Este texto não é uma crítica às plataformas. É uma tentativa de formular uma teoria histórica da infraestrutura informacional.

Resumo da notícia
A imprensa do século 15 mudou a circulação do conhecimento, deslocando o poder da Igreja para a sociedade letrada emergente.
A internet é uma nova infraestrutura informacional, planetária e algorítmica, que reorganiza o tempo, espaço e percepção social.
O projeto Páginas Temáticas propõe criar uma arquitetura cognitiva pública para enfrentar o domínio privado das plataformas digitais.
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Resumo gerado por Inteligência artificial
Da imprensa às plataformas: infraestrutura cognitiva em disputa
por Rodrigo Mesquita
O que ocorre na Europa do século 15 não é apenas uma revolução técnica. É uma mudança de infraestrutura cognitiva. Gutenberg não cria um novo meio; ele altera o modo como o conhecimento circula, se estabiliza, se legitima e se transmite no tempo. É aqui que o trabalho de Harold Innis se torna decisivo.
Para Innis, toda civilização se organiza em torno de meios dominantes que estruturam o equilíbrio entre tempo e espaço. A oralidade e o manuscrito medieval favoreciam elites, hierarquias e continuidade controlada. A imprensa introduz um meio altamente replicável, barato, portátil e descentralizado, deslocando o eixo do poder simbólico: da Igreja e dos mosteiros para a sociedade letrada emergente. Não é por acaso que o humanismo, a ciência moderna, o Estado nacional e o protestantismo nascem nesse mesmo caldo.
McLuhan leva essa intuição às suas consequências cognitivas: a imprensa cria não apenas livros, mas um novo tipo de mente – linear, sequencial, classificadora, baseada em textos estáveis. Ela torna possível a construção de uma arquitetura cognitiva da sociedade moderna: arquivos, bibliotecas, jornais, códigos jurídicos, ciência, burocracias, currículos escolares. Tudo isso depende de textos reproduzíveis, citáveis e estáveis.
A imprensa foi, portanto, a infraestrutura invisível da modernidade.
Um processo longo, não uma ruptura súbita
A infraestrutura que hoje chamamos de internet não “surge” subitamente. Ela é o resultado de um processo longo, técnico, econômico e cultural, que atravessa décadas de certa forma previsto por Innis e McLuhan. Durante muito tempo, este processo foi tratado pelas instituições da imprensa apenas como um novo canal, uma nova forma de distribuição, não como uma transformação estrutural do próprio sistema informacional.
Enquanto isso, uma nova camada infraestrutural ia se formando: redes, protocolos, buscadores, plataformas, sistemas de indexação, algoritmos de priorização, bancos de dados em escala planetária. O que se consolidou entre os anos 2000 e 2010 foi um novo regime de circulação, hierarquização e captura da atenção.
A diferença histórica em relação ao século XV é que, desta vez, a antiga infraestrutura – a imprensa – permaneceu em operação enquanto a nova se instalava por baixo dela, sem que suas instituições reconhecessem o que estava em jogo.
O paralelo estrutural
O que vivemos hoje é um deslocamento de magnitude maior e mais complexo do que o do século 15. Como no passado, uma nova infraestrutura informacional se impõe sobre uma sociedade já tensionada: globalizada, fragmentada, atravessada por conflitos políticos, culturais e econômicos, com instituições lentas tentando governar fluxos rápidos.
No século XV, a imprensa era material, localizada: prensas, oficinas, livrarias. Hoje, a nova infraestrutura é aérea, opaca e concentrada: servidores, protocolos, algoritmos, plataformas.
Mas o efeito é o mesmo: a forma como o conhecimento circula muda, e com ela mudam o poder, a autoridade, a memória e a própria possibilidade de coordenação social.
Caos e recomposição institucional
No século 15, a imprensa gerou anomalias: heresias, guerras religiosas, panfletos inflamatórios, colapso da autoridade da Igreja. Mas esse mesmo processo criou as condições para o surgimento de novas instituições: universidades modernas, imprensa periódica, direito autoral, bibliotecas públicas, jornalismo, ciência.
A desestabilização e a recomposição foram parte do mesmo movimento.
Hoje estamos novamente na fase de desorganização infraestrutural. A grande diferença é a escala planetária, em tempo real e sob controle privado.
O erro do debate contemporâneo
O erro central do debate atual é tratar as plataformas como meios de comunicação. Elas não são. Elas são infraestrutura: definem o que circula, em que velocidade, para quem, com que prioridade, com que carga emocional e com que visibilidade.
Isso é poder cognitivo. O problema não é excesso de informação. É perda de controle social sobre o sistema que organiza a informação.
O ponto de inflexão
A comunicação em rede é, em si, mais adequada para informar do que a imprensa jamais foi. O problema é como organizá-la. Até agora, ela foi organizada como infraestrutura privada de monetização da atenção, não como infraestrutura pública de conhecimento.
O equivalente histórico seria se, no século 16, todas as prensas da Europa estivessem nas mãos de poucas empresas cujo modelo fosse maximizar excitação, medo e polarização, em vez de produzir livros, ciência, jornais ou arquivos.
O que está realmente em jogo
Por isso, este texto não é uma crítica às plataformas. É uma tentativa de formular uma teoria histórica da infraestrutura informacional. E, ao mesmo tempo, refletir sobre uma resposta prática: a necessidade de reconstruir uma arquitetura cognitiva pública sobre a infraestrutura digital.
