papilomavírus humano, HPV, pode causar diversos tipos de câncer. A abordagem da Saúde Única colaborar sistematicamente contra o vírus. Já se dispõem de ferramentas para prevenir boa parte desses cânceres, a vacina contra o HPV é a maior delas. Prevenir é sempre mais humano, mais eficiente e mais inteligente do que tratar 

Figura 1. Mapa epidemiológico ilustrando a distribuição global do papilomavírus humano (HPV) e sua correlação com a incidência de câncer cervical. Embora cerca de 11% das mulheres saudáveis no mundo sejam portadoras do HPV, observa-se uma disparidade regional marcante, com as maiores prevalências e taxas de câncer concentradas na África e na América Latina. A progressão da infecção para doença invasiva é influenciada pela presença de tipos virais de alto risco, como os tipos 16 e 18, e potencializada por cofatores como tabagismo e coinfecção por HIV. Adaptado de GLOBOCAN, 2025.
Figura 1. Mapa epidemiológico ilustrando a distribuição global do papilomavírus humano (HPV) e sua correlação com a incidência de câncer cervical. Embora cerca de 11% das mulheres saudáveis no mundo sejam portadoras do HPV, observa-se uma disparidade regional marcante, com as maiores prevalências e taxas de câncer concentradas na África e na América Latina. A progressão da infecção para doença invasiva é influenciada pela presença de tipos virais de alto risco, como os tipos 16 e 18, e potencializada por cofatores como tabagismo e coinfecção por HIV. Adaptado de GLOBOCAN, 2025.

A saúde se tornou um tema central e prioritário na COP30, impulsionada pelo Brasil, que lançou o Plano de Ação para a Saúde de Belém com foco em sistemas de saúde resilientes às mudanças climáticas, e iniciativas como o AdaptaSUS e o Mais Saúde Amazônia. Os planos e iniciativas visam a proteção de populações vulneráveis, o fortalecimento do SUS e a integração saúde, clima e justiça social, com o objetivo de lidar com impactos de eventos extremos, doenças e desnutrição, promovendo soluções sustentáveis, vigilância climática, integração de saberes tradicionais e a transformação digital na saúde pública. 

Com base nos princípios propostos na COP30 e numa abordagem mais pontual sobre as doenças decorrentes da infecção por Papilomavírus (PV), inspirada no contexto da Saúde Única, por acometerem humanos e diversos animais, versaremos sobre doenças altamente relevantes por representarem um desafio silencioso para a saúde pública mundial. Portanto, torna-se fundamental a implementação de medidas de prevenção e controle desse vírus disseminado globalmente. 

As infecções emergentes que levam a epidemias ou pandemias são tipicamente zoonoses que cruzam as fronteiras entre espécies em pontos vulneráveis ​​da interface entre animais e humanos. O compartilhamento de espaço entre animais selvagens, humanos e seus animais domésticos aumentou drasticamente nas últimas décadas, sendo um fator-chave na disseminação de patógenos. A interface entre animais e humanos ocorre em conjunto com a crescente globalização que, junto a falhas dos sistemas de saúde, resultam em uma combinação catastrófica com implicações graves para a saúde humana e animal 

Nesse contexto, a abordagem de Saúde Única, ou Uma Só Saúde, reconhece a interdependência entre a saúde humana, animal e ambiental. Essa integração possibilita o desenvolvimento de estratégias mais abrangentes para a prevenção de infecções e o controle da disseminação viral, contribuindo diretamente para a saúde pública global. Nesse cenário, destaca-se o papel essencial dos profissionais de vigilância em saúde, que atuam de forma preventiva no monitoramento de zoonoses, por meio da recomendação de vacinação, do controle de vetores e de ações educativas alinhadas aos princípios da Saúde Única, garantindo respostas mais eficazes e coordenadas.   

Hoje, sabe-se que o PV compreende um grande e diversificado grupo de vírus, com mais de 200 tipos identificados em humanos, além de variantes que infectam outros hospedeiros, como os demais mamíferos, aves, répteis e peixes. A maioria dos PV é considerada tipo-específica, ou seja, apresenta afinidade por um único hospedeiro, embora alguns tipos possam infectar além do seu hospedeiro natural. A infecção por diferentes tipos de PV está associada a lesões benignas que podem regredir espontaneamente pela ação do sistema imune, contudo, em determinados casos, podem evoluir para lesões mais extensas ou até mesmo para neoplasias malignas (cânceres). 

