Casa Branca mantém política de agressões e ameaças, em busca de vantagens econômicas e geopolíticas. Além disso, ignora Direito e fóruns internacionais. Suas 5 mil ogivas atômicas já não são dissuasórias: tornaram-se ameaça real de conflito devastador

Parafraseando Antonio Gramsci, o novo mundo agoniza ainda na infância, um velho mundo teima em renascer e, nesse breu assustador, irrompem os monstros da modernidade ocidental. Porque o tempo é outro, diferente do contexto do filósofo italiano, percorremos no limite da linha que aparta civilização e barbárie. O tempo é escatológico. Consequentemente, o genocídio de Auschwitz e a hecatombe nuclear japonesa demonstram equivalência com o exterminismo da Faixa de Gaza e a ameaça militar das potências ocidentais sobre os russos e chineses. São equivalências que prenunciam o obsceno renascimento do velho mundo da guerra total e, com ele, o poder escatológico da arma fatal. De qualquer forma, compõe uma equivalência perigosa. Posto que nunca pode ser realizada na totalidade, em razão da existência das bombas de destruição absoluta. Atualmente, há um arsenal global de aproximadamente 12.500 ogivas com poder de destruir o mundo repetidas vezes, que deve ser contabilizado pela nação expansionista.
Em feitio de anacronismo perigoso, a Nação-Império norte-americana, desprovida das boas palavras diplomáticas e da própria realidade da ameaça nuclear, trava guerra unilateral a fim de salvaguardar o país das desvantagens do “livre mercado” global. Trata-se de Estado Suicidário que joga o jogo impossível da guerra total, dado que, irresponsavelmente, desconsidera que há milhares de bombas nucleares acima da cabeça de todos nós. Por certo, Donald Trump desencadeia uma guerra suicidária, pois despreza, completamente, a dissuasão das armas fatais como estratégia político-militar. Na realidade, revela um estado de coisas suicidário produzido pelas potências militares do Ocidente, na medida em que a OTAN, igualmente, ameaça irromper na Europa uma guerra total contra a Rússia, desprovida de realismo estratégico. Infelizmente, o Ocidente Político caminha de forma imprudente na direção do campo minado das bombas nucleares, desrespeitando a já insuportável política de dissuasão das armas fatais.
Abreviando a conjuntura, o primeiro ano do novo governo de Donald Trump foi o de desencadeamento da governança de guerra por todos os meios. De forma unilateral, despachou taxação comercial absurda, sem distinção de países aliados e adversários, na disputa pela hegemonia global. Ele transformou o comércio internacional em um enorme campo de batalha militar. Também passou a especular abertamente a ampliação do território norte-americano, independentemente do Direito Internacional que assegura a soberania nacional. Assim, Canadá e Dinamarca, aliados tradicionais, passaram de potência média para a condição frágil de países pós-coloniais da periferia do mundo globalizado. Demonstração evidente de que a Doutrina Donroe transcende a premissa da “América para os norte-americanos”, pois consiste na submissão de todo o Estado-nação do planeta aos interesses norte-americanos. É a vontade da Nação-Império, a força do forte, que tem sido a pauta central presente no tumulto diplomático atual. De resto, pelo mesmo meio beligerante, Donald Trump trava uma operação endocolonial contra a sociedade civil norte-americana, quando direciona as armas internas da polícia (ICE) no encalço dos imigrantes, em parte significativa, latino-americanos. População já fixada no país. São corpos perseguidos e capturados, por todos os cantos das cidades, como criminosos de guerra com o desejo de forçar a deportação em massa. Há, igualmente, a declaração da guerra cultural, ou melhor, a perseguição ideológica sobre as minorias e a esquerda política. Dito sem ambiguidades, Trump elabora uma ampla limpeza étnica e ideológica no país, muito próxima à deflagrada pelo fascismo europeu do século XX. Subscreve projeto de governo que confere identidade política com a guerra civil reacionária que converteu rapidamente europeus nacionais em judeus, ciganos, homossexuais e comunistas a fim de deportá-los da existência social da pátria pura.
