Para o analista de risco e fundador da consultoria Eurasia, Brasil está em posição melhor porque não tem problemas de segurança nacional com os EUA e conseguiu recuos do presidente americano em disputas comerciais sem fazer concessões.

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O Brasil está em uma posição melhor do que outros países da América Latina para lidar com a nova política agressiva dos Estados Unidos para a região, avalia o cientista político Ian Bremmer, fundador da consultoria de risco Eurasia Group.
No sábado (3/1), o governo de Donald Trump bombardeou a Venezuela e capturou o presidente Nicolás Maduro, além de fazer ameaças a Cuba, México e Colômbia na sequência, disseminando apreensão entre governos latino-americanos.
Em resposta a uma pergunta da BBC News Brasil em uma coletiva de imprensa, Bremmer destacou que o país não tem "problemas de segurança nacional" com os Estados Unidos.
Já na área comercial, o governo brasileiro conseguiu um recuo de Trump sem fazer concessões, lembrou o analista, citando a retirada de boa parte das tarifas extras impostas aos produtos brasileiros importados pelos Estados Unidos, algo que impactava negativamente o bolso dos consumidores americanos, trazendo riscos para a popularidade do republicano.
"O Brasil está, na verdade, em uma posição mais forte", disse Bremmer, após apresentar o relatório anual da Eurasia sobre riscos globais.
"Se o Brasil tivesse um problema de segurança nacional com os Estados Unidos, seria outra história, mas isso não é realmente um componente dessas conversas, que são esmagadoramente sobre comércio."
Segundo Bremmer, o Brasil sente uma pressão "muito menor" da chamada doutrina Donroe do que outros países da região.
Doutrina Donroe é o nome que está sendo dado para uma releitura da doutrina Monroe sob Trump.

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Essa doutrina, apresentada em 1823 pelo presidente James Monroe (1817-1825) ao Congresso dos Estados Unidos, tinha como lema "América para os americanos" e repudiava colonizações europeias no continente. Na prática, dizem estudiosos, tratava a América Latina como "quintal" dos Estados Unidos.
O fundador da Eurasia lembrou ainda que Trump retirou as tarifas sobre o Brasil sem ter conseguido recuos do governo brasileiro ou do Poder Judiciário quanto à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado e na regulação das redes sociais, questões apresentadas pelo governo americano para justificar as sanções.
No entanto, Bolsonaro está preso cumprindo pena de 27 anos de prisão, e a regulação de plataformas continua na agenda do governo.
"Os brasileiros não recuaram nem nisso [condenação de Bolsonaro] nem na questão das redes sociais. E Trump recuou, porque ele quer um acordo, já que a economia está mais desafiadora", resumiu Bremmer.
"O Brasil tem muito mais TACO do que FAFO nesse jogo", disse ainda, em referência a duas siglas que ganharam destaque nas redes sociais em torno de Trump.
A expressão TACO é uma sigla em inglês para "Trump Always Chickens Out", que em tradução livre significa "Trump sempre amarela".
O termo foi criado em maio de 2025 por Robert Armstrong, colunista do jornal britânico Financial Times, e rapidamente se espalhou por Wall Street (o principal centro financeiro dos Estados Unidos), ganhando força como piada entre investidores e analistas de mercado.

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A expressão se refere a um suposto padrão observado desde o primeiro mandato de Donald Trump: o anúncio de medidas agressivas, especialmente na política comercial, seguido por recuos ou suavizações estratégicas.
Já o termo FAFO vem sendo usado pela administração Trump e quer dizer "F*ck Around and Find Out". Em português teria o sentido de "faça algo errado e descubra as consequências".
No dia da captura de Maduro, a Casa Branca postou uma foto de Trump com semblante sério e a sigla FAFO em destaque.
Publicado originalmente por: BBC News Brasil
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