Filiação do governador de Goiás ao partido de Kassab amplia estratégia de múltiplas candidaturas à direita e sinaliza enfraquecimento do bolsonarismo

A filiação do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, ao PSD, comandado por Gilberto Kassab, adiciona uma nova camada de complexidade ao já fragmentado campo da direita brasileira na corrida presidencial. Médico, político experiente e herdeiro de uma trajetória ligada ao conservadorismo tradicional, Caiado chega ao partido com um objetivo declarado: disputar a Presidência da República e ampliar o leque de candidaturas da direita, hoje sem um nome capaz de empolgar o eleitorado ou enfrentar com solidez o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que lidera todas as pesquisas de intenção de voto. Leia em TVT News.
O movimento de Caiado ocorre em um momento estratégico. O PSD já abriga dois governadores que, ao menos formalmente, mantêm pretensões presidenciais: Eduardo Leite (Rio Grande do Sul) e Ratinho Jr. (Paraná). Ambos, no entanto, enfrentam dificuldades para ganhar tração nacional. Leite, apesar de projeção midiática e discurso liberal nos costumes e na economia, não conseguiu converter visibilidade em densidade eleitoral. Ratinho Jr., por sua vez, mantém forte liderança regional, mas ainda é pouco conhecido fora do Sul e não aparece como competitivo nos levantamentos nacionais.

É nesse vácuo que Caiado pretende se apresentar como alternativa. Ao ingressar no PSD, ele não apenas busca uma sigla com musculatura nacional e capilaridade nos estados, mas também se posiciona como um nome mais identificado com a direita tradicional, distante do bolsonarismo mais radical, mas ainda capaz de dialogar com o eleitor conservador. Em entrevistas recentes, o governador goiano deixou claro que sua estratégia passa por evitar a concentração da direita em um único nome. “Defendo que a direita tenha mais de um candidato no primeiro turno. Se houver apenas um, ele vira alvo fácil”, afirmou Caiado em entrevista à Folha de S.Paulo, ao comentar o cenário eleitoral e a liderança de Lula nas pesquisas.
Caiado defende que candidatura única favorece Lula
A declaração é reveladora. Caiado parte da premissa de que um campo conservador excessivamente estreito facilitaria a estratégia do Palácio do Planalto. Na avaliação do governador, um cenário em que apenas Flávio Bolsonaro represente a direita seria favorável a Lula, tanto pelo desgaste do sobrenome Bolsonaro quanto pela rejeição acumulada ao bolsonarismo após os anos de Jair Bolsonaro na Presidência. “Um único candidato da direita, especialmente com alta rejeição, tende a ser derrotado com facilidade”, disse Caiado, em outra entrevista, desta vez ao portal UOL, reforçando a tese de pulverização como forma de forçar um segundo turno mais competitivo.
A chegada de Caiado ao PSD também tem implicações diretas sobre outro nome frequentemente citado como possível presidenciável: o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Apesar do assédio explícito de setores do mercado financeiro e de parte do empresariado, a filiação de Caiado ao partido de Kassab é interpretada, nos bastidores, como mais um sinal de que a candidatura de Tarcísio dificilmente se concretizará em 2026. Kassab, aliado central do governador paulista, tem reiterado que o foco do PSD é construir uma alternativa própria, o que passa por fortalecer quadros internos com ambição nacional.
Nesse contexto, a movimentação de Caiado reforça a leitura de que Tarcísio tende a permanecer em São Paulo, seja para buscar a reeleição, seja para consolidar sua liderança estadual. Embora seja visto como um nome palatável para o mercado e para setores do centro-direita, Tarcísio enfrenta dilemas políticos evidentes: o vínculo com Jair Bolsonaro, a dependência do apoio bolsonarista e o risco de abandonar um governo bem avaliado para uma disputa presidencial incerta.
Para o PSD, a filiação de Caiado amplia o leque de opções e fortalece o discurso de que o partido pode ser protagonista na sucessão presidencial. Kassab, conhecido por sua habilidade em ocupar espaços de poder e negociar com diferentes campos políticos, passa a administrar três governadores com ambições nacionais — ainda que nenhum deles, até o momento, apareça como favorito.
Do ponto de vista do tabuleiro político, o ingresso de Caiado não resolve o problema central da direita, que segue sem um nome consensual e competitivo. Mas embaralha as cartas, amplia as possibilidades e sinaliza que o campo conservador tentará evitar, a qualquer custo, uma eleição plebiscitária entre Lula e um único adversário fragilizado. Se essa estratégia será suficiente para alterar o favoritismo do presidente, ainda é uma incógnita. O fato é que, com Caiado no PSD, a disputa à direita ganha mais um capítulo — e mais divisões.
Publicado originalmente por: TVTNews
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