Além disso, Donald Trump conduziu ataques efetivos de encontro às nações soberanas, sem autorização do Congresso Nacional, desrespeitando a própria Constituição Norte-americana e, do mesmo modo, o Direito Internacional, já que os países alvo da operação não representavam ameaça militar à defesa dos Estados Unidos. O ataque aéreo nomeado de “Martelo da Meia-noite”, com o objetivo de destruir as três instalações nucleares do Irã (Fordow, Natanz e Esfahan), ao lado da operação israelense, que eliminou criminosamente, fora do campo de batalha, no ambiente civil, lideranças militares e civis de importância capital à defesa iraniana, proclamou uma inovadora estratégia de guerra de posição, na qual as regras de combate e o ethos militar são completamente suprimidos, em nome do êxito da operação. É a blitzkrieg de Trump, na qual o combate segue a temporalidade da velocidade da comunicação informacional. Então, imediatamente após a operação de guerra, ele afirmou nas redes sociais: “Parabéns aos nossos grandes guerreiros americanos. (…) Agora é a hora de paz!”, (…) a missão foi um grande sucesso”. A descarga de destruição militar foi rápida e pontual, mas a paz aqui é uma imposição unilateral pela força e, igualmente, o silêncio das demais potências libera a nação expansionista para seguir a política de projeção global de poder.
No mesmo modus operandi, Donald Trump, na madrugada de 03 de janeiro do corrente ano, após utilização de ampla guerra cognitiva para transverter Nicolás Maduro no tirano latino-americano e na figura cômica de Narcoterrorista, o Chefe de Estado da Venezuela foi capturado, espantosamente, no interior de uma base militar venezuelana, por meio da operação “Resolução Absoluta”. Realmente, a velocidade da ação militar e a resolução das imagens do terreno venezuelano foram absolutas. Os detalhes precisos e completos das informações para a aplicação do planejamento militar forneceram as condições necessárias à ubiquidade do combate, de forma que os soldados sobreviventes, cativados pela força militar, descreveram os pontos da superioridade do ataque tal como o título da operação criminosa, digo melhor, descreveram as tropas inimigas com o imenso poder panóptico a partir da dominação detalhada das imagens do terreno. Palavras do suboficial da Guarda Pessoal de Maduro, combatente cubano Yohandris: “(…) eles tinham muito mais poder de fogo do que nós. (…) A outra coisa a favor deles é que eles pareciam saber onde ficava tudo.” É o poder de “ver tudo” da potência agressora – graças à captura de informações – que transfere enorme precisão às máquinas de visão de guerra.
De fato, os ataques norte-americanos, que adentraram criminosamente no território iraniano e venezuelano, constatam que a capacidade militar de destruição da Nação-Império requer construção imediata no Sul-Global de forças militares de defesa com grau importante de resistência de combate. O êxito norte-americano nas duas operações revela o “mistério militar” pós-colonial, isto é, a separação entre o Exército e a vontade popular. Trata-se de um exército endocolonial, que está preparado para guerras regionais e a manutenção do controle social sob a própria população. São forças fortes para combater os oprimidos e frágeis para resistir à potência imperial inimiga. Todavia, a guerra na contemporaneidade exige a preparação minuciosa pelo Estado-nação das forças humanas e tecnológicas de defesa militar. As Forças Armadas devem configurar patriotismo orgânico e laços profundos com uma nacionalidade, substantivamente, popular. Os combatentes do Vietnã e, recentemente, os soldados do Afeganistão, demonstraram que a coesão identitária nacional impõe resistência militar importante à completa dominação da potência militar agressora. O moral dos combatentes, independente da assimetria do poder das armas, pesa como um enorme pesadelo sobre o exército imperial inimigo. O terreno de combate é sagrado para os militares, pois o soldado que domina as informações do território descarrega vantagem militar e impõe o êxito operacional no combate ao rival fardado. Em premissa essencial, a eficiência na proteção das informações de combate reflete o alto grau de coesão da nação frente ao poderoso agressor.
