É claro que sem a presença do ex-presidente, todo futuro governo será ilegítimo. E é certo que o embate PT vs. PSDB não se repetirá
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| Ricardo Stuckert "Entre os eleitores que eram tipicamente tucanos, como os de escolaridade e renda elevadas, quem rivaliza agora com Lula é Bolsonaro" |
A caravana de Lula pelo Nordeste percorria o interior de Sergipe quando uma pessoa, na beira da estrada, chamou a atenção de todos. Levantava uma folha de cartolina escrita à mão, com uma mensagem simples: “Faltam 14 meses”.
Quanto terá de esperar para votar em Lula. Ainda que tenhamos de manter cautela contra avaliações precipitadas (pois, em política, a prudência é sempre recomendável), há uma coisa certa em relação à eleição de 2018. Outra parece tão provável que é razoável tomá-la como estabelecida. E há uma incógnita.
Hoje, ninguém duvida do favoritismo de Lula. Até o ano passado, ainda havia comentaristas à direita que celebravam a “morte política” do ex-presidente. O tempo, rapidamente, encarregou-se de desmenti-los e de mostrar o ridículo do prognóstico. Desde quando saiu do Palácio do Planalto, ele é favorito a voltar. Aliás, se dependesse da maioria do eleitorado, nem sequer teria deixado o posto.
Lula só não exerceu um terceiro mandato porque suas convicções não permitiram que liberasse os aliados para mudar a Constituição (algo que não deteve Fernando Henrique Cardoso em 1997, quando patrocinou a emenda da reeleição para beneficiar-se).
Era favorito de novo em 2014 e é consenso que obteria uma vitória muito mais folgada que Dilma Rousseff. Nenhuma das calamidades pelas quais passamos de 2015 para cá teria acontecido, caso houvesse disputado e vencido.
Só houve um momento em que pareceu que sua posição era menos sólida, na crise final do segundo governo de Dilma. Mas nem bem a deposição se completou, ele recuperou-se. De setembro de 2016 em diante, cada nova pesquisa mostrou que sua dianteira se ampliava e consolidava. Não há, portanto, surpresa com a vantagem atual.
Enquanto Lula cresceu, o outro polo em torno do qual giraram as disputas presidenciais desde a década de 1990 se desfez. Hoje, tudo indica que o embate PT versus PSDB, que caracterizou as eleições de 1994 até 2014, não se repetirá em 2018.
Não deixa de ser irônico que o principal partido por trás da deposição de Dilma seja o mais prejudicado pelo processo que desencadeou. Ao contrário de abater Lula e exterminar o PT, o que os tucanos fizeram foi colocar em marcha o seu próprio colapso.
Nunca tínhamos tido, nas últimas seis eleições, uma situação como a atual, em que o mais forte dos candidatos peessedebistas, a 14 meses do pleito, tem somente 1% no voto espontâneo. É o que acontece com Geraldo Alckmin, mesmo governando um estado que concentra 22% do eleitorado brasileiro. Está tão pequeno que estimula a pretensão do antigo pupilo, o prefeito de São Paulo, que quer aparecer se exibindo como um anti-Lula de butique e também não passa de 1%.
Não é preciso entender de pesquisa para perceber que só há um candidato, além de Lula, que dá sinais claros de vitalidade: Jair Bolsonaro. Em todos os segmentos do eleitorado onde tínhamos os simpatizantes do PSDB, é ele que encontramos.
Isso vale no plano regional e socioeconômico: os estados “azuis”, onde os candidatos do PSDB costumavam ter bom desempenho, são os mais “verde-oliva”. Entre os eleitores que eram tipicamente tucanos, como os de escolaridade e renda elevadas, quem rivaliza agora com Lula é Bolsonaro.
Ele não ganha do petista em nenhum estrato, mas está bem em alguns: eleitores do gênero masculino, jovens, com educação superior, pertencentes a famílias de renda alta e que residem no Sul, no Centro-Oeste e no Sudeste.
O capitão enfrenta dois problemas. De um lado, nos segmentos que lhe são mais favoráveis, é elevada a participação de pessoas informadas e com posições ideológicas definidas. O espaço de crescimento é, portanto, menor. De outro, sua capacidade de atrair o eleitorado popular é pequena, dada a imensa preferência que tem por Lula. Apesar disso, é o mais provável adversário do PT em 2018.
Hoje, a incógnita não está onde deveria estar e onde esteve desde a redemocratização: no eleitorado, suas opiniões e inclinações. A grande pergunta é quão longe o Judiciário pretende intervir no processo político. Até que ponto um pequeno grupo de juízes e procuradores conseguirá impor ao País e a seus superiores suas fantasias de poder e equívocos.
Sem Lula, a eleição pode ser inútil para restituir a autoridade que o Executivo perdeu. Se for impedido de participar, ela dificilmente conseguirá tirar o País do atoleiro em que o meteram e o eleito governará sempre sob o signo da ilegitimidade, como alguém que só ganhou porque armaram o tapetão. O inverso do que o Brasil precisa no momento em que estamos.
CartaCapital

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