“Políticos são como mágicos, acenando com as mãos, fingindo que o truque está acontecendo em outro lugar. Enquanto isso, eles nos distraem, escondendo aquilo que está acontecendo diante de nossos olhos.” Essa é a conclusão de “Fake News Fairytale” (2018), um curta sobre como se articulam as noções de verdade, ficção, realidade e ilusão nas fake news, abordadas pela diretora Kate Stonehill como narrativas análogas a contos de fadas. Em um divertido documentário que simula ser um “mockumentary”, baseia-se num caso real: a repentina fama que a pequena cidade de Veles, no interior da Macedônica, ganhou como o centro da “corrida do ouro” das fake news: adolescentes que ganharam muito dinheiro com anúncios em website que publicavam notícias falsas repercutidas nas redes sociais a partir de perfis falsos. E ajudando a vitória de Trump nos EUA. Sem emprego ou futuro, jovens viram a chance de ganhar dinheiro rápido. Essa é a matéria-prima da atual ultradireita nacionalista.
Eles foram chamados de “Veles Boys”. A milhares de quilômetros de distância do cenário da disputa eleitoral à presidência dos EUA, diversos jovens de uma cidadezinha chamada Veles, no interior da Macedônia, montaram sites usando publicadores simples como o WordPress. Neles instalaram diversos de espaços para banners do Google AdSense, e passaram a publicar informações absurdas sobre eventos e políticos dos EUA. Encheram os bolsos com o dinheiro proveniente da publicidade digital – uma média de 20 mil euros por mês, no tempo que durou a campanha eleitoral norte-americana.
Essa espécie de corrida do ouro digital é o tema do curta Fake News Fairytale, um documentário híbrido - embora baseado em fatos reais, lida com a própria narrativa como um conto de fadas, destacando o protagonista como um ator que interpretaria um personagem real da pequena cidade. Um mockumentary hiper-real?
Com um olhar de humor cínico e metalinguístico, a diretora Kate Stonehill conseguiu transformar num conto de fadas pós-moderno a reportagem que ela tinha terminado de ler na revista Wired: como é possível adolescentes do interior da Macedônia, disparando bizarros clikbaits, tiveram a possibilidade de interferir na cena política de uma nação do outro lado do planeta.
Filmado simultaneamente com câmeras VHS, Super 8 e dispositivos digitais, Fake News Fairytale cria uma ambiguidade proposital sobre a autoria do filme – parece ser um mix de takes caseiros dos próprios adolescentes macedônios, imagens de produtores locais e planos da própria diretora. A narração voz over em macedônio acentua ainda mais a ambiguidade.

O Curta
Fake News Fairytale abre com uma epígrafe de um aforismo de Donald Trump: “Isso não é reality show. Isso é a realidade”. Sob uma trilha de contos de fadas, vemos adolescentes andando pela cidade com máscaras de Trump, Obama, Hillary Clinton e outros personagens da política dos EUA.
“Era uma vez uma cidade chamada Veles, no coração da Macedônia...”, começa o curta como uma típica narrativa de contos de fadas. Ficamos sabendo que Veles no passado era um centro comercial e industrial, além de eixo de conexões ferroviárias e por estradas entre Europa, Oriente Médio e Norte da África.
Mas isso foi na antiga Iugoslávia. Depois que o país caiu em pedaços com o fim do comunismo, fábricas fecharam e os empregos acabaram. E as novas gerações se viram sem futuro ou alternativas.
O curta então acompanha a história de Sashko – “como isso é um conto de fadas, Sashko é interpretado por um ator”, diz ironicamente o narrador macedônio.
Então, Sashko ouviu rumores que repercutiam em toda a pequena cidade: pessoas estavam ganhando muito dinheiro com websites. Como? Virando as noites publicando notícias. “Tenho muitos clientes que estão fazendo isso!”, exclama o barbeiro de Sashko.
Então, nosso herói começa a fazer pesquisas no Google sobre como atrair visitantes a um website e assistir vídeos e tutoriais como criar manchetes sedutoras para atrair mais clicks. Sashko aprende rápido: publica manchetes sobre como a trilha de milhões de dólares de grupos terroristas vão direto para Obama; ou como terroristas estão se infiltrando na Europa no meio dos refugiados.
Através do famoso “Control+C e Control+V” começa a colar os “contos de fadas” dos sites de notícias conservadores em seu próprio website com manchetes bem atraentes e sensacionalistas – é interessante a aproximação que o curta faz entre Fake News, contos de fadas e as notícias.

