A América Latina é colocada novamente na posição de laboratório do imperialismo global. A Venezuela, maior reserva de petróleo do mundo, está no centro do xadrez geopolítico. Narrativas de defesa da democracia, combate a ameaças transnacionais ou proteção humanitária têm justificado a instabilidade e a violência

Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Nas últimas décadas, a ordem internacional atravessa uma crise prolongada. Na chave gramsciana, trata-se de um interregno, um momento histórico no qual as estruturas e instituições perdem a capacidade de produzir consenso e administrar contradições sistêmicas. Elementos da ordem em decomposição continuam operando, mas já sem a mesma efetividade, enquanto a ordem subsequente ainda não se consolidou como alternativa estável. O resultado é um cenário marcado pela corrosão de normas, pela intensificação das disputas geopolíticas e pela reemergência da força como instrumento central de reorganização do poder[1].

Em contextos de transição hegemônica, a história demonstra que crises profundas tendem a ser administradas menos por meio de pactos e acordos multilaterais e mais pela normalização de medidas de exceção. A militarização da política externa, a redefinição de inimigos e o uso recorrente de justificativas morais ou securitárias passam a compor o repertório das potências em declínio. Esse deslocamento não se limita às dinâmicas internas dos Estados, mas reconfigura as relações internacionais e flexibiliza limites jurídicos antes considerados intransponíveis[2].

É nesse quadro que a Venezuela volta a ocupar um lugar central no tabuleiro geopolítico contemporâneo. A erosão do consenso que sustentou a liderança global dos Estados Unidos, combinada ao avanço de novos polos de poder, reabre a disputa por zonas de influência no Hemisfério Ocidental. Nos últimos anos, documentos estratégicos e declarações oficiais de Washington têm reiterado a América Latina como entorno estratégico prioritário, especialmente em função de recursos energéticos, infraestruturas críticas e cadeias de suprimento consideradas vitais para a segurança nacional e para a competitividade da indústria estadunidense[3].

Neste início de janeiro de 2026, essa escalada atingiu um patamar inédito. Uma ofensiva militar conduzida pelos Estados Unidos contra a Venezuela, concentrada em Caracas, resultou em ataques a infraestruturas estratégicas e culminou na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores. O episódio desencadeou uma crise internacional imediata, recolocando no centro do debate questões relacionadas à soberania estatal, à legalidade do uso da força e aos limites do sistema internacional em um contexto de normas fragilizadas.

Guerras às drogas? Combate ao terrorismo? Luta pela democracia?

A justificativa apresentada por Washington ancora-se na chamada guerra às drogas, mobilizando acusações de narcotráfico formuladas anteriormente pela justiça estadunidense[4]. Mais do que discutir a veracidade dessas acusações, importa compreender sua função política. Assim como, em outros momentos históricos, o combate ao terrorismo serviu como eixo legitimador para intervenções no Oriente Médio e no Norte da África, a retórica antidrogas é atualizada como dispositivo de exceção em escala internacional, deslocando fronteiras jurídicas e normalizando ações unilaterais.

Vale lembrar que essa operação se insere em um contexto no qual os Estados Unidos não reconheceram o resultado das eleições presidenciais venezuelanas de 2024, acionando reiteradamente o discurso da defesa da democracia como eixo legitimador da pressão internacional. Ainda assim, chama atenção que, mesmo após a captura de Maduro, não houve qualquer movimentação política concreta em direção à posse de Edmundo González, opositor apoiado por Washington no processo eleitoral, o que explicita a contradição entre a retórica democrática mobilizada e a prática imperial efetivamente adotada.

Do ponto de vista institucional, a captura do presidente não produz, ao menos de imediato, uma troca efetiva de regime. A vice-presidenta Delcy Rodríguez assumiu interinamente o Executivo, enquanto as principais instituições do Estado venezuelano, incluindo as Forças Armadas Bolivarianas, permanecem operando. A estatal petrolífera PDVSA mantém suas estruturas administrativas e produtivas, indicando que o controle territorial e institucional do país segue em disputa. Esse cenário evidencia os limites das intervenções externas como instrumento de reorganização política rápida e revela a persistência de conflitos internos pelo controle do Estado e de seus recursos estratégicos.

Esse descompasso entre discurso e prática não é inédito. Experiências recentes de intervenções e tentativas de troca de regime, como na Líbia e na Síria, foram igualmente justificadas por narrativas de defesa da democracia, combate a ameaças transnacionais ou proteção humanitária, mas resultaram em processos prolongados de instabilidade, fragmentação institucional e violência difusa. A mobilização desses precedentes históricos ajuda a compreender a ofensiva contra a Venezuela não como exceção, mas como parte de um repertório já conhecido de gestão imperial da crise.