 

A infecção humana 

No campo da saúde humana, a infecção por papilomavírus humano (HPV) ganhou destaque nas últimas décadas devido à sua alta incidência, especialmente entre mulheres, e à forte associação com o desenvolvimento do câncer cervical (câncer de colo do útero). Ao todo, 19 tipos de HPV estão associados ao desenvolvimento de câncer. Entre eles, os tipos 16 e 18 se destacam como os principais responsáveis pelos cânceres HPV-positivos, especialmente o câncer cervical. A relação entre a infecção por HPV e o câncer cervical foi estabelecida na década de 1970 pelo cientista alemão Harald zur Hausen, cuja descoberta, fundamental para a saúde pública global, rendeu-lhe o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia em 2008 [2, 5].  

 

Evidências sugerem que as primeiras infecções por HPV16 surgiram há mais de 500 mil anos, afetando ancestrais humanos arcaicos, como neandertais e denisovanos. A descoberta dos denisovanos em 2010, a partir de análises genômicas de fósseis na Sibéria, ampliou nossa compreensão sobre a evolução humana e revelou que Homo sapiens, neandertais e denisovanos compartilharam migrações e episódios de miscigenação. Nesse mesmo contexto, estudos atuais investigam a evolução dos papilomavírus ao longo desses encontros populacionais, ajudando a entender como o HPV se diversificou e oferecendo pistas sobre sua resposta a novas pressões ambientais.  

 

Figura 2. Crânios de Homo sapiens (à esquerda) e Neandertal (à direita) do Museu de História Natural de Cleveland. Através de métodos genéticos, estatísticos e bioinformática avançada, sabemos hoje que o Homo sapiens conviveu e se misturou com ancestrais arcaicos, como os Neandertais e os Denisovanos. Estes últimos, descobertos na Rússia em 2008, revelaram um novo capítulo da evolução humana, mostrando que diferentes grupos compartilharam a Terra e deixaram marcas no nosso genoma atual.
Figura 2. Crânios de Homo sapiens (à esquerda) e Neandertal (à direita) do Museu de História Natural de Cleveland. Através de métodos genéticos, estatísticos e bioinformática avançada, sabemos hoje que o Homo sapiens conviveu e se misturou com ancestrais arcaicos, como os Neandertais e os Denisovanos. Estes últimos, descobertos na Rússia em 2008, revelaram um novo capítulo da evolução humana, mostrando que diferentes grupos compartilharam a Terra e deixaram marcas no nosso genoma atual.

O HPV é uma infecção sexualmente transmissível (IST) amplamente disseminada em todo o mundo. O vírus infecta as mucosas anogenitais e orofaríngeas, além da pele, podendo provocar tanto lesões benignas quanto malignas. Devido à sua alta prevalência e ao potencial de causar câncer, o HPV representa um importante desafio para a saúde pública global. Estima-se que mais de 600 milhões de indivíduos estejam infectados por algum tipo de HPV em todo o mundo. A grande maioria dos infectados não desenvolve formas malignas da doença, indicando que cofatores sociais, ambientais e econômicos possam estar associados à persistência da infecção e à sua progressão maligna. 

O câncer cervical é a quarta neoplasia mais frequente entre mulheres no mundo, registrando mais de 600 mil novos casos e cerca de 350 mil mortes por ano – números que atingem de forma desproporcional países de média e baixa renda. Esses números refletem desigualdades socioeconômicas que comprometem o acesso à vacinação, aos programas de rastreamento e ao tratamento adequado. A adoção de medidas preventivas, especialmente a vacinação contra o HPV associada ao rastreamento regular, com exames como o Papanicolau, constitui a estratégia mais eficaz para reduzir a incidência do câncer cervical e promover a saúde da população. 

No Brasil, a vacina profilática quadrivalente contra o HPV, que protege contra os tipos 6, 11, 16 e 18, foi incorporada ao Programa Nacional de Imunizações (PNI) em 2014. Ela é oferecida a crianças e adolescentes de 9 a 14 anos, além de grupos prioritários, como imunocomprometidos, vítimas de violência sexual, usuários de PrEP e portadores de papilomatose respiratória recorrente. Inicialmente administrada em duas doses, a vacina passou a ser aplicada em dose única em 2024, seguindo as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), sem prejuízo de sua eficácia e proteção. A adoção desse regime reduz custos, facilita a adesão e tende a ampliar a cobertura vacinal, fortalecendo a imunidade coletiva — proteção essencial para indivíduos que não podem ser vacinados, como bebês, gestantes ou pessoas com determinadas comorbidades. Vale destacar que ainda não existe no mundo nenhuma vacina terapêutica contra os cânceres induzidos por HPV, licenciada para uso humano, mas há vários protótipos vacinais em desenvolvimento, sendo avaliados em ensaios pré-clínicos e clínicos.  