Junto com seus amigos, Sashko cria centenas de perfis falsos no Facebook para “partilhar seus contos de fadas”.
Se Veles foi um dia um eixo comercial e industrial, hoje se tornou o eixo da disseminação de “contos de fadas”, descreve o narrador. O ponto alto do curta é quando Sashko e seus amigos celebram em casas noturnas o dinheiro ganho com os anúncios em suas publicações: vemos vários adolescentes dançando com máscaras de Trump, Hillary, Obama etc.
Vibram com a possibilidade de ganharem muito dinheiro no anonimato... só que não! Até a vida de Sashko se tornar um inferno, perseguido por repórteres. Veles transforma-se no centro do mundo nos noticiários norte-americanos sobre as Fake News.
“Era uma vez uma cidade chamada Veles, no coração da Macedônia...”, começa o curta como uma típica narrativa de contos de fadas. Ficamos sabendo que Veles no passado era um centro comercial e industrial, além de eixo de conexões ferroviárias e por estradas entre Europa, Oriente Médio e Norte da África.
Mas isso foi na antiga Iugoslávia. Depois que o país caiu em pedaços com o fim do comunismo, fábricas fecharam e os empregos acabaram. E as novas gerações se viram sem futuro ou alternativas.
O curta então acompanha a história de Sashko – “como isso é um conto de fadas, Sashko é interpretado por um ator”, diz ironicamente o narrador macedônio.
Então, Sashko ouviu rumores que repercutiam em toda a pequena cidade: pessoas estavam ganhando muito dinheiro com websites. Como? Virando as noites publicando notícias. “Tenho muitos clientes que estão fazendo isso!”, exclama o barbeiro de Sashko.
Então, nosso herói começa a fazer pesquisas no Google sobre como atrair visitantes a um website e assistir vídeos e tutoriais como criar manchetes sedutoras para atrair mais clicks. Sashko aprende rápido: publica manchetes sobre como a trilha de milhões de dólares de grupos terroristas vão direto para Obama; ou como terroristas estão se infiltrando na Europa no meio dos refugiados.
Através do famoso “Control+C e Control+V” começa a colar os “contos de fadas” dos sites de notícias conservadores em seu próprio website com manchetes bem atraentes e sensacionalistas – é interessante a aproximação que o curta faz entre Fake News, contos de fadas e as notícias.

Junto com seus amigos, Sashko cria centenas de perfis falsos no Facebook para “partilhar seus contos de fadas”.
Se Veles foi um dia um eixo comercial e industrial, hoje se tornou o eixo da disseminação de “contos de fadas”, descreve o narrador. O ponto alto do curta é quando Sashko e seus amigos celebram em casas noturnas o dinheiro ganho com os anúncios em suas publicações: vemos vários adolescentes dançando com máscaras de Trump, Hillary, Obama etc.
Vibram com a possibilidade de ganharem muito dinheiro no anonimato... só que não! Até a vida de Sashko se tornar um inferno, perseguido por repórteres. Veles transforma-se no centro do mundo nos noticiários norte-americanos sobre as Fake News.
A matéria-prima da ultradireita
Fake News Fairytale suscita uma série de questões. Mas a principal certamente é a questão da relação intrínseca entre a chamada alt-right (a “direita alternativa”) e a Internet e redes sociais – as tecnologias de convergência.
O curta nos mostra como a própria Globalização pariu a ultradireita nacionalista que tem a própria Globalização como seu principal rival – afinal, tudo seria uma conspiração do “marxismo cultural”.
Em todo o mundo capitalista, a Globalização criou uma imensa desigualdade com a desindustrialização e a financeirização (turbinado pela chamada Revolução Industrial 4.0 – inteligência artificial, nanotecnologia, informatização etc.), cujo efeito dramático foi crescimento de um refugo social: os “excluídos”, aqueles que não servem nem mais para ser explorados - desempregados (jovens), aposentados, refugiados, incapacitados, idosos etc.
Ressentidos e revoltados, tornam-se matéria-prima fácil para esse tipo de trabalho ao estilo “ganhe dinheiro sem sair de casa”. Sem futuro ou perspectivas, veem nas Fake News a forma de canalizar raiva e ódio.
Ou simplesmente, exercer a amoralidade, como mostra o curta. Diante inesperada fama internacional ganha pela cidadezinha de Veles, Sashko não se sente responsável em ajudar a vitória de Trump. Afinal, foi tudo por dinheiro, numa pequena cidade perdida no interior da Macedônia, sem empregos ou futuro.
O curta termina como uma questão: quem é o culpado por toda essa falsidade? São os trapaceiros ou aqueles que foram trapaceados?
Ficha Técnica
Título: Fake News Fairytale
Diretor: Kate Stonehill
Roteiro: Kate Stonehill
Elenco: Moradores locais
Produção: Kate Stonehill, Samir Ljuma, Jimmy Campbell Smith
Distribuição: Vimeo
Ano: 2018
País: Reino Unido
Cinema Secreto: Cinegnose

Postar um comentário
-Os comentários reproduzidos não refletem necessariamente a linha editorial do blog
-São impublicáveis acusações de carácter criminal, insultos, linguagem grosseira ou difamatória, violações da vida privada, incitações ao ódio ou à violência, ou que preconizem violações dos direitos humanos;
-São intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença;
-É inaceitável conteúdo comercial, publicitário (Compre Bicicletas ZZZ), partidário ou propagandístico (Vota Partido XXX!);
-Os comentários não podem incluir moradas, endereços de e-mail ou números de telefone;
-Não são permitidos comentários repetidos, quer estes sejam escritos no mesmo artigo ou em artigos diferentes;
-Os comentários devem visar o tema do artigo em que são submetidos. Os comentários “fora de tópico” não serão publicados;