Para parlamentares da oposição ouvidos pela ‘RBA’, a situação do ministro da Economia no governo é delicada, inclusive porque as reformas que ele propõe encontram resistências

Por Eduardo Maretti, da RBA

Freixo, Verri e Delgado: Paulo Guedes se mostra despreparado para enfrentar crise e aprovar as próprias reformas

São Paulo – A insatisfação do Congresso Nacional com o ministro da Fazenda, Paulo Guedes, mas também com o presidente da República, Jair Bolsonaro, é visível. Parlamentares de diversas tendências políticas estão muito insatisfeitos com a falta de resposta de Guedes à crise econômica e aos efeitos do coronavírus, que exigem medidas emergenciais para garantir a atividade econômica no período difícil que se aproxima, mas principalmente garantir minimamente condições de ação do Estado na assistência à população. Contra Bolsonaro, pesa seu apoio às manifestações que estavam programadas para o domingo (15), mas foram canceladas.

A situação emergencial em função do covid-19 é a prioridade absoluta dos parlamentares, mas até o momento não houve respostas concretas do governo e de Guedes, que se limitou a dizer que vai liberar saques do FGTS, antecipar 13° salário de aposentados e pensionistas e outras medidas paliativas. Ele promete novas iniciativas nos próximos dias.

O clima entre parlamentares em Brasília é de apreensão. Nesta sexta-feira (13), circulou um boato de que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), tinha testado positivo para o coronavírus. O deputado desmentiu mais tarde. “Se se confirmasse que Rodrigo deu positivo para coronavírus, na semana que vem não teria nada no Congresso. É tudo o que Bolsonaro quer nesse momento. Ele cancelou as manifestações porque sabia que ia ser um fracasso”, diz o deputado Júlio Delgado (PSB-MG).

O deputado Marcelo Freixo (Psol-RJ) observa que o “governo se mostra completamente despreparado” diante de uma crise grave e inesperada, que implica problema econômico, político e social “profundo e mundial”. “Com esse quadro, Paulo Guedes vai ao Congresso com a proposta de reduzir ainda mais o Estado. O grande problema – aponta – da crise que vamos viver, inevitavelmente, infelizmente, é que hoje nossa rede de proteção social está esfacelada.”

“Da parte de quem o defendia e o apoiou, sabem que a reforma tributária vai emperrar quando chegar na disputa dos estados. Sabem que a administrativa, pelo potencial impopular, é impossível neste ano, e ele coloca essa como uma solução para o país sair da crise, saída essa que não vai acontecer”, afirma Delgado. “Talvez ele comece a justificar uma saída honrosa. Sabendo das dificuldades para a implementação de suas reformas, acho que ele vai começar a arrumar uma desculpa para sair.”

Para o deputado Enio Verri (PT-PR), líder do PT na Câmara, o destino do ministro da Economia pode ser definido pelo próprio estilo do presidente da República. “Bolsonaro terá que sacrificar alguém a quem possa culpar, porque nunca ele é o culpado. Acredito que, para o bem do Brasil, Bolsonaro deve colocar o Paulo Guedes para fora.”

Verri observa que, na mesma quarta-feira (11) em que o governo foi derrotado na derrubada do veto presidencial contra o aumento de recursos do Benefício de Prestação Continuada (BPC), o ministro da Economia chamou uma reunião da qual participaram, entre outros, os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, e inúmeros parlamentares.

Enquanto os congressistas esperavam, no mínimo, alguma sinalização de enfrentamento da crise e à pandemia, com investimento no SUS e leitos de UTI e outras medidas, o ministro da Economia defendeu as reformas. Mais do que isso, criticou o Congresso por ter votado a quebra do veto na questão do BPC. Os parlamentares ficaram muito irritados. 

Os relatos, divulgados pela imprensa, foram de que muitos parlamentares abandonaram a reunião. “Eu diria que Guedes está bastante fragilizado no Congresso”, diz Verri.

A irritação não exclui o presidente da Câmara. “A crise é tão grande que a gente não tem direito nem de imaginar que o ministro da Economia de uma das maiores economias do mundo, o com mais poder desde a redemocratização, possa ter pensado de forma tão medíocre”, disse Maia em entrevista à Folha de São Paulo nesta sexta (13).

Ele acrescentou: “Não posso imaginar que, numa crise desse tamanho, o ministro tenha encaminhado uma lista de 19 projetos para transferir a responsabilidade para nós.”

Segundo a avaliação de Freixo há “um sentimento forte, hegemônico, no Congresso”, em relação a Guedes. “E a Bolsonaro, que estimula um ato pelo fechamento do Congresso. Nunca teve um governo com tanta inabilidade no relacionamento com outros poderes.”

Na opinião de Delgado, o momento é de “grande frustração e decepção em boa parte da direita e do Centrão, que apostavam nas reformas, porque Guedes prometeu achar o pote e a galinha dos ovos de ouro e perdeu até os ovos”.

Que reformas?

Para o analista Antônio Augusto de Queiroz, do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), a permanência de Guedes depende dos resultados que ele apresentar.

Mas os resultados esperados pelo mercado, após a aprovação da reforma da Previdência, estão distantes, no momento. O ministro estará “numa situação de risco” se não apresentar o que se espera dele rapidamente. “Porque ele se desgasta com o Congresso, consequentemente perde legitimidade perante o mercado e perante o presidente também.”

Os presidentes da Câmara e do Senado estão irritados também porque o ministro da Economia não consegue do governo o encaminhamento de propostas, como a reforma administrativa, que sequer foi encaminhada ao Congresso. “E depois ele ainda cobra resultados que o Congresso não pode dar, se as propostas não chegam”, destaca o cientista político do Diap.

Em sua análise, a reforma administrativa é muito difícil de ser aprovada este ano, “até porque nem foi encaminhada”, enquanto a chamada PEC Emergencial pode sair, mas com algumas mudanças, especialmente em relação à redução de jornada com redução do salário. “Isso não deve prevalecer”, acredita. “E a tributária encontra enorme dificuldade.”

RBA

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