À primeira onda de ameaças às eleições, Jair Bolsonaro insinuou recuar, marcando o tal “encontro entre os 3 Poderes” que acabou não se realizando pela suposta crise intestinal que o levou, às pressas, a uma internação de emergência e aquela tenebrosa apelação da foto “moribunda” , substituída, poucos dias depois, pela imagem máscula do desfile de motos pesadas.
Agora, porém, com a live de quinta-feira à noite e a nova saraivada de bravatas disparadas hoje, com as mensagens para suas manifestações “meia-boca”, tudo indica que Jair Bolsonaro não contará com reações tão lenientes quanto as que teve da outra vez.
Até o insosso Luiz Fux, antecipa Luís Nassif, no GGN, ensaia uma reação forte.
Não é para menos, porque Bolsonaro chegou ao limite da explicitude goslpista:
“Vocês estão aí, além de clamar pela garantia da nossa liberdade, buscando uma maneira que tenhamos uma eleições limpas e democráticas no ano que vem. Sem eleições limpas e democráticas, não haverá eleição (…)Nós mais que exigimos, podem ter certeza, juntos porque vocês são de fato meu Exército —o nosso Exército— que a vontade popular seja expressada na contagem pública dos votos”.
É verdade que reforçou seu cacife como “Rei da Direita”, posição que retém, incontestável. Os atos que promoveu nem de longe poderiam ser realizados pelos que lhe disputam o lugar com o apelido de “Terceira Via” ansiando por recolher os despojos de um bolsonarismo agonizante.
Ao mesmo tempo, porém, empurra-os para que, diante da própria incapacidade de alavancarem suas candidaturas no campo conservador ainda controlado por Bolsonaro, comecem a perder sustentação política pela perda de suas bases eleitorais para ele e, também, para o polo nítido que se forma em torno de Lula.
Este, talvez, seja o grande erro – além, claro, do crime de golpismo – que Jair Bolsonaro esteja cometendo.
Ao fazer da mudança do sistema eleitoral uma exigência para haver eleições, sob o “argumento” de que, do contrário, Lula vencerá, ele tente a transformar todo a rejeição que acumula em, cada vez mais, votos para Lula.
É como se dissesse: quem é contra Lula é Bolsonaro, o que, na reciprocidade, empurra ao ex-presidente o voto de quem não é Bolsonaro, de resto um personagem que não se adequa ao “tanto faz”.
O ex-capitão pôs suas tropas em marcha, com rumo definido, e não há paradas no caminho quando se inicia uma ofensiva.
A alardeada capacidade de composição política de Ciro Nogueira, na Casa Civil, foi reduzida a zero mesmo antes de sua posse, porque só lhe resta o papel de emissário do senhor das armas para propor rendição incondicional.
Nem mesmo teve tempo de costurar acordos, fazer composições, agregar aliados ou construir neutralidades.
O ex-capitão subiu ao jipe e partiu para a guerra aberta.
Bolsonaro crê que poderá fazer sua segunda campanha com os mesmos grupos de fanáticos que o cercaram na primeira, mas revela pouca compreensão de que, daquela vez, rolaram a seu lado os barulhentos tanques da mídia e os silenciosos blindados do Judiciário, com os quais não pode mais contar. Ao menos, não na sua cavalgada solitária e alucinada, carregando a bandeira do “que fique tudo como está”.

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