Eleições, soberania informacional e a disputa pelo controle do futuro



Mais do que um ano eleitoral, 2026 expõe os desafios estruturais do Brasil diante de uma guerra híbrida permanente, na qual instituições, plataformas digitais e a própria percepção da realidade tornaram-se campos de batalha.

2026 não é calendário: é correlação de forças



Tratar 2026 como um simples ano eleitoral é cometer um erro analítico grave e, sobretudo, perigoso. O que se apresenta diante do Brasil neste início de ano não é uma disputa episódica pelo controle do governo, mas a condensação de forças históricas que vêm se acumulando ao longo da última década e que agora buscam se resolver em um curto espaço de tempo. Eleições são apenas o momento visível de um conflito mais profundo, no qual está em jogo a capacidade efetiva do Estado brasileiro de decidir, regular e governar em um ambiente marcado por pressões externas, sabotagem informacional e instabilidade fabricada.


O centro da disputa não é o resultado das urnas em si, mas a margem de manobra política que o país terá nos próximos meses. Um governo pode vencer eleitoralmente e, ainda assim, governar sob cerco permanente, com sua agenda travada por crises sucessivas, campanhas de deslegitimação e constrangimentos econômicos e institucionais. É exatamente essa forma de vitória esvaziada que vem sendo testada no Brasil: não se busca necessariamente a derrota imediata do campo popular, mas a redução progressiva de sua capacidade de iniciativa, até que governar se torne sinônimo de administrar danos.


Esse padrão não é novo, nem exclusivo do Brasil, mas aqui assume contornos particularmente agudos. Sempre que o Estado brasileiro avança sobre áreas sensíveis do poder real — fluxos financeiros opacos, infraestrutura digital, regulação de plataformas, combate a economias paralelas ou reterritorialização da soberania — a reação não se dá apenas no plano jurídico ou econômico. Ela se manifesta como crise política, escândalo permanente, ruído midiático e suspeição difusa, criando a sensação de instabilidade contínua. O conflito deixa de ser apresentado como disputa de interesses e passa a ser enquadrado como falha moral, abuso institucional ou ameaça abstrata à democracia.


É por isso que 2026 precisa ser lido como momento de correlação de forças, e não como evento isolado. O que se decide agora é se o Brasil seguirá reagindo a crises produzidas por terceiros ou se será capaz de disputar o tempo político, antecipar movimentos e reorganizar sua capacidade soberana de decisão. Ignorar essa dimensão estrutural equivale a aceitar o enquadramento do adversário e entrar no ano mais decisivo do ciclo político recente sem compreender a natureza real do conflito que já está em curso.

O cerco material: quando o Estado toca no poder real, a crise deixa de ser acaso



A instabilidade que marca o debate político brasileiro não pode ser lida como sucessão de acidentes, erros de comunicação ou conflitos episódicos entre instituições. Ela emerge sempre que o Estado avança sobre zonas onde o poder real se organiza: fluxos financeiros opacos, economias paralelas, infraestrutura informacional, regimes privados de governança digital e circuitos de financiamento político informal. Nesses pontos, a disputa deixa de ser administrativa e passa a ser estrutural. O que está em jogo não é uma decisão específica, mas a própria capacidade do Estado de interferir em arranjos que historicamente operaram à margem do controle público.


O padrão é recorrente e reconhecível. Medidas estatais que incidem sobre essas zonas sensíveis não geram apenas contestações jurídicas ou críticas técnicas. Elas produzem crises políticas amplificadas, escândalos permanentes, disputas narrativas agressivas e um ambiente de suspeição difusa que contamina todo o sistema institucional. O conflito material é rapidamente deslocado para o plano moral e simbólico, onde o debate deixa de ser sobre interesses e passa a girar em torno de acusações genéricas de abuso de poder, autoritarismo ou ameaça à democracia.


Esse deslocamento não é casual. Ele cumpre uma função estratégica precisa: impedir que a sociedade reconheça o núcleo material do conflito e, ao mesmo tempo, manter o Estado em posição defensiva contínua. Ao transformar toda iniciativa soberana em crise política, constrói-se um ambiente no qual governar passa a significar responder a ataques sucessivos, esclarecer narrativas distorcidas e administrar danos reputacionais, em vez de exercer poder de forma planejada e ofensiva. A crise, nesse sentido, deixa de ser exceção e se converte em método.