Essa inflexão não é apenas retórica. Ela aparece de forma explícita na National Security Strategy of the United States of America, publicada em novembro de 2025, documento que redefine prioridades geopolíticas e reposiciona a América Latina como espaço central da política de segurança dos Estados Unidos. Ao afirmar a necessidade de reafirmar e fazer cumprir a Doutrina Monroe por meio de um chamado Corolário Trump, o texto oficial estabelece o Hemisfério Ocidental como área prioritária para controle de fluxos migratórios, combate ao narcotráfico, contenção de atores extra-hemisféricos e proteção de ativos estratégicos. Nesse marco, a Venezuela surge não apenas como um caso problemático, mas como território-chave a ser disciplinado, sobretudo diante do controle de recursos energéticos e de infraestruturas sensíveis. Ao deslocar a América Latina para o centro da estratégia de segurança nacional, o documento institucionaliza uma lógica de excepcionalidade permanente para a região, legitimando pressões políticas, econômicas e militares como instrumentos ordinários da política externa estadunidense[5].

América Latina como laboratório do imperialismo global

O episódio venezuelano, contudo, extrapola suas fronteiras nacionais. Sob o governo Trump, discursos e práticas de política externa indicam uma reatualização explícita da lógica imperial no continente. Declarações hostis dirigidas ao governo colombiano de Gustavo Petro, associando agendas progressistas a ameaças à segurança regional e ao narcotráfico, sinalizam que outros países latino-americanos podem ser enquadrados como alvos potenciais de coerção política, econômica ou mesmo militar. O recado é inequívoco: governos que escapam dos parâmetros estratégicos de Washington passam a ser tratados como problemas de segurança.

Ao extrapolar o caso venezuelano, a ofensiva inaugurou um horizonte de insegurança para toda a América Latina. Se a captura de um chefe de Estado em exercício pode ser justificada unilateralmente com base em acusações definidas fora de qualquer instância multilateral, nenhum país da região está plenamente imune. No interregno hegemônico, em que normas se fragilizam e exceções se normalizam, a América Latina volta a ocupar o papel histórico de laboratório do imperialismo, espaço onde se testam doutrinas, se flexibilizam limites jurídicos e impõe-se pela força aquilo que já não pode ser garantido pelo consenso[6].

A ofensiva dos Estados Unidos contra a Venezuela não deve ser lida como um episódio isolado, mas como sintoma agudo da crise da ordem internacional. Quando o consenso já não sustenta o poder, a força reaparece como linguagem privilegiada da hegemonia em declínio. Ao reinscrever a América Latina como espaço de exceção permanente, os Estados Unidos indicam que sua crise tende a ser administrada menos pela construção de novas formas de cooperação internacional e mais pela intensificação da coerção. O risco, como a história regional já demonstrou, é a normalização da violência e o comprometimento duradouro de qualquer horizonte de autonomia política no continente.

 

Beatriz Abreu – doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Integração Contemporânea da América Latina (PPG-ICAL) da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA).

Tereza Spyer Dulci – doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), professora do Programa de Pós-Graduação em Integração Contemporânea da América Latina (PPG-ICAL) da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA).

 

[1] GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

[2] POULANTZAS, Nicos. O Estado, o poder, o socialismo. São Paulo: Paz e Terra, 2000.

[3] UNITED STATES OF AMERICA. National Security Strategy of the United States of America. Washington, D.C.: The White House, dez. 2025. Disponível em: https://www.whitehouse.gov/wp-content/uploads/2025/12/2025-National-Security-Strategy.pdf.  Acesso em: 5 jan. 2026.

[4] UNITED STATES DEPARTMENT OF STATE. Nicolás Maduro Moros — Bureau of International Narcotics and Law Enforcement Affairs releases. Washington, jan. 2025. Disponível em: https://2021-2025.state.gov/bureau-of-international-narcotics-and-law-enforcement-affairs/releases/2025/01/nicolas-maduro-moros/. Acesso em: 5 jan. 2026.

[5] UNITED STATES. National Security Strategy. Washington, D.C.: The White House, 2017–2025 (arquivo geral de política externa). Disponível em:  https://trumpwhitehouse.archives.gov/issues/foreign-policy/. Acesso em: 5 jan. 2026.

[6] FANON, Frantz. Os condenados da terra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.

 Publicado originalmente por: Le Monde Diplomatique

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