Alan Santos/PR

Com a Venezuela suspensa, o Brasil confessando interesse em acordos bilaterais e a Argentina mergulhada em crise, como fica o Mercado Comum do Sul (Mercosul)? A Sputnik Brasil vai resgatar o histórico e as funções do mais importante bloco da América do Sul para traçar um panorama e tentar prever o futuro do Mercosul.



O que é o Mercosul?


O Mercosul é um bloco regional de integração fundado por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai em 1991. A Bolívia é um membro associado e está buscando um lugar na associação. Já a Venezuela chegou a entrar, mas posteriormente foi suspensa.

Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Peru e Suriname são Estados associados do Mercosul.

Os países membros do Mercosul adotam uma tabela conjunta de impostos de importação, é a tarifa externa comum, que pode variar de 2% a 20%. Os itens cobertos — e também as exceções à regra —, podem ser consultados no site do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços. Há padrões para a tarifação de commodities até antiguidades e instrumentos musicais.

O Mercosul estabelece a liberdade de viagem. Os turistas dos países membros do bloco podem viajar apenas com cédula de identidade, sem a necessidade de passaporte ou visto.

O bloco também mantém o Parlamento do Mercosul, conhecido como Parlasur. O órgão foi criado em 2006 e é formado por 133 parlamentares. A divisão de cadeiras por país é a seguinte: Argentina (42), Brasil (37), Uruguai (18), Paraguai (18) e Venezuela (18).

Os representantes brasileiros são deputados federais e senadores. Suas decisões não são vinculantes, ou seja, sua aplicação não é obrigatória. A sede do Parlasur fica em Montevidéu, Uruguai, e em 2017 o orçamento da Casa foi de US$ 2,69 milhões.

'De janeiro a novembro deste ano, o Brasil exportou US$ 19,76 bilhões para o Mercosul. No mesmo período, as importações ficaram US$ 12,22 bilhões — e, portanto, foi registrado superávit de US$ 7,5 bilhões. Os três itens mais exportados pelo Brasil foram: automóveis de passageiros (20%), veículos de carga (6,1%) e óleos brutos de petróleo (6,1%). Já os três itens mais importados foram: veículos de carga (18%), automóveis de passageiros (15%) e trigo em grãos (10%).

Nos últimos 10 anos, o Brasil teve superávit de US$ 87,6 bilhões com o Mercosul. A cifra é maior do que o superávit alcançado com parceiros comerciais importantes como China (US$ 74,1 bilhões) e União Europeia (US$ 22,4 bilhões).

Quais são os acordos do Mercosul?


O Mercosul tem 4 acordos vigentes de cooperação comercial e eliminação de tarifas com três países e um bloco: Egito, Israel, Índia e União Aduaneira da África Austral (África do Sul, Botsuana, Lesoto, Namíbia e Suazilândia).

Um acordo com a Palestina está em processo de ratificação.

Já o possível acordo entre Mercosul e a União Europeia é discutido há mais de duas décadas e ganhou recentemente novos capítulos.

Primeiro, o presidente francês, Emmanuel Macron, condicionou a parceria entre os blocos europeu e latino ao Acordo de Paris.

"Mercosul, nós não podemos pedir aos agricultores e aos trabalhadores franceses que mudem seus hábitos de produção para lidar com a transição ecológica e, em seguida, assinar acordos comerciais com países que não fazem o mesmo. Queremos acordos equilibrados", escreveu Macron em seu Twitter.

O presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro (PSL), é um crítico das ações globais para deter a mudança climática. Ele prometeu durante a campanha retirar o Brasil do Acordo de Paris, mas recuou.

Depois de Macron, foi a vez da chanceler alemã, Angela Merkel, fazer uma previsão não otimista:

"O tempo para um acordo entre a União Europeia e Mercosul está se esgotando. O acordo deve acontecer muito rapidamente, pois, do contrário, não será tão fácil alcançá-lo com o novo governo do Brasil."

Além das negociações com a UE, o Mercosul também busca acordo com os seguintes países: Canadá, Singapura e Associação Europeia de Livre Comércio, bloco formado por Suíça, Liechtenstein, Noruega e Islândia.

Qual é o futuro do Mercosul?


Seja qual for o caminho adotado pelo mais importante acordo comercial da América do Sul, dois atores serão chave: Argentina e Brasil, as maiores economias da região.

E Brasília e Buenos Aires parecem ter planos diferentes. Bolsonaro chegou a criticar o Mercosul pelo seu suposto "viés ideológico". Já o presidente da Argentina, Mauricio Macri, afirmou na última reunião do bloco o "compromisso absoluto da Argentina com o Mercosul".

A professora da Unesp e estudiosa da política externa da América Latina Karina Mariano acredita que o Mercosul irá se manter em seus pontos comerciais, mas sua atuação como mediador político em negociações internacionais deve perder força. Ela também pontua que o bloco hoje é mais importante para Buenos Aires do que para o Brasil:

"Para a Argentina, o Mercosul é estratégico. Talvez a Argentina dependa muito mais do Mercosul do que o Brasil, não só no aspecto comercial, mas também no aspecto político, porque ela vem de uma crise econômica e política muito mais longa que o nossa, até por questão de mercado e tamanho da economia. Ao mesmo tempo, a gente percebe que a Argentina já vem implementando acordos bilaterais, isso vem desde o governo [Néstor] Kirchner, hoje você tem uma aproximação forte da Argentina com a China."

O presidente da Associação do Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, acredita que o Brasil deve lutar para manter o Mercosul porque o bloco é importante para as exportações de manufaturados — e assim ajuda a diminuir a dependência da economia brasileira das commodities.

"O Brasil sempre teve uma posição favorável no Mercosul, sempre tivemos superávit comercial com Argentina, Uruguai e Paraguai. O Brasil é o país que mais se beneficia do Mercosul, fica estranho imaginar fazer qualquer coisa diferente de preservar o Mercosul".




Sputnik Brasil

Comentário(s)

-Os comentários reproduzidos não refletem necessariamente a linha editorial do blog
-São impublicáveis acusações de carácter criminal, insultos, linguagem grosseira ou difamatória, violações da vida privada, incitações ao ódio ou à violência, ou que preconizem violações dos direitos humanos;
-São intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença;
-É inaceitável conteúdo comercial, publicitário (Compre Bicicletas ZZZ), partidário ou propagandístico (Vota Partido XXX!);
-Os comentários não podem incluir moradas, endereços de e-mail ou números de telefone;
-Não são permitidos comentários repetidos, quer estes sejam escritos no mesmo artigo ou em artigos diferentes;
-Os comentários devem visar o tema do artigo em que são submetidos. Os comentários “fora de tópico” não serão publicados;

Postagem Anterior Próxima Postagem

ads

ads