Efetivamente, os países pós-coloniais não são apenas carentes de tecnologia avançada de destruição militar, mas, fundamentalmente, de laços nacionais consistentes, sobretudo, entre as elites dirigentes da área de defesa militar e das classes econômicas elevadas em face do interesse nacional. Em suma, a precisão cirúrgica e o sucesso dos ataques norte-americanos decorrem, em larga medida, da falta de coesão e identidade patriótica, pois o acesso às informações sensíveis para a defesa nacional, as informações letais à segurança da Pátria, somente pode ser transmitido ao exército invasor a partir do topo do comando civil-militar. Vale dizer, informação e contrainformação não são armas novas de guerra, porém, no combate contemporâneo, o acesso à resolução absoluta das imagens do terreno já deflagra a derrota antecipada. Assim, quanto menor a coesão nacional, maior é o espectro de transmissão de informação de defesa ao Estado-nação inimigo.
No Capitalismo Tardio de tom neoliberal, a guerra é a economia por outros meios, mas à vista da declinação do Ocidente Político, decorrente do avanço do comércio chinês, a economia passa a ser a da guerra por todos os meios. Os canhões do Ocidente objetivam interferir no fluxo da “Nova Rota da Seda”, de forma que os ataques às potências menores do Sul-Global sinalizam tão-somente os disparos de advertência da nação agressora no afã do recuo chinês. Evidentemente, a estratégia irresponsável e atabalhoada de Donald Trump é a de obstrução do desenvolvimento econômico do Estado Chinês. Ademais, a existência de potências militares e econômicas como bloco no Sul-Global (BRICS) tem contribuído com a sensível inflexão hegemônica do poder econômico norte-americano. O comércio mundial Sul-Sul – a multilateralidade das soberanias nacionais – tem preterido o imperativo do dólar, o que resulta, inexoravelmente, no declínio econômico dos Estados Unidos. De forma que as operações de guerra norte-americana devem ser compreendidas pelo viés do declínio da soberania-mundo. Os ataques norte-americanos seguem o objetivo de, antes de atingir o território chinês, alvejar os interesses pacíficos e estratégicos chineses no globo.
De maneira adicional, a inclinação beligerante da nação norte-americana configura o momento mais agudo da crise global, período no qual a ordem internacional está despreparada para produzir efeitos de contenção diplomática, quer dizer, predomina a inoperância das organizações internacionais para a dissolução de conflitos interestados. Adicionando ao exposto, a irracionalidade do uso da força militar dos Estados Unidos demonstra a ausência de direção política responsável. Não há medida estratégica para aplicar a força militar sem fomentar o perigo da catástrofe total planetária. Importa mencionar que a razoabilidade política na guerra é o que evita a descarga total de violência militar, já que a guerra não é a mera destruição do exército inimigo, mas a conquista de território e da população por meio da ponderação política do uso da força física e psicológica. Portanto, a proposição belicosa deve, impreterivelmente, direcionar-se a um objetivo político razoável e de bom senso. O conflito militar deve ser somente uma parte da continuidade da política. Ele é a imposição da vontade de um Estado Nacional sobre outro, mas quando há potências nucleares beligerantes entre si, a guerra jamais poderá esquentar. Logo, o limite para imposição da vontade deve ser dissuasório. Por conseguinte, perante a crescente proliferação das armas nucleares, a unilateralidade da vontade é suicidária. Assim, em termos militares, é impossível a presença de uma única superpotência, que pelo uso da coação das armas, verte de forma truculenta o jogo do ganha-ganha unilateral às demais potências nucleares. Indubitavelmente, a política da dissuasão nuclear depende do bom senso da classe civil-militar que comanda as operações no campo de batalha. Evidentemente, o despotismo do conteúdo dos objetivos da Nação-Império norte-americana sobreposto às outras potências militares compromete a existência total da humanidade.
