e ali no Supremo Tribunal Federal. É outro bom truque que, vide as reviravoltas da operação, soa menos como contraponto do que como uma espécie de precaução.

Mas as boas sacadas param por aí. Mesmo com a carência de filmes de ação no cinema nacional – um filão a explorar de forma competente, como já mostrou Cidade de Deus e Tropa de Elite –, o roteiro abandona rápido demais o lado mais dinâmico de seus heróis da PF, com perseguições bem executadas e boas apostas como o doleiro malandro Alberto Yousseff, para logo entrar numa espécie de modo Jornal Nacional editado sobre a Lava Jato. Num momento a tela se enche com uma sequência de manchetes de jornais com escândalos do passado. Noutro entra até uma animação solta sobre os desmandos no tempo da colônia. Tudo isso é para mostrar, em meio à perigosa pregação contra "todos os políticos bandidos” e sempre foi assim, que Lula não é o vilão isolado? Mesmo com a narração frisando que o mensalão foi o maior escândalo de todos? Não funcionou.

O trecho final do filme é dedicado a falar das acusações contra o petista – só ele e os empresários tem os nomes reais usados no filme. Duvido que os não consumidores intensos do noticiário entendam tudo. Mais grave do que isso: há sínteses e raciocínios que parecem até passíveis de contestação legal por parte da defesa do ex-presidente, já que ele ainda não foi condenado judicialmente por elas. Ainda assim, e já descontando a polêmica sobre patrocinadores ocultos e uso político em 2018 (as fake news fazem muito melhor trabalho e com muito menos dinheiro que uma produção cinematográfica, diga-se), isso não é o pior do filme. Nem mesmo os espantosos ternos brilhosos de Sérgio Moro reproduzidos no figurino de Marcelo Serrado são o pior. O ponto mais baixo do filme, sem dúvida, é a escolha de Ary Fontoura, com déficit de carisma e vigor, para interpretar Lula. A metade do país que ama odiar o petista - e deve gostar filme - merecia um ator mais crível para a tarefa.

EL PAÍS Brasil

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