É como se a agenda anticorrupção tivesse se articulado por antecipação para substituir uma possível doença por outra doença, porém, concreta – muito mais grave e deletéria.
Por Alvaro Miranda -28/10/2019
Combate à corrupção se tornou a nova doença holandesa do Brasil
por Álvaro Miranda
Nem a clássica doença holandesa do petróleo brasileiro teve tempo de se manifestar de forma aguda como enfermidade nacional diante da captura da agenda do país pelos movimentos conhecidos como mensalão e lava-jato. E estes são escritos aqui em caixa baixa por questão de soberania cognitiva numa perspectiva de preocupação com a soberania nacional, que só é possível com projeto de nação e desenvolvimento. É como se a agenda anticorrupção tivesse se articulado por antecipação para substituir uma possível doença por outra doença, porém, concreta – muito mais grave e deletéria.
A caixa baixa é a recusa de tratar esses movimentos partidários que se fingem de jurídicos como supostas instituições republicanas na linha pretendida por seus próceres e pelos idiotas que os aplaudem. Esses novos partidos políticos são a quintessência da corrupção contemporânea, nada tendo a ver, portanto, com o moderno príncipe gramsciano, pois se apresentam com o falso moralismo do apolítico judicial, agindo, porém, como verdadeiras agremiações em defesa de interesses partidários.
Doença holandesa é quando um país fica muito dependente de apenas um tipo de recurso natural como fonte de divisas, não promovendo a diversificação e a complexidade de sua economia. O nome tem origem no fato de os Países Baixos terem descoberto uma grande quantidade de gás em seu subsolo na década de 1960 e ficado refém dessa única fonte de recursos, ou dela fazendo a principal fonte, sem ampla estruturação produtiva a partir de outros meios.
Caberia indagar se e quando o Brasil sofreu de doença holandesa em sua trajetória republicana ou se estava para sofrer no contexto da decisão de explorar o pré-sal na primeira metade da década passada. Ou se já estávamos sofrendo da referida doença com a exportação de minérios e outros produtos sem uma perspectiva de industrialização e complexidade econômica.
Ou ainda se nem teve tempo de arriscar a sofrê-la como doente em estado gravoso tamanho foi o rolo compressor do desmonte nacional com a criminalização da política promovida por esses movimentos partidários camuflados de corporações judiciais.
A indagação é pertinente se considerarmos que, muito antes dessa crise que culminou com o golpe de 2016, o Brasil registrou crescimento notável comparado a outros países do mundo. Não me refiro nem ao crescimento mais recente promovido pelos dois primeiros governos do PT, impulsionado por uma série de fatores internos e externos, dentre os quais, o preço das commodities. O que, aliás, já poderia até caracterizar sintoma de doença holandesa numa perspectiva analítica do ponto de vista econômico.
Voltemos mais atrás e joguemos luz sobre o período de 1930 a 1980, quando o país teve a maior média de crescimento econômico do planeta – vale dizer, meio século nada desprezível. E nada desprezível também comparações temporais, mesmo considerando as especificidades de formações e conjunturas. Se o Brasil hoje possui apenas uma agenda há 13 anos, qual seja, o combate à corrupção, que é o tempo do mensalão e da lavajato, a comparação chega a ser notável para nos indagar por que em 15 anos foi possível Getúlio Vargas promover amplas transformações para tirar o Brasil do jugo das oligarquias agrárias e implantar as bases da industrialização brasileira.
O que acontece ou não acontece com o avanço cognitivo e a massa crítica de um país em termos temporais? Quinze anos do passado dando uma lição de desenvolvimento a 13 anos dos dias atuais no que diz respeito à pujança e diretrizes para um projeto nacional. Depois dos 15 anos de Vargas (1930 a 1945) – e após intervalo de cinco anos – seguidos de mais quatro anos de continuidade do desenvolvimento para, enfim, o emparedamento nacional por forças retrógradas, culminando no suicídio do estadista em meio também a denúncias de corrupção.
Interpreta-se com doses altíssimas de plausibilidade que o tiro no peito de Vargas (1954) adiou em dez anos o golpe dos que sempre quiseram restringir a democracia para fins privatistas e colonizadores. Bastante sentido nessa interpretação, pois, afinal, Juscelino Kubistchek continuou o projeto de desenvolvimento, nos moldes possíveis de outra conjuntura dentro das novas configurações da expansão capitalista no mundo. Isso, graças à garantia do Marechal Lott de impedir que o governo fosse derrubado pelos golpistas.
Numa terminologia usada por Otavio Ianni em seu livro “Enigmas da Modernidade-Mundo”, o moderno príncipe gramisciano, vale dizer, o partido político, consagrado na segunda metade do século XIX, teria sucedido a figura do condottiere encarnado no príncipe de Maquiavel, que inaugurou o pensamento político moderno no século XV. Depois desses dois príncipes, segundo Ianni, o século XX assistiu ao crescimento do que ele chamou de “príncipe eletrônico”, a tal parafernália comunicacional que conhecemos no contexto do desenvolvimento das tecnologias da informação, internet e outras.
A associação entre este último príncipe e os partidos das corporações jurídicas também explica muito sobre essa avacalhação que vivemos hoje no Brasil relacionada ao retrocesso cognitivo e à gosma acrítica que não consegue separar alhos de bugalhos. Há remédios pomposos para males sem cura, tanto na farmacopeia das multinacionais, como no imaginário da sociedade.
No caso, a doença holandesa atual não é nem em relação a algo concreto tributário de seus predicados no plano econômico, mas sim um fetiche ou um mito teleguiando as disposições de eleitores e diferentes partes da sociedade. Seria a dependência de algo mistificado para supostamente explicar a realidade, apaziguar histerias e extremismos, tratar acertos como erros e justificar golpismos econômicos e políticos de falsos moralistas.
Enfim, a nova doença é tapar o sol com a peneira da grande corrupção, peneira, mesmo, no sentido seletivo do que significa corrupção, qual seja: a perpetuação dos mecanismos que reproduzem as desigualdades sociais e econômicas através do desmonte do estado nacional, a evasão de divisas, as dívidas trabalhistas e previdenciárias de empresdários, a destruição da previdência pública e a entrega dos recursos estratégicos que, ao contrário, se trabalhados e utilizados num projeto de desenvolvimento nacional, podem neutralizar a clássica doença holandesa e promover a complexidade da nossa economia.
GGN

Postar um comentário
-Os comentários reproduzidos não refletem necessariamente a linha editorial do blog
-São impublicáveis acusações de carácter criminal, insultos, linguagem grosseira ou difamatória, violações da vida privada, incitações ao ódio ou à violência, ou que preconizem violações dos direitos humanos;
-São intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença;
-É inaceitável conteúdo comercial, publicitário (Compre Bicicletas ZZZ), partidário ou propagandístico (Vota Partido XXX!);
-Os comentários não podem incluir moradas, endereços de e-mail ou números de telefone;
-Não são permitidos comentários repetidos, quer estes sejam escritos no mesmo artigo ou em artigos diferentes;
-Os comentários devem visar o tema do artigo em que são submetidos. Os comentários “fora de tópico” não serão publicados;