Bárbaros com títulos universitários ou não. Mentira e ódio triunfaram. Decretou-se a morte do mito do “homem cordial"


O livro foi derrotado pela arma
por Vinícius Canhoto


Escrevo consciente da total falta de poder das palavras e distante da mitologia, legada pelos séculos iluministas, que falavam do poder de transformação pela educação e a arte. Victor Hugo escreveu em algum lugar: “Quer civilizar um homem, comece pela avó dele”. Uma visão um tanto ingênua e progressista, própria da época, porque desconsidera possíveis regressões que podem ocorrer ao longo das gerações.


É inegável a vitória do Brasil inculto e iletrado, o verdadeiro Brasil: violento.

Bárbaros com títulos universitários ou não. A mentira e o ódio triunfaram. Esta eleição decreta a morte do mito do “homem cordial”, “do brasileiro alegre, hospitaleiro e de bom coração”. As violências que daqui por diante virão, serão legitimadas pela maioria do voto popular.

Esta é a vitória da Casa Grande, da classe média moralista, da covardia dos católicos e da ignorância dos evangélicos. Vitória da elite branca, dos negros de alma branca, das mulheres machistas e dos gays homofóbicos. Vitória da tecnologia da manipulação e da desinformação; da imprensa colaboracionista. Vitória da mentira e vitória do ódio: de classe, de gênero, de cor.

É o fim do mito de Machado de Assis: o verdadeiro Brasil não é bom e agora revela seus piores instintos. O país oficial, caricato e burlesco, venceu: de Temer a Moro, da família Marinho ao Edir Macedo, da FEBRABAN à FIESP, do STF aos generais.

Em toda parte se podia ouvir o som de rojões como se os brasileiros comemorassem mais uma Copa do Mundo. Em breve os sons não serão mais de rojões, mas de tiros. Sim, no país dos analfabetos e dos analfabetos funcionais, dos sofistas e dos rábulas, o livro foi derrotado pela arma.

Vinícius Canhoto é escritor e doutorando em Filosofia pela Unifesp.



GGN

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