É exatamente isso que está em jogo no projeto Páginas Temáticas.
O projeto não parte da lógica do conteúdo, nem da lógica da audiência. Ele parte da lógica da infraestrutura de mediação. Cada Página Temática é concebida como um núcleo estável de organização de um campo de interesse público – meio ambiente, território, plataformas (desinformação e polarização), saúde, ciência, democracia – capaz de integrar, em um mesmo espaço, quatro funções que hoje estão dispersas e capturadas:
– monitoramento contínuo dos fluxos informacionais (o que está sendo dito, onde, por quem, com que intensidade),
– curadoria pública e editorial (o que é relevante, confiável, estruturante),
– memória e acumulação de conhecimento (o que já se sabe, o que foi decidido, o que mudou),
– espaços de interlocução com as redes sociais reais que atuam naquele campo.
O que torna essa proposta viável hoje – e não apenas desejável – é que já existe tecnologia para operar essas funções em escala: sistemas de coleta e análise de fluxos digitais, modelos de linguagem, ferramentas de classificação, indexação e síntese, capazes de mapear, estruturar e tornar legíveis volumes de informação que nenhuma redação tradicional conseguiria processar.
Essa camada tecnológica não resolve o problema por si. Mas, colocada a serviço de uma curadoria pública e de uma lógica editorial orientada ao interesse coletivo, ela se torna uma das poucas formas reais de enfrentar o domínio das plataformas sobre os fluxos de informação.
Em vez de aceitar que a visibilidade, a relevância e a memória sejam definidas por algoritmos privados de engajamento, as Páginas Temáticas propõem a construção de superfícies próprias de organização do sentido, capazes de capturar, estruturar e devolver à sociedade os fluxos que hoje circulam de forma caótica e manipulável.
O objetivo não é engajar, mas reconstituir contexto.
Não é viralizar, mas criar continuidade.
Não é reagir ao fluxo, mas torná-lo legível, comparável e acumulável no tempo.
Nesse sentido, o projeto ocupa, no ecossistema digital, o mesmo lugar estrutural que a imprensa ocupou na modernidade: uma camada de estabilização cognitiva sobre uma infraestrutura técnica volátil.
A pergunta que atravessa do século 15 ao nosso tempo continua a mesma:
como transformar uma nova tecnologia de comunicação em uma nova arquitetura cognitiva da sociedade?
É isso que o projeto tenta fazer.
E é por isso que esse tipo de argumento incomoda: ele não aceita a captura das plataformas como destino, nem a fragmentação informacional como dado natural. Ele recoloca a disputa no nível onde ela realmente ocorre: o da infraestrutura que organiza o que a sociedade pode ver, lembrar, discutir e decidir.
Braudel, Innis, McLuhan: a genealogia de uma infraestrutura
Fernand Braudel, https://pt.wikipedia.org/wiki/Fernand_Braudel, dizia algo desconcertante: o progresso não existe. O que existe é a capacidade de uma sociedade mudar para continuar existindo. Mudança não produz sociedades melhores. Ela apenas evita que elas morram.
Harold Innis acrescenta a essa intuição uma chave decisiva: as sociedades não são organizadas por ideias, mas por infraestruturas de comunicação que definem o que pode circular, o que pode durar, quem pode falar e quem pode ouvir. Cada civilização vive dentro de um equilíbrio instável entre meios que privilegiam o tempo – a memória, a continuidade – e meios que privilegiam o espaço – a expansão, o alcance, o controle.
Marshall McLuhan mostra o efeito disso sobre a própria mente: cada grande infraestrutura de comunicação cria um tipo de percepção, um tipo de racionalidade, um tipo de mundo.
Braudel descreve o fluxo profundo da história.
Innis identifica suas engrenagens invisíveis.
McLuhan revela suas consequências cognitivas.
O que hoje chamamos de plataformas digitais é a convergência dessas três dimensões: uma nova infraestrutura, planetária, algorítmica e concentrada, que reorganiza o tempo, o espaço e a própria forma de perceber a realidade.
Ela não “invadiu” a sociedade. Ela se tornou o sistema nervoso da circulação simbólica: o que é visto, o que é esquecido, o que se amplifica, o que desaparece.
Como Braudel advertia, a história não é dirigida. Ela corre por estruturas profundas que raramente percebemos. Quando nos damos conta, já estamos vivendo dentro delas.
É isso que aconteceu com as plataformas.
E como Braudel também lembrava, o mais fácil para uma sociedade é se livrar do que já não funciona. O mais difícil é criar o que ainda não existe.
O projeto Páginas Temáticas nasce exatamente nesse intervalo: o da necessidade histórica de criar uma nova arquitetura cognitiva pública antes que a antiga – a da imprensa, da memória social, da esfera pública – desapareça de vez sob o regime algorítmico da atenção.
Não se trata de resistir à tecnologia. Trata-se de impedir que a nova infraestrutura se torne uma fatalidade histórica.
É isso que está em jogo.
Rodrigo Mesquita – Jornalista, conselheiro do InovaUSP e pesquisador do ecossistema informacional. Ex-diretor do Jornal da Tarde e da Agência Estado.
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Publicado originalmente por: GGN
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