“Uma vacina não administrada é 100% ineficaz” 
Prof. Dr. Renato Kfouri – Médico Pediatra Infectologista – SBIm 

 

Figura 3. Imagem ilustrativa do papilomavírus (PV), destacando seus componentes. Os PV são vírus formados por capsídeos, estruturas compostas por agrupamentos de unidades proteicas (monômeros de proteína L1) agrupados em pentâmeros (conjunto de cinco monômeros). O capsídeo é formado por um arranjo de cerca de 72 pentâmeros em uma estrutura esférica de 55-60 nm (nanômetros) de diâmetro, que comporta o material genético viral (genoma viral) em seu interior, contendo 8.000 pares de bases. Os pentâmeros são interligados entre si com o auxílio da proteína L2, que promove a estabilização do capsídeo, não permanecendo exposta na superfície. Foto: Opabinia regalis/Wikimedia Commons
Figura 3. Imagem ilustrativa do papilomavírus (PV), destacando seus componentes. Os PV são vírus formados por capsídeos, estruturas compostas por agrupamentos de unidades proteicas (monômeros de proteína L1) agrupados em pentâmeros (conjunto de cinco monômeros). O capsídeo é formado por um arranjo de cerca de 72 pentâmeros em uma estrutura esférica de 55-60 nm (nanômetros) de diâmetro, que comporta o material genético viral (genoma viral) em seu interior, contendo 8.000 pares de bases. Os pentâmeros são interligados entre si com o auxílio da proteína L2, que promove a estabilização do capsídeo, não permanecendo exposta na superfície. Foto: Opabinia regalis/Wikimedia Commons

As terapias contra os cânceres associados ao HPV incluem tratamentos padrão como cirurgia, radioterapia e quimioterapia, além de imunoterapias e terapias direcionadas. A definição do tipo de tratamento depende do estágio e do tipo do câncer. Entretanto, a detecção precoce e a combinação de abordagens são cruciais para um bom resultado. A cirurgia robótica para a remoção do tumor pode facilitar o procedimento, com menor impacto funcional e estético do que a cirurgia convencional. A radioterapia e a imunoterapia podem ser adotadas separadamente ou associadas. 

Terapias emergentes e direcionadas contra o câncer vêm avançando rapidamente. Um dos principais exemplos é a imunoterapia, que busca impedir que as células tumorais “desliguem” o sistema imunológico, ou seja, bloqueia mecanismos que os tumores usam para escapar da defesa natural do corpo. Outro campo promissor são as vacinas terapêuticas contra o HPV, desenvolvidas para estimular uma resposta imune específica contra as proteínas virais E6 e E7, diretamente associadas ao desenvolvimento de tumores. Já a terapia com células T utiliza células de defesa retiradas do próprio paciente, que são modificadas em laboratório para reconhecer e eliminar células cancerosas. Depois de preparadas, essas células são devolvidas ao organismo, atuando mais precisamente no combate ao câncer 


Figura 4. Terapias inovadoras contra o câncer. As terapias contra o câncer vêm evoluindo para abordagens cada vez mais precisas, que usam o próprio sistema imunológico como aliado. À esquerda, a imunoterapia bloqueia os mecanismos usados por tumores para “desligar” as defesas naturais do corpo. No centro, aparecem as vacinas terapêuticas — como as voltadas para tumores HPV-positivos — que treinam o sistema imune para atacar proteínas diretamente envolvidas no desenvolvimento da doença. À direita, a terapia com células T (como o CAR-T) transforma células de defesa do próprio paciente em versões aprimoradas, capazes de reconhecer e destruir células cancerosas com alta precisão. Juntas, essas abordagens representam um avanço tecnológico importante rumo a tratamentos oncológicos mais inteligentes e personalizados. (Imagem gerada por inteligência artificial / Gemini Google).
Figura 4. Terapias inovadoras contra o câncer. As terapias contra o câncer vêm evoluindo para abordagens cada vez mais precisas, que usam o próprio sistema imunológico como aliado. À esquerda, a imunoterapia bloqueia os mecanismos usados por tumores para “desligar” as defesas naturais do corpo. No centro, aparecem as vacinas terapêuticas — como as voltadas para tumores HPV-positivos — que treinam o sistema imune para atacar proteínas diretamente envolvidas no desenvolvimento da doença. À direita, a terapia com células T (como o CAR-T) transforma células de defesa do próprio paciente em versões aprimoradas, capazes de reconhecer e destruir células cancerosas com alta precisão. Juntas, essas abordagens representam um avanço tecnológico importante rumo a tratamentos oncológicos mais inteligentes e personalizados. (Imagem gerada por inteligência artificial / Gemini Google).

