Manifestácion, de Antonio Berni (1934).

As "pessoas comuns" não são marionetes e tampouco não passam de ralé para serem subestimadas, pelo contrário, nada impede que elas protagonizem a história humana.


Por Rodrigo Souza


Ao tesouro de meu povo nenhum homem tem direito só porque Smaug, que o roubou de nós, também roubou-lhe a vida ou a casa. O tesouro não lhe pertencia para que seus malefícios devam ser reparados com uma parte dele. O preço dos bens e da assistência que recebemos dos Homens do Lago serão justamente pagos, no devido tempo. Mas não daremos nada, nem mesmo o valor de um pão, sob ameaça de força. Enquanto um exército armado estiver diante de nossas portas, vamos considerá-los inimigos e ladrões. Quero perguntar-lhe que parte da herança vocês teriam pago a meu povo, se nos tivessem encontrado mortos e o tesouro, sem guarda.
Thorin, o líder dos anões em “O Hobbit”.

Primeiro subia um burburinho, como borbulhas de peixinhos agitados se revolvendo no fundo da lagoa. Logo uma voz se exaltava, como uma rabada golpeando a superfície d’água. A essa altura espumas alvoroçavam como quebrando a tensão superficial. As vozes exaltadas ganhavam ritmo. Respingavam, estalavam pequenas ondas, veio o redemoinho… Tapas em superfícies metálicas, ferros batendo em ferros, vidros quebrando, conclamações, fogo. Uma fumaça negra, espessa e ardente subia, o Terminal da Praça da Bíblia, em Goiânia, estava em polvorosa, depredado, em chamas.


Talvez quem leia esteja imaginando a cena de uma “arruaça” planejada de um coletivo anarquista querendo dar um recado ao “sistema”. Mas eram avós, mães, tias… eram senhoras que poderiam ser da família. Extravasaram algo desencadeado pelos ônibus atrasados nos terminais, mas que foi na verdade uma formação de uma “tromba d’água”, afluindo de muitos e muitos dias espremidas no terminal, empurradas, brutalizadas para entrar no ônibus, sacolejadas, stress e agonia do cotidiano urbano, com as ondas de humilhações nos trabalhos precários, estourando após uma torrente de aumentos de passagem na cabeceira. Eram senhoras, quebrando tudo.

Duas grandes visões básicas catalisaram e entusiasmaram intensas paixões recentemente nos debates e considerações quanto aos engajamentos sociais. Com apelos contrastantes, ambas reivindicando serem visões críticas ao que alegam ser o problema do estado de coisas do momento atual, conclamando à sua contestação. Em tempos mais recentes, esse embate se reforça diante de fenômenos marcantes nas formas contemporâneas de mobilização, gerando perplexidade e ainda não totalmente assimiladas nas reflexões.

Esbocemos algumas problemáticas que são tópicos no cenário:
  • O papel das redes de comunicação virtual em propagar e mobilizar;
  • Ativismos dispersos, com denúncias, manifestos, abaixo-assinados, reivindicações e congêneres, por meio de assinaturas e correspondências eletrônicas, bem como campanhas e atos “espontâneos”;
  • Movimentos de ciberativistas, “youtubers”, fóruns virtuais, correntes de whatsapp, robôs digitais;
  • Manifestações públicas, sejam de grupos, sejam de de grandes contingentes de população, em torno de um “acontecimento” que usam de mote para um levante de seu público;
  • Movimentos de afirmações de identidades, de tradições, de valores, de programas para configurar novas culturas ou reagir diante do que vê como ameaça à suas estabilizações convencionais para o caos do mundo.

Vamos viajar aqui, considerando as problematizações que se tem feito sobre pretensos “reais significados”, potenciais, limites, insuficiências e para alguns, fracassos quanto a esses fenômenos realmente poderem abalar o status quo. Ouçamos o sibilo no ar; sementes lançadas e ainda se lançando, tempestades se anunciando e já chegando, prelúdios de tempos de convulsões.