Nos próximos meses, esse mecanismo tende a se intensificar. Não porque o Estado brasileiro esteja mais instável do que em outros períodos, mas porque a correlação de forças empurra os conflitos para esse terreno. Quanto mais o governo tentar reterritorializar decisões estratégicas e reduzir dependências estruturais, maior será a pressão para enquadrar essas ações como desvios institucionais. A lógica é simples: se não for possível impedir o avanço material do Estado, torna-se necessário desgastá-lo politicamente até que qualquer movimento adicional pareça custoso demais.


É nesse ponto que o cerco se revela com clareza. Não se trata de uma conspiração abstrata, mas de um conjunto de reações previsíveis de interesses que perdem espaço quando a soberania deixa de ser retórica e passa a ser exercida. Ler esse processo como mera crise institucional é aceitar o enquadramento do adversário. Reconhecê-lo como cerco material é o primeiro passo para compreender por que 2026 será decidido menos pelos fatos isolados que virão à tona e mais pela capacidade do Estado brasileiro de não se deixar aprisionar na armadilha da instabilidade permanente.

O front informacional: quando soberania digital vira condição de governabilidade



A disputa informacional deixou de ser um tema lateral ou “cultural” e passou a ocupar o núcleo da governabilidade no Brasil. O que está em jogo não é apenas a circulação de conteúdos ou o combate à desinformação, mas a autoridade efetiva do Estado para regular os espaços onde hoje se organiza a vida social, política e econômica. Plataformas digitais já não operam como intermediárias neutras: exercem poder normativo, modulam visibilidade, impõem sanções privadas e definem, na prática, os limites do debate público. Governar sem enfrentar essa realidade é aceitar uma soberania mutilada.


É por isso que qualquer movimento do Estado brasileiro no sentido de responsabilizar plataformas ou impor marcos regulatórios mínimos desencadeia reações desproporcionais. O conflito não é técnico nem jurídico; é estrutural. Ao tentar reterritorializar decisões no espaço digital, o Brasil toca em interesses que extrapolam o âmbito empresarial e se articulam a estratégias geopolíticas mais amplas. A retórica da “liberdade de expressão” surge, então, como escudo ideológico: não para proteger direitos concretos, mas para preservar a autonomia soberana de regimes privados de governança informacional.


Nos próximos meses, esse front tende a se tornar ainda mais sensível. À medida que o processo eleitoral se aproxima, a pressão para limitar a capacidade regulatória do Estado se intensifica, pois o controle assimétrico do ambiente informacional é um ativo central na produção de instabilidade. Não se trata apenas de influenciar votos, mas de manter um fluxo permanente de ruído, desconfiança e polarização difusa, capaz de corroer a autoridade pública independentemente do resultado das urnas. A governabilidade passa a ser minada antes mesmo de qualquer decisão política substantiva.


O erro recorrente é tratar esse embate como um debate sobre moderação de conteúdo ou equilíbrio entre direitos. Essa abordagem ignora o essencial: quem define as regras do espaço público digital define, em grande medida, os limites da ação estatal e da organização social. Sem soberania informacional, o Estado reage sempre a posteriori, submetido a arquiteturas técnicas e contratuais que não controla. A política torna-se refém de plataformas que operam em tempo real, enquanto o poder público permanece preso a ritmos institucionais lentos e defensivos.


Reconhecer que soberania digital é condição de governabilidade não implica autoritarismo, mas realismo histórico. Um Estado que não controla minimamente os trilhos informacionais por onde circulam debate público, organização política e economia simbólica abdica de uma parcela decisiva de sua capacidade de governar. Em 2026, esse não será um debate abstrato: será um dos campos centrais onde se decidirá se o Brasil enfrentará o cerco com iniciativa estratégica ou continuará administrando crises fabricadas em um terreno que outros controlam.