Embora representem avanços importantes, todas essas terapias têm custos elevados para o Sistema Único de Saúde (SUS) e não garantem o resultado desejado. Além disso, o país ainda registra um número alto de óbitos por cânceres relacionados ao HPV, muitos dos quais poderiam ser evitados com a prevenção adequada da infecção viral. 



Por que há baixa cobertura vacinal no Brasil? 

Apesar de as vacinas contra o HPV serem altamente eficazes na prevenção da infecção, o Brasil enfrenta um grande desafio: a baixa adesão de meninas e meninos de 9 a 14 anos às campanhas de imunização, faixa etária em que o corpo responde melhor à vacina. Essa baixa cobertura está ligada à desinformação sobre a segurança e a eficácia da vacina, ao medo de possíveis reações adversas e a crenças sociais que acabam afastando o público-alvo. Para melhorar esse cenário, é essencial reforçar ações de educação em saúde direcionadas a crianças, adolescentes, famílias, escolas e profissionais da área. Informações claras sobre a eficácia da vacina, seus efeitos colaterais, os riscos da infecção por HPV e as doenças associadas, especialmente o câncer cervical, ajudam a aumentar a confiança da população e a estimular a vacinação. Outro ponto fundamental é o monitoramento contínuo da prevalência das doenças relacionadas ao HPV. Esse acompanhamento contribui para o controle mais eficaz da infecção e ajuda a evitar a expansão dos casos no país. 

O câncer cervical é o único câncer relacionado ao HPV para o qual existem métodos consolidados de rastreamento, como o exame citopatológico (Papanicolau), recomendado para mulheres entre 25 e 64 anos. Atualmente, técnicas de biologia molecular, a tecnologia mais recente e precisa, vêm sendo empregadas para o diagnóstico dessa doença. 

 

Metas globais   

Em 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou a Estratégia Global para Acelerar a Eliminação do Câncer Cervical como meta de saúde pública. Para alcançar esse objetivo, foram estabelecidas três metas principais: vacinar 90% das meninas até 15 anos contra o HPV; garantir que 70% das mulheres passem por exames de rastreamento com testes de alto desempenho aos 35 e aos 45 anos; e assegurar que 90% das mulheres diagnosticadas com alguma alteração cervical recebam o tratamento adequado. Essas ações, integradas, formam a base para reduzir de forma significativa a morbidade e a mortalidade associadas ao câncer cervical. 

No entanto, havendo maior disponibilidade de vacinas no mundo, mais pessoas poderão ser imunizadas, aumentando a viabilidade da implementação de programas de vacinação contra o HPV, independentemente de sexo, gênero e idade. Isso reduzirá as infecções por HPV transmitidas na população, assim como auxiliará no combate à desinformação, minimizando o estigma associado à vacina. Diversos países vêm adotando políticas equivalentes para incluir populações marginalizadas em programas de vacinação. 

Para que políticas e programas de saúde alcancem resultados efetivos, é fundamental compreender as perspectivas de todos os atores envolvidos: população, profissionais de saúde, líderes comunitários e formuladores de políticas. Essa escuta qualificada permite identificar barreiras, orientar intervenções e aumentar a adesão às estratégias propostas. No contexto da vacinação contra o HPV, sobretudo em modelos que incluem todos os gêneros, essa compreensão torna-se ainda mais crucial. Nesse cenário, as pesquisas de implementação desempenham um papel central, oferecendo evidências que permitem a gestores e financiadores desenvolverem políticas mais eficientes e alinhadas às reais necessidades da população. 

Embora as vacinas contra o HPV apresentem alta eficácia, a hesitação vacinal e a disseminação de desinformação continuam sendo obstáculos relevantes para a eliminação dos cânceres associados ao vírus. Para superar esse cenário, é necessário investir em ações que fortaleçam a confiança da população e ampliem a cobertura vacinal. Somadas ao aprimoramento do rastreamento do câncer cervical, essas medidas têm potencial para reduzir expressivamente a incidência da doença e promover avanços sustentáveis na saúde pública. 

