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| Manifestante protesta contra o fim da neutralidade da rede em Washington: "Não pise em mim" AFP |
Revisão das regras no Brasil seria um retrocesso histórico num país que emergiu como exemplo mundial a partir do Marco Civil da Internet
PEDRO HENRIQUE SOARES RAMOS
Como esperado, a Federal Communications Commissiondos EUA decidiu na última quinta-feira (14) derrubar as regras de neutralidade da rede que vigoravam no país. A decisão do Governo Trump vai de encontro à tendência que se observou em dezenas de países entre 2011 e 2015, mas pode apontar a um novo paradigma regulatório a partir da segunda metade desta década, muito por conta da própria incapacidade dos governos de aplicarem as regras de neutralidade da rede e de se manterem independentes do lobby empresarial de grandes conglomerados econômicos.
Ocorre que, desde então, os EUA – e os governos de diversos outros países – mostraram-se incapazes de garantir o enforcement dessas regras. As práticas de transparência exigidas pelas regulações foram ignoradas pelas telecom,associações de proteção ao consumidor viram-se despreparadas para lidar com a complexidade do tema na esfera judicial e as autoridades antitruste não conseguiram aplicar a moldura regulatória concorrencial de forma a preservar a diversidade de valores e objetivos preservados com a neutralidade da rede.
A revisão das regras de neutralidade da rede no país seria um retrocesso histórico num país que emergiu como exemplo mundial a partir do Marco Civil da Internet. Em tempos de grandes fusões como Disney/Fox, podemos ver cada vez mais barreiras de entrada para novos competidores no setor de aplicações, reduzindo o empreendedorismo em um país que já encontra dificuldades em sua estratégia de inovação.
Mais do que defender a neutralidade da rede, é preciso aplicá-la, exigindo que provedores de acesso cumpram suas obrigações legais, e criando mecanismos de fiscalização mais rígidos que permitam de fato a transparência do gerenciamento de tráfego e a aplicação do Marco Civil. Só assim vamos direcionar a internet brasileira para o caminho da inovação, incentivando o desenvolvimento de novos produtos, serviços e tecnologias para melhorar a vida das pessoas, aumentando suas capacidades e expandindo suas liberdades substantivas, esses sim os verdadeiros objetivos da neutralidade da rede.
Pedro Henrique Soares Ramos é advogado e mestre pela FGV/SP. Foi pesquisador visitante no Center of Internet & Society de Stanford e foi consultor ad hoc sobre do Ministério da Justiça para o tema de neutralidade da rede em 2015 e 2016. Autor da dissertação “Arquitetura da Rede e Regulação: a neutralidade da rede no Brasil”
EL PAÍS Brasil