A guerra cognitiva: quando o alvo deixa de ser o voto e passa a ser a capacidade de organizar



O erro mais comum nas análises sobre desinformação e polarização é supor que o objetivo central da ofensiva contemporânea seja convencer eleitores ou alterar preferências políticas imediatas. Essa leitura é superficial. O alvo real da guerra híbrida em curso no Brasil é mais profundo e mais duradouro: a capacidade cognitiva da classe trabalhadora de perceber a realidade, estabelecer nexos causais, confiar em vínculos coletivos e se organizar politicamente. Trata-se de uma guerra contra as condições subjetivas da ação histórica, não apenas contra opiniões isoladas.


Esse processo opera por saturação, não por persuasão. O excesso de estímulos, escândalos sucessivos, crises permanentes e narrativas contraditórias produz um ambiente de exaustão cognitiva no qual a distinção entre fato e ruído se torna cada vez mais difícil. A consequência não é necessariamente adesão a uma narrativa específica, mas paralisia, cinismo e desmobilização. Quando tudo parece instável, suspeito ou provisório, a própria ideia de projeto coletivo perde sentido, abrindo espaço para soluções autoritárias, individualistas ou simplesmente resignadas.


Nos próximos meses, essa dimensão da guerra tende a se intensificar de forma silenciosa. Não será marcada apenas por campanhas explícitas ou episódios espetaculares, mas por um fluxo contínuo de microcrises que corroem a confiança social. A classe trabalhadora, já pressionada por insegurança material, endividamento e precarização, passa a carregar também o peso de uma instabilidade simbólica permanente. O resultado é um sujeito politicamente cansado, emocionalmente reativo e cada vez menos disposto a sustentar processos políticos de médio e longo prazo.


Essa guerra cognitiva não é um efeito colateral indesejado do capitalismo digital; ela é funcional à sua reprodução. Um corpo social exaurido e fragmentado oferece menos resistência à captura de renda, à precarização do trabalho e à naturalização da desigualdade. Ao deslocar o conflito para o plano emocional e moral, neutraliza-se a leitura material das contradições e dissolve-se a possibilidade de organização consciente. A política passa a ser vivida como espetáculo ou ameaça, nunca como construção coletiva.


Ignorar essa dimensão subjetiva é um erro estratégico grave. Não há soberania possível sem capacidade cognitiva coletiva, assim como não há democracia material quando a sociedade é mantida em estado permanente de confusão e fadiga. Em 2026, enfrentar a guerra cognitiva não será um luxo teórico, mas uma condição concreta para qualquer projeto que pretenda governar com base popular. Sem reconstruir laços de sentido, confiança e horizonte histórico, toda vitória institucional será frágil, e toda política pública estará condenada a operar sobre um terreno social profundamente desorganizado.

O erro estratégico que o campo popular não pode cometer



Diante de um cenário de cerco material, ofensiva informacional e guerra cognitiva, o erro mais grave do campo popular seria tratar 2026 como um problema de gestão de crises isoladas. Responder a cada ataque com notas, esclarecimentos, decisões pontuais ou defesas jurídicas pode ser necessário, mas é profundamente insuficiente. Esse tipo de reação aceita, de forma tácita, o tempo do adversário, que opera justamente na produção contínua de instabilidade e na multiplicação de focos de desgaste. Quando o governo se limita a apagar incêndios, ele perde iniciativa e passa a governar sob permanente defensiva.


A armadilha é conhecida. Ao enquadrar cada conflito como episódio excepcional, o Estado é empurrado para uma lógica de normalização do caos, na qual a crise deixa de ser sinal de anomalia e passa a ser tratada como rotina administrativa. O resultado é a erosão lenta da autoridade política, mesmo quando decisões corretas são tomadas. Governa-se, mas não se dirige; administra-se, mas não se disputa hegemonia. Em um ambiente assim, a vitória institucional não se converte em capacidade real de condução do processo histórico.


Outro erro recorrente é supor que a defesa das instituições, por si só, seja capaz de conter a ofensiva em curso. A preservação institucional é condição necessária, mas não suficiente. O adversário não busca apenas deslegitimar decisões ou tensionar limites jurídicos; ele opera para corroer a confiança social nas próprias mediações políticas. Defender instituições sem disputar sentido, sem reorganizar o campo simbólico e sem oferecer horizonte material à classe trabalhadora equivale a proteger a forma enquanto o conteúdo se esvai.