As representações destas duas expressões contrastantes, que aludimos acima, serão aqui discutidas com auxílio de categorias-chave no pensamento sociológico de dois grandes filósofos contemporâneos, Antonio Negri (aqui abordando os livros “Império” e “Multidão”, escritos junto com Michael Hardt) e Peter Sloterdijk (aqui abordando principalmente o livro “Regras para o Parque Humano” e secundariamente “Crítica da Razão Cínica”). É fácil identificar o impacto de ambos, constatando a frequente presença de termos pitorescos presentes nas discussões, mesmo sem nomear estes autores. Muitas vezes presentes mesmo sob a forma de apelo conotativo de grande vigor. Não raro eles não empregam uma linguagem fácil, ou usam termos complicados que sintetizam longas discussões, mas vamos tentar aqui explicar quando disserem algo mais truncado.

Povo de Correntina/Bahia ocupa e se subleva em fazenda – conflitos sócio-territoriais pelo usufruto da água e custos ecológicos
A chave para o que estamos sugerindo aqui é o que iremos propor como a batalha vital do momento: a disputa pelas “pessoas comuns”. Não só pela “adesão das pessoas comuns”, pelo convencimento delas, mas também pelo entendimento do que consiste ser a “pessoa comum”. Acima de tudo, como essas pessoas se sentem nessa transição caótica em que vivemos, de cujas consequência são imprevisíveis? É como se, no fundo, elas sentissem que são descartáveis e isto alimenta seu desejo de atirar algo às chamas.

Quem é você, “povo”?


Prezada Sra. Rand:

Eu não sou um crítico profissional e não me sinto capaz de julgar os méritos desse livro. Portanto, eu não quero retê-la aqui com a informação que gostei muito de ler A Revolta de Atlas e que fiquei extremamente admirado com a magistral maneira como a senhora construiu o enredo.

Porém, A Revolta de Atlas não é simplesmente uma novela. É também (e principalmente) uma análise persuasiva dos males que assolam nossa sociedade, uma rejeição embasada da ideologia dos nossos pretensos “intelectuais” e um impiedoso desmascaramento da insinceridade das políticas adotadas pelos governantes e políticos.

É uma exposição devastadora dos “canibais da moral”, dos “gigolôs da ciência” e da “tagarelice acadêmica” desses criadores da “revolução anti-industrial”. A senhora teve a coragem de dizer para as massas aquilo que nenhum político jamais teve: vocês não seriam nada sem os capitalistas, e todas as melhorias nas suas condições de vida, tudo aquilo que vocês simplesmente assumem como coisa corriqueira, como fato consumado, vocês devem unicamente aos esforços de homens que são melhores do que vocês.

Ludovico de Mises, em carta à Ayn Rand de 1958

O filósofo Antonio Negri produziu o conceito e a proposição de “Multidão”. Em suas obras busca desassociá-lo de termos que podem confundir-se com o sentido que propõe, termos tal como “massa”. Ele busca definir que “a multidão não pode jamais ser reduzida a uma unidade”, mas como“um conjunto de singularidades”. Ou seja, não é um mero ajuntamento uniforme de elementos com um pensamento e identidade invariáveis. Entretanto ainda assim, afirma que“Multidão” é o nome de uma imanência, (…) o conceito de uma potência. Somente analisando a cooperação podemos, com efeito, descobrir que o todo de singularidades produz além da medida. Esta potência não deseja apenas se expandir, mas, acima de tudo, quer se corporificar: a carne da multidão quer se consubstanciar no corpo do ‘General Intellect’. E parte daí para preconizar quea ação política voltada para a transformação e libertação só pode ser conduzida hoje com base na multidão ( “Império”, p. 139 ).


A “multidão” se forma de acordo com um misto de ideias, sentimentos e uma conjuntura propícia para eclodir o fenômeno. É a forma e movimento que foi assumida por um potencial que se avoluma. Ela “encarna” esse misto e dá-lhe forma, direcionamento de ação, produzindo impacto. Ela exerce uma força para conclamar a se prestar satisfação ante ao que está clamando e fazendo.

