Em discurso na OEA, delegação brasileira fez duras críticas contra a ação dos EUA na Venezuela

O Itamaraty sobe o tom contra o ato de Donald Trump na Venezuela, chama a prisão de Nicolás Maduro de “sequestro” e alerta que, sem o direito internacional, o mundo corre o risco de promover a “lei da selva”.
O alerta foi feito pelo representante do Brasil junto à Organização dos Estados Americanos (OEA), Benoni Belli, nesta terça-feira. O discurso ocorreu na reunião convocada pela entidade para lidar com a crise na Venezuela.
O encontro, porém, revelou mais uma vez um profundo racha no Hemisfério e uma operação deliberada de governos ultraconservadores para blindar os EUA de críticas.
O discurso do Brasil alertou para o risco do que o ato na Venezuela pode significar. “A soberania nacional, sustentada no direito internacional e nas instituições multilaterais, é fundamental para que os povos possam exercer sua autodeterminação”, afirmou.
“O edifício multilateral, apesar de suas imperfeições, constitui o único instrumento disponível para assegurar racionalidade, igualdade e justiça entre as Nações”, disse o embaixador.
“Se perdermos isso, perderemos não só a independência, mas também a dignidade nacional, e seremos coadjuvantes na definição de nosso próprio destino. A força do argumento cederá lugar ao argumento da força, as relações de cooperação podem transformar-se em meras relações de subordinação”, alertou.
“Assistiremos assim ao colapso da ordem internacional erigida após a Segunda Guerra. A desordem que ocupará o vácuo será ainda mais injusta, violenta e opressiva, pois tenderá a ser regida pela lei da selva, sem qualquer tipo de contenção”, insistiu.
Leia o discurso completo por parte do embaixador Belli:
O momento atual é grave e evoca tempos que considerávamos ultrapassados, mas que voltam a assolar a América Latina e o Caribe. Os bombardeios no território da Venezuela e o sequestro do seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável. Esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e ameaçam a comunidade internacional com um precedente extremamente perigoso.
Agressões militares conduzem a um mundo em que a lei do mais forte prevalece sobre o multilateralismo.
Não podemos aceitar o argumento de que os fins justificam os meios. Esse raciocínio carece de legitimidade e abre a possibilidade de conferir aos mais fortes o direito de definir o que é justo ou injusto, o que é certo ou errado, e de ignorar as soberanias nacionais, ditando as decisões que devem tomar os mais fracos.
A soberania nacional, sustentada no direito internacional e nas instituições multilaterais, é fundamental para que os povos possam exercer sua autodeterminação.
O edifício multilateral, apesar de suas imperfeições, constitui o único instrumento disponível para assegurar racionalidade, igualdade e justiça entre as Nações.
Se perdermos isso, perderemos não só a independência, mas também a dignidade nacional, e seremos coadjuvantes na definição de nosso próprio destino. A força do argumento cederá lugar ao argumento da força, as relações de cooperação podem transformar-se em meras relações de subordinação.
Assistiremos assim ao colapso da ordem internacional erigida após a Segunda Guerra. A desordem que ocupará o vácuo será ainda mais injusta, violenta e opressiva, pois tenderá a ser regida pela lei da selva, sem qualquer tipo de contenção.
Senhor Presidente,
A Carta das Nações Unidas e as obrigações hemisféricas foram violadas. Recordemos a recente resolução 297/2025 da Comissão Jurídica Interamericana (CJI), que reiterou unanimemente que o uso da força nas relações internacionais está proibido, salvo em caso de legítima defesa contra agressão armada ou ação coletiva autorizada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas.
A regra geral, portanto, é de proibição do uso da força nas relações internacionais. As exceções devem guiar-se pela Carta das Nações Unidas.
Além disso, a CJI reforçou o entendimento já assentado de que a regulação do uso da força pela Carta relaciona-se estreitamente com outros princípios da ordem internacional atual, em particular:
– a inviolabilidade do território dos Estados;
– a não agressão;
– a não intervenção em assuntos internos;
– o não reconhecimento das aquisições territoriais obtidas pela força;
– a obrigação de resolver as controvérsias internacionais de maneira
pacífica;
– a noção de segurança coletiva como ação conjunta contra um agressor.
A CJI também afirmou que a proibição do uso da força e suas exceções aplicam-se a todos os Estados. E que o sistema hemisférico não pode subtrair-se dessa proibição e nem invocar circunstâncias particulares que constituam uma ampliação ou distorção dessas normas.
Senhor Presidente,
A condenação ao uso da força é consistente com a posição que o Brasil sempre tem adotado em situações recentes em outros países.
A vedação do uso da força adquiriu especial relevo em uma das regiões do hemisfério ocidental, a América Latina e o Caribe, quando a CELAC declarou esse espaço geográfico como uma zona de paz.
A ação que acaba de acontecer não só viola a proibição do uso da força como lembra os piores momentos da interferência na política da América Latina e do Caribe.
A América Latina e o Caribe também são uma zona regida pelo princípio da autodeterminação dos povos.
O Brasil não crê que a solução da situação da Venezuela passe pela criação de protetorados no país.
Dentro da região latino-americana e caribenha mais ampla, o continente sul-americano tem uma história muito particular de superação de conflitos e rivalidades.
Os países da América do Sul aprenderam, ao longo da história, a resolver as suas diferenças pela via da cooperação.
O Mercosul é uma das construções mais simbólicas – e com resultados muito concretos – do êxito da América do Sul no caminho da cooperação e da paz.
O Brasil defendeu e seguirá defendendo com toda a convicção esse patrimônio sul-americano de paz. Defendeu e defenderá com toda a determinação, ao mesmo tempo, a não-intervenção no seu entorno sul- americano.
O ataque à Venezuela trouxe à tona, pela primeira vez na América do Sul, as imagens marcantes da ação militar resultante de uma agressão armada de origem externa à região.
É inédito, e especialmente alarmante, que essas imagens – que em geral emanam de outras partes do mundo – se produzam em um vizinho com o qual nosso país compartilha 2.200 km de fronteira terrestre.
O Brasil vê com preocupação esses fatos.
Recordo as palavras do Presidente Lula na última cúpula do Mercosul, realizada em dezembro na cidade de Foz do Iguaçú: “Construir uma América do Sul próspera e pacífica é a única doutrina que nos convém”. É por isso que o Brasil está determinado a atuar – do continente da América do Sul ao espaço mais amplo da América Latina e do Caribe – pela preservação do patrimônio regional da paz.
Não hesitaremos em sustentar preceitos de nossa Constituição Federal como a não-intervenção, a solução pacífica dos conflitos e a defesa da paz.
O Brasil está convencido, nesse sentido, de que somente um processo político inclusivo, liderado pelas e pelos venezuelanos, livre de ingerências externas, pode conduzir a uma solução que respeite a vontade do povo venezuelano e a dignidade humana no país.
Muito obrigado.
Publicado originalmente por: ICL Notícias
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