Nos próximos meses, essa armadilha tende a se fechar com mais força. A intensificação do calendário eleitoral ampliará a pressão por respostas rápidas e tecnicamente corretas, mas politicamente desarticuladas. Cada reação isolada parecerá razoável, mas o conjunto produzirá imobilismo estratégico. O risco não é cometer um grande erro visível, mas acumular pequenos recuos que, somados, reduzem drasticamente a margem de manobra do governo e do campo popular.


Evitar esse erro exige reconhecer que a disputa em curso não é apenas institucional, mas histórica. Reagir não basta quando o objetivo do adversário é ditar o ritmo do conflito. Em 2026, a escolha decisiva será entre aceitar o papel de gestor de crises fabricadas ou assumir, com clareza, que enfrentar o cerco implica disputar tempo, narrativa e poder de forma coordenada. Sem essa mudança de chave, mesmo os acertos tenderão a produzir resultados politicamente frágeis.

Enfrentar os desafios como disputa histórica de poder



Se os desafios que se apresentam em 2026 são estruturais, a resposta não pode ser episódica. Enfrentar o cerco que se intensifica nos próximos meses exige uma mudança de chave: tratar soberania, comunicação e organização social como campos integrados de poder, e não como áreas administrativas separadas. Isso não significa adotar soluções improvisadas ou gestos de confronto simbólico, mas assumir que governar, neste contexto, implica disputar ativamente as condições materiais e cognitivas da governabilidade.


O primeiro eixo dessa disputa é a soberania informacional entendida como política de Estado. Sem capacidade efetiva de regular plataformas, responsabilizar regimes privados de governança e reduzir dependências estruturais, qualquer vitória eleitoral permanecerá instável. Não se trata de censura ou controle moral do debate público, mas de restituir ao Estado a autoridade mínima para definir regras em territórios digitais que hoje funcionam como extensões extraterritoriais de poder privado. Onde o Estado abdica dessa função, outros governam.


O segundo eixo é a comunicação como disputa de classe, não como marketing institucional. A guerra cognitiva não será vencida com campanhas pontuais ou narrativas defensivas, mas com a reconstrução de vínculos de sentido capazes de reconectar política, vida material e horizonte coletivo. Isso exige falar menos para responder a crises fabricadas e mais para organizar percepção, expectativa e confiança social. Comunicação, aqui, não é ornamento da política pública; é parte constitutiva da capacidade de governar com base popular.


O terceiro eixo é a antecipação como método. Em um cenário de cerco permanente, esperar o próximo escândalo para reagir é aceitar a lógica do adversário. Inteligência política, monitoramento informacional e coordenação estratégica deixam de ser atributos técnicos e passam a ser condições de sobrevivência institucional. Antecipar movimentos, reduzir o impacto de crises previsíveis e disputar o tempo do conflito é o que separa governos que administram instabilidade daqueles que conseguem atravessá-la com iniciativa histórica.


Nada disso elimina as contradições internas nem resolve automaticamente os dilemas de um país periférico em um sistema internacional hostil. Mas delimita uma escolha clara. Ou o Brasil enfrenta 2026 como disputa histórica de poder, assumindo os custos e responsabilidades dessa posição, ou continuará governando sob cerco, reagindo a crises que não escolhe e operando em um terreno definido por outros. Em um ano decisivo, essa não é uma escolha retórica; é a linha que separa soberania exercida de soberania apenas proclamada.


 Publicado originalmente por: <código aberto>

Comentário(s)

-Os comentários reproduzidos não refletem necessariamente a linha editorial do blog
-São impublicáveis acusações de carácter criminal, insultos, linguagem grosseira ou difamatória, violações da vida privada, incitações ao ódio ou à violência, ou que preconizem violações dos direitos humanos;
-São intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença;
-É inaceitável conteúdo comercial, publicitário (Compre Bicicletas ZZZ), partidário ou propagandístico (Vota Partido XXX!);
-Os comentários não podem incluir moradas, endereços de e-mail ou números de telefone;
-Não são permitidos comentários repetidos, quer estes sejam escritos no mesmo artigo ou em artigos diferentes;
-Os comentários devem visar o tema do artigo em que são submetidos. Os comentários “fora de tópico” não serão publicados;

Postagem Anterior Próxima Postagem

ads

ads