Este país está uma vergonha.

Não bastasse candidatos à presidência baterem, em gesto de incontinência moral, continência para a bandeira de outro país, e gritarem, em altos brados, USA, USA, USA!, em reuniões públicas na Flórida e ministros de Estado defenderem o fim da exigência de vistos para nações que os cobram de cidadãos brasileiros; em ato de subalternidade explícita, outro ministro vem agora defender, de público, a posição de um terceiro país, em pedido de extradição, no caso Battisti, dizendo que “os italianos não perdoam o Brasil por não mandar Batttisti de volta” , que para eles “é uma questão de sangue”, que representa “um entrave nas relações Brasil-Itália e na relação com a União Europeia com o um todo."

Ora, em primeiro lugar, é preciso saber a que “italianos” o ministro brasileiro estava se referindo.

Na Itália, se há quem considere Battisti um assassino, há também quem o considera inocente.

A título de informação, sugiro a leitura de artigo publicado em um site italiano - entre muitos - que defende Battisti https://www.infoaut.org/segnalazioni/ricordare-per-giudicare-il-caso-battisti-la-disinformazione-brasiliana-e-la-menzogna-italiana

e um livro do escritor argentino Carlos Lungarzo, que pode ser encontrado, entre outros sites, na livraria da Folha.

Em segundo lugar é preciso saber quais são os “entraves” a que se refere o Ministro, se sequer o comércio com os italianos diminuiu nos últimos anos e suas multinacionais continuam lucrando horrores por estas plagas, sendo portanto eles que teriam mais a perder em caso de guerra comercial ou boicote entre os dois países;

E mais: por que os “italianos” a que se refere o ministro não tentaram falar grosso com outros países - europeus - que acolheram antes o mesmo Cesare Battisti?

Será que é porque acham que somos uma republicazinha de banana como faz questão de ressaltar, a todo momento, com suas decisões e atitudes, o atual governo?

Ora, sr, Ministro, manter ou não Cesare Battisti em nosso país é assunto interno brasileiro e é preciso um mínimo de pudor para não discutir decisões soberanas, - que aliás já foram tomadas anteriormente - em público, antes mesmo de aguardar a eventual decisão do STF, e de já ir se abaixando para os estrangeiros, fazendo questão de mostrar a costura da calça de veludo.

Se a Itália não gostou da decisão de não extraditar Battisti, que vá se ralar nas ostras, junto com a União Europeia, organização alias na qual existem países muito mais importantes que a Itália que compartilharam com o Brasil de alguns anos atrás a decisão de não extraditá-lo por dúvidas e falhas no processo que o condenou, como a França, por exemplo, que o abrigou durante muitos anos, oficialmente, sem ceder à vontade de Roma.

Finalmente, se Battisti fosse de outra orientação política, talvez nada ocorresse com ele. Há terroristas de direita, responsáveis por mais de 80 mortes e 200 feridos em um único atentado como o ocorrido na estação de trem de Bolonha, na década de 1980, que vivem soltos na Itália, a ponto de terem se envolvido com outros crimes como o escândalo da Máfia Capitale, que ocorreu há pouco tempo na velha bota, apesar de imbecis acreditarem por estas latitudes que a corrupção acabou naquele país depois da Operação Mãos Limpas.

Mauro Santayana

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