Negri e o co-autor Michael Hardt colocam que o programa social da figura da “multidão” vai de encontro a objetivos para se construir uma comunidade global democrática, partilhando da vida comum, pelo bem comum; não regulada por vanguardas, mas, em analogia com o cérebro, funcionando como um centro nervoso ainda que não dotado de um centro, mas de diversos módulos. Ela é policêntrica e não centralizada. Ela “puxa” e “empurra”. Ela se capilariza nos espaços das estruturas sociais. Ela congrega, ela diferencia. Ela não é uma democratização radical, mas seria, em tese, uma radicalização de democracia, com muitas facetas para se expressar. Por isso pode agregar componentes sociais diferentes, dado o clima que veio se formando até manifestar-se naquela forma.

A multidão não é nem o encontro da identidade, nem pura exaltação da diferença, mas é o reconhecimento de que, por trás de identidades e diferenças, pode existir “algo comum” (…) entendido como proliferação de atividades criativas, relações ou formas associativas diferentes. (“Multidão”, p. 148)

Cruzando o rio….

“Homens retornando para casa” – pintura de Edvard Munch
O vulto presente em outro polo, Peter Sloterdijk, propugna algo bem diferente deste pensamento, ainda que percorrendo o mesmo sentido quanto a um programa subversivo ao que entende como configurações socioculturais atuais. Igualmente põe as pessoas no centro do pensamento, mas de uma maneira reversa.

Sua polêmica tem atraído muita atenção em boa parte por causa de um programa que apresenta na Alemanha, que discute questões filosóficas com um público mais amplo, mas também em grande parte devido às polêmicas que promoveu mundo afora. Provocou uma “treta” com o aclamado Jurgen Habermas, e, por conseguinte, incitou partidarismos (não que Michael Hardt e Negri não tivessem envolvidos em polêmicas também, pelo contrário) junto com a repercussão bombástica e acirramento de ânimos; mas também reverberou pela maior radicalidade ao entrar como uma “cuia”, cavando profundo em assentamentos culturais que cimentam ideários modernos.


Ele parte do filósofo Martin Heidegger para discutir as estratégias aculturadoras e civilizatórias que se aglutinam no projeto da modernidade, arquitetando uma crítica ao Humanismo, o qual, no seu ponto de vista, “domesticaria” e “adoeceria” o ser humano, por meio de articulações de signos linguísticos que promovem massificação. Em “Crítica da Razão Cínica” ele põe que há forças em nós e na história social que podem ser administráveis, mas não “domadas”. Quando algo tenta fazer isto, mais cedo ou mais tarde se vê imerso no que não pode controlar, eclodem as forças do caos. Considera a crítica de Heidegger insuficiente, ao propor este, como contrapartida, uma postura pessoal autocentrada para “fugir” da banalização e tagarelagem dispersa do meio social, e assim uma escuta respeitosa para auto-compreensão do homem em vistas de uma vida autêntica de realização das potencialidades.

Sloterdijk vai mais longe e recorre a Nietzsche para dizer que, mais do que tal senso atento e reflexivo, o que se precisa é de um engajamento bravio diante da arena de conflitos cruciais para as decisões vitais de nossos rumos e daí se superam nossas fraquezas. Ele elogia as iniciativas de se buscar a superação de nossas limitações, inclusive psicológicas e corpóreas, recorrendo aí também a Platão – para conjugar as suplantações biológicas com as da mente e espírito. Sloterdijk escreve: “No que concerne ao zoo platônico, importa-lhe sobretudo aprender se a diferença entre a população e a direção é somente de grau ou é mais de espécie.” Assim ele conclama a identificar, com “senso” e de forma responsável os âmbitos para o qual rompamos a postura “domesticada” para, com arrebatamento, buscarmos novas criações (em contraposição à “educações”) para a criatura humana.




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