A abordagem de Saúde Única amplia essa perspectiva ao integrar profissionais de diferentes áreas para enfrentar tabus sociais e aprimorar a prevenção da infecção pelo HPV em escala global. Nesse contexto, iniciativas de educação em saúde, formação de profissionais e comunicação social ganham relevância. No campo da saúde animal, a prevenção e o tratamento de infecções por papilomavírus contribuem para reduzir a transmissão entre espécies. Já o componente ambiental envolve melhores condições sanitárias, como saneamento básico, que ajudam a minimizar riscos tanto para o HPV quanto para outras doenças. 

 

Populações mais atingidas 

O impacto causado por papilomavírus humano (HPV) não é distribuído de forma igualitária entre a população. Afeta com mais intensidade pessoas que pertencem a grupos historicamente marginalizados, como indivíduos de baixa renda, minorias raciais ou étnicas, pessoas LGBTQIA+, moradores de áreas rurais e pessoas vivendo com HIV. Para reduzir esse impacto desigual, pesquisadores podem incluir, em seus modelos e ferramentas de apoio à tomada de decisão, dados que mostrem como a infecção e as doenças associadas ao HPV se distribuem dentre esses diferentes grupos. Ao incorporar essas informações, os modelos passam a representar melhor a realidade, refletindo tanto a carga da doença quanto a forma como o vírus é transmitido nesses contextos. Isso também permite que políticas públicas e programas de saúde considerem, de maneira mais clara, os efeitos específicos sobre populações mais vulneráveis, contribuindo para ações mais justas e eficazes. 

Em conclusão, o desafio é evidente: ninguém – independentemente de sexo, gênero ou idade – escolheria desenvolver um câncer relacionado ao HPV, quando existem vacinas seguras, eficazes e disponíveis tanto no SUS quanto na rede privada. Ainda assim, muitos deixam de se proteger. No caso dos adultos fora da faixa etária atendida pelo SUS, o custo na rede particular tende a ser um obstáculo real, que merece ser repensado. Afinal, ampliar o acesso gratuito à vacinação teria um custo-benefício muito superior ao das longas hospitalizações e dos tratamentos complexos, por vezes dolorosos e mutilantes, que impactam profundamente a vida física e emocional dos pacientes. 

Se já dispomos de ferramentas capazes de prevenir boa parte dos cânceres associados ao HPV, o compromisso coletivo deve ser facilitar seu acesso e fortalecer a informação, porque prevenir é sempre mais humano, mais eficiente e mais inteligente do que tratar. 

 

Um chamado ao futuro 

O seminário “Saúde na COP30” reafirmou a convergência entre ciência, política e saberes tradicionais. Ao mesmo tempo em que o Plano de Belém organiza respostas técnicas e governamentais, as falas de cientistas e lideranças como o professor e ativista indígena André Fernando Baniwa ampliaram a compreensão da saúde climática como tema civilizatório — que une dados, direitos e culturas [1]. 

Segundo Guto Galvão, do Centro de Relações Internacionais em Saúde (CRIS) e da Estratégia Fiocruz para Agenda 2030, a presidência brasileira da COP abre uma janela de oportunidade. Temos um plano sólido, redes de pesquisa engajadas e uma sociedade civil ativa. Cabe a nós transformar esse momento em um mutirão global por saúde, clima e vida.” 

 

Aurora Marques Cianciarullo é bióloga pela Universidade Mackenzie de São Paulo, com Mestrado e Doutorado em Biologia Celular e Molecular pela FIOCRUZ-RJ, e Pós-Doutorado no DKFZ-Heidelberg, Alemanha. Atua na área de vacinas profiláticas e terapêuticas para cânceres associados ao HPV, no Laboratório de Biotecnologia Viral do Instituto Butantan – aurora.cianciarullo@butantan.gov.br  

 

Cyntia Silva de Oliveira é bióloga pela Universidade Estadual de São Paulo (UNESP), com Mestrado e Doutorado em Biologia Molecular pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), e Pós-Doutorado no Instituto Butantan. É pesquisadora colaboradora na Universidade Federal do ABC (UFABC), na área de sistemas biológicos bacterianos e tumorais, e no Laboratório de Biotecnologia Viral do Instituto Butantan – c.oliveira.proppg@proppg.butantan.gov.br  

 

Dirce Sakauchi é farmacêutica pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC), com Mestrado e Doutorado em Biotecnologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atua nas áreas de biologia molecular e biotecnologia, em pesquisas para o desenvolvimento de vacinas contra papilomavírus humano (HPV), no Laboratório de Genética do Instituto Butantan – dirce.sakauchi@butantan.gov.br  

 Publicado originalmente por: Le Monde Diplomatique

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