Perícia do Instituto Médico Legal de Brasília informou na tarde desta terça-feira que o deputado federal Paulo Maluf tem doença grave e permanente, mas pode ser tratado na Papuda, onde está preso desde a semana passada. A defesa vai insistir no pedido de prisão domiciliar em razão da idade de Maluf e do seu estado de saúde.
“Aqui se faz, aqui se paga”, comemoraram os adversários mais antigos, que acompanharam as roubalheiras de Paulo Maluf nas últimas décadas.
Faltou acrescentar: desde que não seja tucano nem amigo do Gilmar.
Embora o tenha combatido e sido por ele processado, e o vencido na Justiça, quando ele era governador de São Paulo, no século passado, não vejo sentido em mandar Maluf para a Papuda a esta altura do campeonato.
Para quê? Certamente não será para regenerar e reeducar o condenado, além de puni-lo pelo conjunto da obra.
Aos 86 anos, arrastando-se de um lado para outro apoiado numa bengala e com a ajuda de policiais, o ex-governador paulista tornou-se um símbolo da velha corrupção do patrimonialismo brasileiro em que o público e o privado se encontram nas mesmas contas bancárias.
Todo mundo sabe que, mais dia menos dia, com perícias e laudos médicos, Maluf estará de volta à sua mansão da rua Cuba, nos Jardins paulistanos, acompanhado da melhor adega da cidade _ se possível, a tempo de estourar champanhe neste Ano Novo que está custando tanto a chegar.
Disposta a não sair das manchetes nesta entressafra de notícias, para mostrar quem manda aqui, a Justiça continua ocupando as manchetes com a extemporânea prisão do octogenário.
Bom ator, Maluf tem colaborado na encenação do martírio natalino na prisão, com a ajuda do advogado Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, que se tornou seu porta-voz nas visitas diárias que faz a ele no presídio.
“A vida de Maluf na cadeia é um suplício”, disse Kakay no dia de Natal, ao lembrar diariamente todas as doenças do seu cliente, que precisa da ajuda dos companheiros de cela para se levantar da cama.
O advogado também relata como Maluf dormiu, o que lhe serviram de comida, o seu inconformismo com a inesperada ida para a Papuda e todas as mazelas comuns aos presos.
Em termos políticos, a prisão do inspirador do verbo “malufar” não muda nada, a não ser a volta aos jornais daquela fatídica foto de Lula se abraçando com ele nos jardins da famosa mansão para pedir apoio a Fernando Haddad na eleição municipal de 2012.
Com algum atraso, o ex-presidente diz agora que se arrependeu de posar para a foto, mas isso também não muda nada.
Preso só agora por crimes que cometeu há mais de 20 anos, graças ao foro privilegiado de deputado federal e uma plêiade de bons advogados, Maluf deve estar pensando na coincidência de ter ido em cana no mesmo dia que seu parceiro José Maria Marin, que o substituiu no governo do Estado, ambos filhotes da ditadura militar, que alguns ainda querem de volta justamente para combater a corrupção.
De um jeito ou de outro, o Brasil antigo está saindo de cena, sem que se possa saber o que virá em seu lugar.
Poderá ser até muito pior, se Lula for impedido pela Justiça de disputar a eleição e Jair Bolsonaro continuar pontificando como o único anti-Lula viável nas urnas até aqui.
E assim, melancolicamente, com as imagens da decrepitude de Paulo Maluf, vamos chegando ao final de 2017, mais voltados ao passado do que para o futuro.
Balaio do Kotscho