É preciso registrar que a última guerra total utilizou a arma fatal para encerrar o conflito mundial e, consequentemente, inseriu a diplomacia da dissuasão nuclear entre as grandes potências militares. Entretanto, hoje a guerra total provocada pelos Estados Unidos pretende desconsiderar a existência real das bombas fatais, impondo a realpolitik do genocídio planetário. Dito de forma direta, uma guerra total após Hiroshima e Nagasaki configura combate fatal, suicídio civilizacional, política do pior atiçada por uma mente atordoada de extrema direita que lidera o maior complexo industrial-militar do planeta. Fruto do último estágio de dominação global do Capitalismo Tardio, coerentemente conduzido por uma nação paradigmática de momento societário radicalmente militarizante da civilização contemporânea. Ela reproduz na ficção fílmica o que produz, cotidianamente, na realidade político-militar, isto é, violência total e totalizante, visto que a indústria cultural norte-americana faz parte da própria máquina de guerra norte-americana. É o que explica a existência das massas e lideranças políticas alienadas que imaginam ser possível tocar no fogo nuclear sem queimar profundamente o corpo, sem dissolver completamente a existência humana. Enfim, displicentemente consideram que a arma de destruição total existe para jamais vir a ser utilizada nos conflitos militares, quando na realidade deve ser observada como bomba fatal – máquina perigosa de dissuasão diplomática – que está disponível para vir a ser imediatamente utilizada no próximo segundo de tensão.
Nessa contextura beligerante, homens e mulheres estão sendo arrastados para o front mediante a ocultação publicitária da realidade do perigo nuclear. É o sacrifício suicidário coletivo, da massa em combate, em que cada feixe demonstra completa alienação do peso insustentável do esforço patriótico. A guerra na contemporaneidade é o resultado da mutação total da sociedade em massa disciplinada e dócil. Afigura o combate obsceno do qual a Nação-Império opera todos os meios tecnológicos de agenciamento dos afetos para transformação de cada indivíduo em soldado de aço a serviço da guerra. Ela permite a configuração de toda a população em exército combatente, graças às máquinas de visão. Telas que subtraem dos olhos a realidade do mundo. É por isso que as eficientes lideranças políticas da extrema direita são, também, corpos midiáticos. Donald Trump é, além de homem de negócios, um produto das telas de comunicação da indústria cultural. Ele dispõe do poder de cativar o telespectador, de substituir os fatos reais por ficção surreal. O aparato de guerra norte-americano e os generais do alto-comando o seguem sem titubear, porque ele é a parte principal da própria máquina de guerra.
Por fim, Donald Trump declara abertamente uma hiperguerra total, na qual a defesa dos interesses norte-americanos passa a ser, pragmaticamente, a guerra por todos os meios. Nesse sentido, diferente da percepção de Lula, Trump não governa pelas redes sociais, porque na realidade não está produzindo política, visto que utiliza as vias informacionais para fazer a guerra cognitiva. São declarações-bomba que objetivam cativar o mundo pelo medo. O uso abusivo da velocidade das bombas de contrainformação geradas por Inteligência Artificial visa imobilizar a reação política interna e externa. Se Hitler inovou ao apresentar no teatro operacional a blitzkrieg, a guerra relâmpago dos carros de combate, Trump apresenta-nos uma guerra ainda mais veloz, o combate de ubiquação na temporalidade do imediato posto pelo complexo informático-militar. Entretanto, Donald Trump não é o Hitler do século XXI – a história e seus personagens não se repetem – visto que o tirano do Norte configura pontualmente o rebento de uma época que teima em fazer renascer o perigo hoje escatológico da guerra total.
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Publicado originalmente por: OUTRAS PALAVRAS
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