Rafael R. Ioris
13 de novembro de 2019


Violencia, Juan Carlos Romero, 1972, gravura (díptico), Museo de Arte Moderna de Buenos Aires (Foto: Reprodução)

Após 580 dias de prisão, Lula foi solto por decisão do STF na última sexta-feira, 8 de novembro. Em evento em São Bernado, no dia seguinte, Lula se declarou como liderança da oposição ao governo Bolsonaro e suas políticas anti-sociais e discriminatórias, dizendo que é possível governar para todos, não para as milícias do Rio de Janeiro. Manchetes de vários jornais desde então vem demarcando um aprofundamento da polarização política no país, até mesmo equiparando Lula e Bolsonaro como as principais figuras de cada polo. E ainda que se imaginando como progressistas, alguns chegaram mesmo a lamentar a soltura de Lula pois isso acirraria, de modo perigoso, a tal polarização, tomada equivocadamente como principal problema do pais.

Além de promover a imagem de uma equivalência moral entre os polos ideológicos em questão, várias vozes se levantaram para clamar um dito centro, seja ele progressista ou não. E ao aceitarmos a caracterização de que o que estaria em xeque no Brasil de hoje seria o aprofundamento de um processo de ideologização iniciado há alguns anos, compramos as absurdas teses de que 1) Lula e Bolsonaro são figuras que representam antípodas equivalentes, portanto de similar valor (ou ameaça); 2) a agenda do governo Bolsonaro está certa, o problema seria seu estilo ou as lideranças principais no comando do processo de sua implementação.

E mesmo que, no mais das vezes, não enunciadas de forma tão clara, o fato de que a grande mídia e vários partidos e lideranças da direita (que se quer centro-direita) vem há tempos se apresentando como alternativas mais sutis e portanto palatáveis para livrar o país dos excessos (mas não do conteúdo) do Liberal-Bolsonarismo em implementação, e, especialmente, do radicalismo, ainda mais perigoso, do Lula-petismo, agora renovado pelo retorno do grande líder ao seus irracionais apoiadores das massas populares.

Dentro dessa narrativa, repetida cada vez de forma mais alta, a alternativa aos cidadãos de bem estaria muito clara. Trata-se, mais do que nunca, da promoção de um novo ator capaz de trazer o país ao bom senso do centro, de preferência, mantendo a agenda pró-capital e anti-popular em curso ao longo dos últimos cinco anos, mas por meio de uma imagem menos rancorosa e midiaticamente construída da eficiência e do bom moço. E ainda que o personificador real de tal discurso ainda não esteja totalmente definido, é certo que Rodrigo Maia, João Doria e especialmente o dito “não político” Luciano Huck são forte candidatos ao papel em questão.

Além de falaciosa e não ingênua, essa narrativa é acima de tudo perigosa! O que Lula representa hoje é sim um contraponto claro e forte à agenda neo-fascista hoje no poder federal e em significativas partes das instituições de governo e da opinião pública. Mas esse contraponto não é um contraponto ideológico. O que está em questão, e já desde 2015, é a defesa do estado de direito e da democracia, de um lado, e um projeto de aparelhamento do estado e de domínio do imaginário coletivo a serviço do capital e da destruição de qualquer vestígio de seguridade e bem estar social na oitava economia e quinto país mais populoso do mundo.

Além de necessária, pois justa, a libertação de Lula representa, sim, um passo decisivo na organização da oposição, ou melhor dito, da resistência ao (des)governo Bolsonaro. Mas essa oposição se constitui, acima de tudo, na tentativa de resgatar os valores democráticos em um país tomado nos últimos anos por uma narrativa seletiva (hipócrita, melhor dito!) que obscurece os verdadeiros males (exclusão, racismo) e vítimas (como sempre, os mais pobres), tornando-os, inclusive, culpados de seus problemas (votam com a barriga!); enquanto interesses oligárquicos continuam a ser promovidos (não vou pagar o pato & quero meu país de volta!).

A polarização que importa ao Brasil hoje não é a que está sendo construída entre esquerda e direita, nem é do interesse maior que compremos o dito centro (de fato não existente) como redenção de nosso males. O que, mais que tudo, precisamos reconstruir são os valores e as instituições da democracia. Isso passa pelo repúdio do discurso do ódio e da narrativa (ditatorial, miliciana) da mano dura como solução e pela defesa da imparcialidade da atuação das instituições da justiça e do papel do Estado como promotor do bem estar social em uma das sociedades mais injustas e desiguais do planeta.

Lula é um liderança popular orgânica que nunca traiu os valores de democracia. Bolsonaro é um congressista medíocre que se fez na defesa da ditadura e que agora implementa uma agenda neoliberal obscurantista e truculenta. Não há equiparação! E o centro (neo)liberal promovido pela mídia é simplesmente a mais nova versão que vem sendo perseguido nos últimos anos. Sim, as forças verdadeiramente progressistas, todas, tem que estar juntas na reconstrução da democracia. Mas não entremos na falácia da vez!

RAFAEL R. IORIS é professor da Universidade de Denver

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