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| Programa da série “Em Movimento”, da GloboNews: CCR patrocinou. mas o espectador não é avisado |
O objetivo do “conteúdo de marca” (branded content, em tradução literal) é estabelecer um relacionamento menos “comercial” com o público, desenvolver um “sentimento” em relação à marca. Tudo muito sutil e calculado. Vê-se muito em novelas.
A GloboNews estreou uma série chamada “Em Movimento”, que trata de mobilidade urbana e transporte público e é financiada pela CCR Grupo Camargo Correa.
O pacote envolve o G1.
Se no G1 uma tarja encabeça as matérias com a inscrição “Especial Publicitário”, na TV o patrocínio não está explícito. Nenhuma informação, nenhum logotipo no cantinho da tela, nem mesmo nos créditos finais.
A empresa que bancou o pacote é a CCR, citada na Lava Jato por meio de delação de Adir Assad, ‘empresário’ acusado de usar contratos fictícios firmados com empresas de fachada para direcionar dinheiro para empreiteiras pagarem propina a políticos (Assad disse que quem o aproximou da CCR foi Paulo Preto).
Além da Globo, quem tem se empenhado na divulgação da série é a InnerVoice Comunicação Essencial, especializada em desenvolvimento de conteúdo e pertencente ao Grupo Heads de publicidade. Eles negam que se trate de uma ação de branded content e sim de patrocínio.
O que o leitor pensa a respeito desse tipo de patrocínio velado associado ao jornalismo? Acredita que facilite a independência sobre um tema cujo patrocinador é diretamente interessado?
Ainda no período de apresentação da série, o repórter Vitor Ferreira declarou que o tema – mobilidade urbana – é muito importante e que precisa ser “acompanhado com lupa, pois já demos muitas notícias de casos de corrupção com essas obras que envolvem muito dinheiro público e precisamos acompanhar, sobretudo em ano eleitoral, para cobrar dos nossos candidatos”.
Bem, se é assim, será que algum episódio da série revelará que no início deste ano o Sindicato dos Metroviários informou com mais de uma semana de antecedência que a CCR venceria a licitação de concessão para operar mais duas linhas de metrô em São Paulo, além de outra que já operava e cujo contrato foi usado como base para a formulação do edital?
Algo como passar a responsabilidade de elaboração das questões de uma prova ao aluno que irá preenchê-la.
A CCR é um caso fantástico de empresa afortunada, pois ela ganha nas duas pontas: como construtora vence para fazer as obras e, espantosamente, vence também para administrar a operação dos trens.
A série que pretende “aprofundar e enriquecer o debate sobre mobilidade e infraestrutura urbana” trouxe já no primeiro episódio “os desafios da integração no transporte público (metrô, ônibus e trem)”.
No estágio mais que atrasado em que estamos, a demanda por metrô ficará evidente, certo? E quem foi o único empreiteiro entrevistado no programa? O presidente da CCR.
“O metrô é o meio de transporte urbano seguro, limpo e de qualidade consagrado internacionalmente. Mas apenas seis cidades brasileiras têm rede de metrô. Basta esse exemplo para que se torne evidente a necessidade de abrir a discussão sobre que futuro queremos construir nas concentrações urbanas brasileiras”, diz Francisco Bulhões, diretor de Comunicação e Sustentabilidade do Grupo CCR e presidente do Instituto CCR.
E quem constrói metrôs, estradas, túneis, viadutos, quem, quem? A CCR, veja você que coincidência.
Em meio a semana que temos notícia de que outros 170 jornalistas foram demitidos numa tacada só, Eurípedes Alcântara, CEO da InnerVoice, afirmou o seguinte no release de apresentação da série de reportagens: “Só o jornalismo rigoroso, independente e de qualidade é capaz de lidar com essas questões colocando o interesse maior do público em primeiro lugar”.
É muito curiosa essa afirmação vinda não da emissora jornalística, mas da empresa de propaganda cujo cliente financia o programa.
Eurípedes foi diretor da revista Veja da Editora Abril durante anos, a mesma Abril que demitiu os 170 jornalistas enquanto ele agora produz conteúdo pago e enaltece “jornalismo independente”.
A Globo não deixar esses aspectos transparentes já é uma tradição. É o que se pode verificar na campanha “Agro é Pop, Agro é Tech, Agro é tudo”, na qual não se sabe exatamente qual a mensagem, o que está sendo ‘vendido’ e, sobretudo, quem está pagando por aquilo (é a bancada ruralista, caro leitor, que carrega consigo grandes empresas anunciantes e que, não coincidentemente, aprovou sem grandes dificuldades a lei que afrouxa o uso de agrotóxicos).
A publicidade não é, evidentemente, um mal em si, mas a linha que separa o que é informação jornalística, o que é conteúdo pago, o que é publicidade, não pode ser tênue a ponto de ficar invisível.

DCM

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