Por José do Vale Pinheiro Feitosa*, especial para o Viomundo
Na semana em que grandes cidades como São Paulo e o Rio de Janeiro
tiveram que suspender a imunização porque o Ministério da Saúde não
supriu os estoques de vacinas contra Covid-19, o presidente da República
adotou um novo fetiche medicamentoso e fez uma live sobre fraude eleitoral.
Jamil Chade, na sua coluna do Uol, mostra preocupações
relevantes do diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS),
Tedros Ghebreyesus, sobre a situação da epidemia num ambiente em que as
desigualdades entre as nações levam à perda dos instrumentos de controle
da Covid-19.
O diretor-geral alerta que “os ganhos obtidos ao longo de 2020 e 2021 estão sob ameaça e sendo perdidos.
Em uma semana, surgiram “4 milhões de casos novos, podendo ultrapassar a marca de 200 milhões de infectados em duas semanas.”
A própria OMS considera que a variante delta mais infecciosa já se
espalha em diversos locais e que outras variantes poderão surgir dada a
forma como a epidemia continua a se disseminar.
O exame dos dados da pandemia a partir do site
https://ourworldindata.org/covid mostra que, até agora, o centro dela é
na Europa e nas Américas.
Os óbitos variaram de 2.521,4 mortes por milhão na América do Sul a 1.514,5 mortes por milhão na Europa.
Na Ásia, onde vive 59% da população humana, a epidemia foi menor
(casos e mortes por milhão foram, respectivamente, 13.257,3 e 191,3).
Tendo uma epidemia menor, menos infectados, a Ásia estaria mais
suscetível a novas ondas de covid-19, mas tem a vantagem relativa de já
ter vacinado 55,7% de sua população.
A grande questão da humanidade continua sendo a África, onde segundo o
diretor-geral da OMS houve aumento de mortes de 80% em quatro semanas.
Acontece que a África, assim como inúmeros países em outras partes do
mundo, continua com capacidade muito baixa de realizar testes (com
taxas de apenas 2% do que os países ricos realizam), levando o diretor
da OMS a declarar: “O mundo está cego sobre onde a doença está e aonde
vai”.
A África, onde vive 17% da humanidade, poderá ser um grande problema para o futuro da pandemia.
Afinal, com baixa capacidade de realização de testes, atenção aos
doentes, epidemia em níveis relativamente mais baixos, ela tem uma
população mais suscetível a ser infectada.
Até o final de julho, apenas 5,1% da população da África havia sido vacinada.
Uma situação que, segundo a própria OMS, tende a piorar devido à natureza da pandemia de Covid-19:
— desde dezembro de 2019, o novo coronavírus se espalhou pelo mundo numa velocidade muito intensa;
— levou menos de cinco meses para atingir todos os continentes e se tornar planetário; e
— atingiu principalmente as populações mais vulneráveis do ponto de vista social, econômico e etário numa estrutura política em que governos foram omissos quanto à adoção de medidas efetivas no controle da pandemia.
A live de Bolsonaro é parte do texto não apenas por
estilo de linguagem, mas por expressar a realidade denunciada pelo
diretor-geral da OMS: “os países estão prontos mas as vacinas não chegaram.”
A quantidade de vacinas aplicadas até agora em todos os países já
teria protegido a população mundial mais vulnerável à epidemia se
tivesse sido “distribuída de forma mais justa”.
No Brasil, há uma geografia política da cobertura vacinal, atingindo
neste momento maior sucesso entre os mais aquinhoados de meios e
recursos.
E a live falava em fraude eleitoral. De um fato que pode ocorrer no futuro.
Já de dois fatos atuais que interessam a todos os brasileiros, NADA.
Me refiro à baixa cobertura vacinal da população e à disseminação da variante delta do vírus da covid-19, uma emergência epidemiológica.
*José do Vale Pinheiro Feitosa é médico sanitarista.

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