“Garantir o segundo turno é o desafio dos próximos dias. Mas em nossa bolha, não enxergamos o lado de lá. Nunca pensei que estaria torcendo tanto pelo Ciro”


Por Roberto Andrés
Tenho tentado reverter votos do ex-capitão, conversando com as pessoas. Cito indícios de corrupção, enriquecimento familiar, descontrole. Argumento que ele é despreparado, nunca fez nada, que sua violência é ofensiva e preconceituosa.

Com alguns não funciona, tudo que eu estou dizendo é mentira inventada pela mídia. Aí não adianta mostrar os links – é tudo invenção dessa mídia suja, petista (inclusive a revista Veja). Outros até titubeam, mas recorrem sempre à mesma muleta: o petê é pior. Tento argumentar que não é, mas aí acabou: me torno o petista da situação, mesmo explicando que meu voto é de outro partido.

* * *

Quando estamos na nossa bolha não enxergamos o lado de lá. Muita gente exultante com o crescimento da candidatura de Haddad tem dificuldade em ver que esse crescimento alimentou uma reação forte do outro lado, que acabou virando uma onda pró-Bolsonaro.

Reação alimentada por fake news (o PT vai confiscar bens, Haddad disse que aos cinco anos as crianças viram propriedade do Estado), mas também pela indignação com a corrupção, com a crise econômica que se iniciou em 2014, e principalmente por declarações recentes do partido sobre a Venezuela, por Dirceu falando em tomar o poder.

Para essas pessoas, não adianta argumentar que, mesmo concordando com as críticas, nada se compara ao grotesco que seria (será?) um governo Bolsonaro. O saldo é que um defensor de torturadores e ditaduras, corrupto, que nunca trabalhou e não tem nenhuma proposta viável para o país ganhou de bandeja a metade do eleitorado que, por razões justas ou não, rejeita o PT.

* * *

Falo então de Marina ou Ciro, o que em alguns momentos oferece uma linha de fuga para a conversa. Falo de suas propostas, de suas experiências, de não estarem envolvidos em casos de corrupção.

Marina é muitas vezes descartada, por “ser fraca” (tem algo de misógino aí, mas não só), ainda mais agora que derreteu eleitoralmente. Ciro costuma gerar alguma atenção. O fato de ter se mantido bem posicionado nas pesquisas, apesar da pouca estrutura, permite que ele seja considerado.

É visto como “de fora” do sistema e parece que conseguiu gerar empatia com as pessoas, com seu novo estilo soft com pitadas de destempero.

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Os números do Datafolha de ontem são muito preocupantes. A onda Bolsonaro pode ser similar à que permitiu a Dória vencer no primeiro turno em 2016.

Conter essa onda e garantir o segundo turno é o desafio dos próximos dias. Para ter segundo turno, basta que um candidato não tenha mais de 50% dos votos válidos. Se esses outros votos estão pulverizados ou concentrados no segundo lugar, tanto faz.

Ajudaria muito se uma outra onda, o #TsunamiCiro, extravasasse as redes e pudesse oferecer substrato para essa disputa. Para que as pessoas saiam da chantagem amarelo x vermelho que dominou a cena. Para que consigamos, conversando com as pessoas na rua ou com os familiares nos grupos de whatsapp, oferecer uma alternativa que não seja rejeitada de cara.

Nunca pensei que eu estaria torcendo tanto pelo Ciro Gomes


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