Michel e mais três centenas de parlamentares podem estar se preparando para ir para o outro lado da lua, mas até lá ainda têm a caneta e o voto, e vão usá-los em toda a plenitude...




O presidente da República, sua filha e seu amigo mais chegado foram indiciados por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa, e essa informação não ocupou a manchete de nenhum dos grandes jornais. Rei morto, rei posto, e todas as atenções estão focadas no poder futuro, ao menos na expectativa de poder futuro. Faz tempo que Michel Temer é um “lame duck”, aquele político que está saindo do poder e cumprindo tabela até o fim do mandato, que os americanos chamam de pato manco.

É um engano, porém, não ficar de olho em Temer e nos que o cercam nesse apagar das luzes do atual governo. Sobretudo porque cerca de metade do Congresso está em sua situação, ou seja, não se reeleger vai fazer de tudo, tudo mesmo, para garantir as melhores condições possíveis na volta para casa.
Ministro Roberto Barroso, do STF

Michel Temer não deverá ser preso, nem afastado, até 1 de janeiro, quando entrega o cargo ao sucessor. O mais provável é que Policia Federal, PGR e STF continuem dosando os prazos do inquérito e da denúncia por mais dois meses, quando menos para evitar um abalo maior na instituição da presidência da República. Há também o detalhe de que o inquérito entregue ontem ao STF, e imediatamente remetido à PGR, trata da edição de um decreto de 2017 na área de portos, mas aponta sobretudo para supostos crimes cometidos antes disso, e portanto antes de Temer assumir a presidência. Em tese, só pode responder por eles quando sair do cargo.

E aí é que está. Nesses dois meses, Temer e os deputados e senadores que não lograram se reeleger terão tempo suficiente para mudar a legislação e amenizar a situação para eles próprios. Por exemplo, mudando o instituto da prerrogativa de foro para ex-presidentes da República – o que poderia ter até o apoio do PT porque beneficiaria também Lula.

Os exageros da Lava Jato, que voltaram à cena inclusive durante a campanha em ações de juízes e procuradores com claro viés eleitoral, podem servir agora de justificativa suprapartidária para aprovação de leis restringindo a delação premiada e outros instrumentos.

Resumo da ópera: Michel e mais três centenas de parlamentares podem estar se preparando para ir para o outro lado da lua, mas até lá ainda têm a caneta e o voto. E vão usá-los em plenitude enquanto todo mundo está distraído olhando para o futuro.


Os Divergentes

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