Em entrevista exclusiva ao Nocaute, o sociólogo e jurista Pedro Scuro fala das relações Brasil x EUA e analisa as ações militares do governo Temer na base de Alcântara e na Amazônia.
Por Nocaute
Muito bem, só que os americanos pensaram que as relações militares do Brasil com eles ficaram muito boas. E aí depois da guerra, depois que o Getúlio caiu houve aquele problema da guerra da Coreia. Os americanos ficaram bastante desesperados porque começou a morrer muito americano nessa história. E começaram a formar uma frente militar da ONU. E os mesmos comandantes aliados que estiveram lá na Europa, vieram aqui para o Brasil querendo convencer os militares brasileiros a ir também lutar na Coreia. Só que o Brasil não topou isso. O general Góes Monteiro foi a Washington fez exigências aos americanos. Exigiu que os americanos equipassem militarmente o Brasil com armas modernas. E mais: exigiu que para ir a Coreia fizesse um convite expresso ao Brasil. Os americanos não gostaram disso e desde então as relações Brasil e Estados Unidos melaram.
Outro acontecimento importante, eu acho que é mais grave, porque nós estamos vivendo isso ainda, foi a participação do Brasil nas forças armadas que atuou no Haiti. Sendo que o Brasil, por pelo menos duas vezes, teve comandante dessa força militar. Essa experiência é fundamental para que a gente entenda o que está se passando na Amazônia hoje em dia. O que está se passando na Amazônia e talvez na questão de Alcântara.
No Haiti quando o general brasileiro Heleno era o comandante, ele ficou muito preocupado com a pressão americana de reprimir. Usar a tropa brasileira para reprimir a população no Haiti. Havia também uma pressão muito grande da parte dos empresários haitianos. E eles se organizaram para derrubar o Jean-Bertrand Aristide, então presidente do Haiti. Acabaram derrubando quando o Aristide cometeu o pecado supremo. Dobrou o salário mínimo. Aí então fizeram o golpe e derrubaram o Aristide.
No Brasil era o governo Lula ainda. Então, havia essa pressão em cima do general Heleno, ele acabou autorizando uma ação do exército brasileiro com tanques aviões naquela famosa Cité Soleil. E ali morreu muita gente. Muita criança, muita mulher, muito civil. Foi uma coisa horrível.
Depois disso o Brasil acabou enviando um outro comandante. Já o general Bacellar e ele tinha a mesma posição do general Heleno. Aí quando houve uma nova insistência da ONU para uma nova operação contra aqueles que eles chamavam de rebelde, ele se recusou. E o general Bacellar foi assassinado. Isso saiu na imprensa internacional, saíram documentos secretos do Wikileaks sobre isso. E aqui na época se publicou que foi um suicídio.
Quando a gente fala do que está acontecendo na Amazônia, eu acho que a possibilidade do Brasil vir a entrar numa ação de agressão a Venezuela, se for simplesmente da experiência dos militares brasileiros, eu acho inviável.
Agora, como é que essa operação se viabilizou diante desse clima. Os brasileiros não estão mais no Haiti. É que tem um outro fator. O outro fato é que o principal conselheiro militar do presidente Trump, é o general Ricky Wadell. Um militar muito bem formado. Ele tem mestrado em História e Português em Oxford, tem doutorado em Relações Internacionais. E viveu aqui em São Paulo. Ele viveu doze anos aqui em São Paulo. Foi CEO da Anglo Ferrous aqui em São Paulo.
E também o excelente relacionamento militar do Brasil com a China, que é o inimigo potencial dos Estados Unidos. A China vem com um ótimo relacionamento militar com o Brasil desde da década de 90. E eles têm lá uma Universidade de Segurança Pública e uma Universidade de Defesa Nacional. E os chineses estão muito interessados naquela escola de guerra na selva em Manaus do Exército brasileiro. Que é uma excelente escola. E os chineses foram lá participaram, convidaram os brasileiros para ir para China para ajudar na montagem de uma escola chinesa de guerra na selva.
Além desse relacionamento muito bom que a China teve com o Brasil no aspecto econômico, atualizando as coisas, eu vejo essa presença chinesa muito importante para o que está acontecendo agora na Amazônia, para o que está acontecendo agora em Alcântara. Os americanos que nunca se incomodaram com o Brasil do ponto de vista militar. Eu mencionei aqui o fato da Coreia, da Segunda Guerra Mundial. Nós estamos diante de fatos novos.
Quando eu vejo que existe muita preocupação e realmente deve haver essa preocupação com ameaça a nossa soberania, eu tenho que levar em consideração também esses fatos.

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