O SENADO QUER ouvir a Rede Globo sobre as acusações de pagamento de propina para obter os direitos exclusivos de transmissão de jogos de grandes torneios de futebol – entre eles, as Copas do Mundo de 2026 e 2030. Na última terça (28), a Comissão de Ciência e Tecnologia (CTT) da Casa aprovou um requerimento do senador Lindbergh Farias (PT/RJ) para realizar uma audiência pública sobre as denúncias que pesam contra o conglomerado de mídia.

Conhecido como Fifagate, o esquema de corrupção envolvendo a federação internacional e outras federações de futebol está sendo investigado por autoridades americanas. Em delação premiada, negociada com a justiça estadunidense, o empresário argentino Alejandro Burzaco, ex-diretor da empresa de eventos esportivos Torneos y Competencias (TyC), disse que a Globo pagou propinas para conseguir direitos de transmissão das copas Libertadores da América e Sulamericana. O delator não detalhou valores, mas indicou que o dinheiro teria sido destinado a altos executivos da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol), responsável pelos torneios continentais.

O empresário afirma ainda que a Rede Globo pagou, junto com a TyC e o conglomerado mexicano Televisa, US$ 15 milhões para garantir os direitos de transmissão das Copas do Mundo de 2026 e 2030. Trechos dos depoimentos de Buzarco foram veiculados pelo Jornal Nacional e outros veículos do próprio Grupo Globo:

“Promotor: O senhor participou de outras reuniões em Zurique?
Alejandro Burzaco: Sim. A Torneos y Competencias tinha uma aliança com a TV Globo e com a Televisa. Elas tentavam adquirir da Fifa direitos de transmissão de TV, rádio e internet paras as Copas de 2026 e 2030. Com exclusividade para o Brasil, no caso da Globo, e para o resto da América Latina, no caso da Televisa.
Promotor: Adquiriram esses direitos?
Alejandro Burzaco: Sim
Promotor: Qual foi o acordo para adquirir esses direitos?
Alejandro Burzaco: Entre os três parceiros, concordaram em dividir o pagamento de US$ 15 milhões para Júlio Grondona.
Promotor: Quais eram os parceiros da Torneos? Alejandro Burzaco: TV Globo e Televisa. Promotor: O valor acordado foi pago?
Alejandro Burzaco: Sim, US$ 15 milhões. O dinheiro acabou numa conta num banco na Suíça em nome de Júlio”.

O requerimento aprovado no Senado para a realização de audiência pública inclui convites ao ex-executivo da emissora responsável por negociar direitos esportivos, Marcelo Campos Pinto, um representante da Rede Globo e um representante do Ministério Público Federal. Para Lindbergh, autor do requerimento, o envolvimento da emissora em um escândalo de proporções internacionais merece investigação rigorosa. O parlamentar afirma que estuda a possibilidade de recolher assinaturas para a criação de uma CPI sobre o caso se a Globo decidir não participar do debate no Senado.


The Intercept Brasil entrou em contato com a TV Globo para saber se a emissora pretende enviar representantes à audiência, mas não obteve resposta até a conclusão desta reportagem.

PGR pede investigação contra Globo


Na semana passada, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, enviou uma denúncia contra a Rede Globo ao Ministério Público Federal do Rio de Janeiro. O documento tem como base representações assinadas pelo PSOL, PT e PDT, que usaram trechos do depoimento de Buzarco às autoridades americanas.

O Ministério Público Federal do Rio informou a The Intercept Brasil que a representação contra a Rede Globo já está no setor jurídico responsável pela distribuição e designação de procurador. O MPF informa ainda que prestará mais informações depois que o caso for atribuído a um procurador, e que este emitir um parecer sobre a denúncia.

Esses mesmos partidos também entraram com uma representação no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) acusando a emissora de ferir a lei de Defesa da Concorrência no caso Fifa. A representação solicita investigação de possíveis crimes cometidos pela Globo e recomenda ao Ministério da Ciência e Tecnologia que casse a concessão da TV caso ela seja julgada culpada por infringir a Lei Geral de Telecomunicações.



O ex-presidente da CBF José Maria Marin na saída do primeiro dia de seu julgamento no “Caso Fifa”, no Tribunal Federal do Brooklyn em New York. Ele é acusado de fraude, lavagem de dinheiro e integração organização criminosa, e nega todas as acusações.


Cartolas na mira da justiça dos EUA


Além da Rede Globo, que nega irregularidades, o delator também implicou dois ex-presidentes da CBF, José Maria Marin e o atual mandatário, Marco Polo Del Nero. O primeiro está em prisão domiciliar nos Estados Unidos há mais de um ano, pois já responde a processo nos EUA por suposta participação em esquema de corrupção envolvendo empresas de marketing e a CBF. O delator afirma que cada um dos três dirigentes teria recebido, de 2006 a 2015, até US$ 1 milhão (aproximadamente R$ 3,3 milhões) por campeonato cujos direitos de transmissão negociavam.

The Intercept Brasil





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