
Entre a nostalgia e a dura realidade
por Luis Felipe Miguel
Pior agora é ver as declarações fingidas, os responsáveis pela tragédia fingindo que não tem nada a ver com eles. Ou imbecis, como o prefeito do Rio de Janeiro, que nunca deve ter entrado em um museu em toda a vida, que é incapaz de entender o que é ciência e pesquisa, dizendo que basta passar uma mão de tinta e restaurar o prédio como "lembrança da família imperial".
Museus, é bom deixar claro, são pelo mundo todo uma responsabilidade do Estado. Seus acervos, que vão muito além daquilo que é cotidianamente exposto ao público, exigem guardo e manutenção custosos. Para que cumpram sua função cultural, devem cobrar ingressos relativamente baratos. A conta não fecha, exceto se há aporte de recursos públicos. Um museu é um perfeito exemplo de algo que não se sustenta por mecanismos de mercado - como uma orquestra sinfônica ou um instituto dedicado à pesquisa científica de base. Ultraliberais desvairados falam em simplesmente fechar estas instituições: se não se sustentam pelo mercado, não devem existir. Outros gostam de exaltar o mecenato privado, mas o fato é que, além de estar em geral mais voltada às estratégias de relações públicas do que ao interesse intrínseco daquilo que apoia, a filantropia não sustenta museus, orquestras ou pesquisa de base, no máximo complementa (e em geral o Estado devolve grande parte por meio de abatimento fiscal).
Em suma: o mercadista que lamenta o incêndio do Museu Nacional é hipócrita. Museu exige valorização da cultura, incentivo à ciência e projeto nacional. O que o mercado sustenta é shopping center e templo.
O descaso com o Museu Nacional não vem de hoje, nem pode ser atribuído só ao governo golpista. Mas é claro que o congelamento dos gastos públicos foi a gota que faltava, fazendo a situação passar de precária para totalmente insustentável.
Impedir que tragédias assim se repitam é uma tarefa que não será cumprida por nossa burguesia ou nossa elite política. Elas são incrivelmente tacanhas e se, por algum acaso, há alguém que se interesse por museus, estará feliz frequentando-os em Paris ou Nova Iorque.
GGN
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