Eleições novamente adiadas, para outubro. Golpe que derrubou Evo fracassa em todos os terrenos. Direita dividi-se e MAS, partido do ex-presidente, lidera todas as pesquisas. Governo trama novo golpe, mas cresce a resistência indígena


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ESTADO EM DISPUTA
por Gerardo Szalkowicz

Multidão indígena protesta contra o governo de ultradireita e, nas ruas de La Paz, em novembro de 2019
Multidão indígena protesta contra o governo de ultradireita e, nas ruas de La Paz, em novembro de 2019

ATUALIZAÇÃOAlegando “considerações de ordem científica, legal e sociopolíca”, o Tribunal Superior Eleitoral da Bolívia” adiou nesta 5ª-feira (23/7) as eleições presidenciais da Bolívia. Porém, ao contrário do que pretendia a presidente “de fato” Jeanine Áñez , não as deixou sem data: marcou-as para 18 de outubro. O desgaste da ultradireita é vastíssimo, mas o risco de um novo golpe, real – e a possibilidade de uma rebelião popular, também. A matéria a seguir desenha o cenário.

Por Gerardo Szalkowicz, no Rebelión | Tradução: Simone Paz

Nas próximas semanas, o centro de gravidade da América Latina vai se deslocar para a Bolívia, onde a maior dúvida é saber se, finalmente, haverá eleições livres e transparentes que ajudem a recuperar a democracia que rasgada em novembro do ano passado. O Dia D será em 6 de setembro. Por enquanto. Com o partido MAS liderando em todas as pesquisas, a direita aposta mais uma vez em derrubar as peças do tabuleiro, tentando um novo adiamento ou a proscrição. É óbvio: ninguém dá um Golpe de Estado para depois devolver o poder, de forma mansa, àqueles que retirou à força.

Eles têm um bom álibi: o desastre que a pandemia vem causando. Hospitais em colapso e pessoas morrendo nas ruas são a face mais cruel de um sistema de saúde desmontado. A curva de contágio continua a crescer e, como se fosse pouco para a conturbada atualidade boliviana, a covid-19 atingiu até a presidenta, junto com mais sete ministros, seis vice-ministros, o chefe das Forças Armadas e uma dúzia de legisladores.

Das múltiplas crises que envolvem o país, a sanitária é a mais evidente. Nem a mídia, que acompanhou o curso do golpe, consegue esconder as imagens de pessoas desesperadas por não encontrar lugar para tratar seus parentes infectados ou para enterrá-los, quando morrem. Enquanto isso, o titular da pasta de Defesa, Luis Fernando López, assumiu o Ministério da Saúde — um militar sem experiência sanitária administrando uma pandemia, do mesmo jeitinho que no Brasil de Bolsonaro. As respostas oficiais vão desde chamados a orações religiosas até explicações tragicômicas, como a do ministro Arturo Murillo: “Muitas pessoas estão morrendo por simples ignorância”. O cenário só não assume uma dimensão de tragédia, porque durante o governo de Evo Morales o investimento em saúde (agora paralisado) aumentou 360%, os empregos no setor dobraram e foram construídos 1.062 estabelecimentos de saúde.

Mas não foi a emergência pandêmica que levou Jeanine Áñez, Jorge “Tuto” Quiroga e Luis Fernando Camacho a pedirem auxílio à OEA para adiar as eleições (a mesma OEA de Luis Almagro, aquela que os ajudou a dar o golpe), foi o número das pesquisas: juntando os três candidatos da ultradireita, não é possível chegar nem a 20%; e, apesar das perseguições, dos encarceramentos e exílios, o MAS aparece com altas chances de ganhar no primeiro turno, se conseguir interromper os ataques que vem sofrendo para conseguir lançar seu candidato Luis Arce. O cenário eleitoral se completa com o ex-presidente liberal Carlos Mesa, que pretende chegar na votação apoiado pela classe média de La Paz (nas fracassadas eleições de outubro passado, ele ficou 10,3 pontos abaixo de Evo Morales) e que, por enquanto, ainda não aceitou se aliar aos setores mais extremos da oligarquia de Santa Cruz.

É que a insatisfação com a gestão de Áñez e seu grupo é cada vez maior. Por causa das inúmeras denúncias de corrupção — como a compra milionária de suprimentos médicos e respiradores superfaturados — mas, principalmente, por deixarem a população completamente desamparada diante do terrível impacto econômico do coronavírus. Em um país com 70% de emprego informal e após uma enxurrada de demissões, o desemprego subiu para 8,1%, quase o dobro do que Evo Morales deixou quando a Bolívia tinha o número mais baixo da América Latina.

É por essas e outras que Luis Arce vem ganhando força. Além de ter um perfil “moderado”, foi Ministro de Economia durante quase todo o governo de Evo. Quem melhor para dirigir a crise pós-pandêmica do que aquele que era o mentor de um modelo irrefutável de recuperação e de estabilidade econômica?

Se existe uma palavra para definir  o futuro desta história, é incerteza. Tudo pode acontecer nos próximos movimentos. A direita boliviana, desde sempre guiada pelo Norte, aposta novamente em derrubar o tabuleiro. O MAS denunciou que “foi lançada uma campanha para pressionar o TSE com o objetivo de cancelar nosso status legal”.

Eles também se declararam “em estado de emergência, diante dessa nova tentativa de proibir nossos candidatos”. Os movimentos sociais e sindicais já estão nas ruas para impedi-la. Após uma grande demonstração de forças em todo o país na última terça-feira, o secretário executivo da Central Operária Boliviana, Juan Carlos Huarachi, alertou: “Os trabalhadores vão garantir a realização das eleições no dia 6 de setembro. Nós vamos defender a democracia ”.

É disso que se trata a próxima batalha da Bolívia: recuperar a democracia perdida.

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